domingo, janeiro 4

Em defesa da ética republicana na Administração Hospitalar

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final!
Parte final do Poema "Só de Sacanagem", de Elisa Lucinda (1).
Desde a sua criação, nos finais da década de 60 e princípios da década de 70 até 1988, vigorou a ética republicana no acesso e no exercício da actividade de administração hospitalar: 1) exercício profissional da actividade de administração hospitalar; 2) método de carreira («o mais apto a proporcionar…a desejável justiça nos respectivos  acessos e criterioso rigor no recrutamento»(2)  ); 3) regra do concurso no recrutamento e acesso aos lugares de administração hospitalar («permitindo a satisfação das legítimas expectativas até pela certeza antecipada da meticulosidade das escolhas a que dá lugar, designadamente pela imposição da observância de normas certas e conhecidas no recrutamento e promoção» dos administradores hospitalares»; 4) selecção pelo mérito e respeito pelos princípios da prossecução do interesse público, da igualdade, da legalidade, da publicidade e  da transparência; 5) a exigência de habilitações apropriadas à complexidade da natureza das funções de administração hospitalar («a administração dos hospitais (…) tornou-se tarefa de profissionais com preparação cuidada e estatuto adequado, visto que a mobilização de meios financeiros e humanos nos serviços de saúde atinge enorme volume e os prejuízos decorrentes de uma gestão pouco esclarecida podem ser importantíssimos, tanto do ponto de vista económico como social e humano»)(3)
Com a lei de Gestão Hospitalar de 1988, precursora, nomeadamente no que se refere à governação dos hospitais, da nova gestão pública (à outrance, da ideologia neoliberal) posteriormente consagrada e ampliada pela Lei de Bases de 1990 e pelos diplomas legais que a vieram completar (Novo Estatuto do SNS, em 1993, a nova lei de gestão hospitalar de 2002, e a empresarialização dos hospitais em finais de 2002), deixou de se verificar a ética republicana no preenchimento dos lugares e no exercício da actividade hospitalar.
Os lugares de administração (e todos os de direcção e de apoio técnico, além de outros) passaram a ser preenchidos por livre escolha com base apenas em critérios de natureza política. Com os Hospitais SA e EPE – dados os abusos na liberdade de contratação – esta situação piorou.
Os hospitais foram transformados, de alto a abaixo, em coutadas exclusivas de uma nova casta de privilegiados, novos filhos de algo, de sangue laranja, azul ou cor-de-rosa, regra geral, os encartados partidários, os filhos, os sobrinhos, os enteados, os/as amantes de alguém do poder (ou com poder), os quais, por sua vez, se têm encarregado de contratar, segundo os mesmos processos, outros encartados, filhos, sobrinhos, enteados, ou amantes para os mais diversos cargos e funções. 
Tem-se assistido a um assalto generalizado, a «um fartar vilanagem», por parte de uma vasta horda de hóspedes, sem habilitações adequadas, - cujos actos de gestão carecem dos mais básicos conhecimentos - às diversas funções que antes eram desempenhadas por administradores hospitalares devidamente habilitados e recrutados por mérito.
Em diversos hospitais, os administradores hospitalares de carreira foram colocados em prateleiras, num ou noutro caso em prateleiras douradas, todos, porém, em situação de clara humilhação pessoal e profissional e de total falta de respeito pela dignidade dos cargos que ocupam ou que ocuparam (caso, por exemplo, de alguns ex directores de hospitais ou vogais de conselhos de administração). A falta de pudor, ultimamente, tem-se agravado, no que parece ser uma operação concertada entre os boys desses hospitais. É caso para perguntar: de quem têm medo os boys?
Neste período, de uma desejada mudança na gestão pública, com a necessidade de retorno às regras da boa burocracia weberiana,(4)  os partidos políticos devem ser desafiados a assumir publicamente a sua posição política sobre esta questão.
Para o efeito pedimos a colaboração de todos os colegas administradores hospitalares para que, através do blog Saúde SA, participem na elaboração de um Manifesto que irá ser submetido à consideração da direção de todos os partidos concorrentes às eleições para, em tempo útil, antes das eleições, os administradores hospitalares poderem decidir quanto à sua opção de voto tendo em conta também este considerando
As respostas escritas, ou a falta delas, serão publicadas, para conhecimento de todos, uma semana após o termo do prazo atrás referido.
__________________
1.  Cit in Amorim, C.A.N. (2008). Princípio republicano, cargo em comissão de serviço e clientelismo político nos municípios do Estado do Rio de Janeiro: reflexões sobre a profissionalização da função pública no Brasil. Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas. Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas. Centro de Formação Académica e Pesquisa. Curso de Mestrado em Administração Pública.
2.  As citações, diretas ou indiretas, que aqui se fazem remetem para os preâmbulos dos dois diplomas que estiveram na base da criação da carreira de administração hospitalar e que julgamos ainda hoje pertinentes (D.L. 48357, de 27 de abril e D.L. 441/71, de 27 de setembro).
3.   «Acontece, no entanto, que os hospitais são entidades extremamente complexas, das mais complexas dos tempos de hoje, pelo que, do meu ponto de vista, o amadorismo, qualquer que seja o seu fundamento, faz correr riscos graves, de grande montante económico e de incalculáveis afrontamentos humanos. Por certo que estes riscos podem também verificar-se em administradores de carreira. Só que, nesse caso, há um estatuto e uma responsabilidade profissional.» (Coriolano Ferreira, Três reflexões sobre os administradores hospitalares em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública. N.ºs 1-2, janeiro-junho de 1986, p. 75-76.
4.  Gay, P. (2000, 2012, edição espanhola). En elogio de la burocracia. Weber.Organización. Ética. Madrid. Siglo XXI.


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sexta-feira, novembro 30

Proibido fumar

Nos Hospitais
«Nas instalações do Hospital é proibido fumar. Se é fumador e está interessado em reduzir ou terminar com o hábito de fumar, aproveite o seu internamento e peça um conselho ao seu médico assistente. Ele poderá, eventualmente, orientá-lo pela melhor abordagem para deixar de fumar, de acordo com o seu grau de dependência.» (SAMS)
«Deveres dos visitantes:  … Não fumar. Num hospital não se deve fumar. Por favor, cumpra as regras básicas de saúde.»  (Hospital da Luz) link
«Com o objectivo de melhorar a qualidade do ar ambiente, contribuindo para uma melhor saúde dos utentes e profissionais, bem como para dar cumprimento aos normativos legais vigentes,  é proibido fumar nas instalações do HNSR.   Mais se informa que o não cumprimento desta determinação, significa a aplicação de sanções disciplinares e legais previstas a todos os profissionais e colaboradores do HNSR, visitantes e utentes.» (Hospital do  Barreiro)
«A entrega do «Nível de Prata» aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), decorreu na última sexta-feira, no âmbito do projecto «HUC sem Tabaco», um projecto de luta contra o tabagismo.» (HUC)
«A direcção do Hospital Amadora/Sintra aderiu à Rede Europeia dos Serviços de Saúde Sem Tabaco (RESSST) a partir de 2004, adoptando  a proibição de fumar dentro das suas instalações, tornando-se na primeira unidade hospitalar do país com a designação Hospital sem Tabaco. A designação de Hospital sem Tabaco é atribuída por um organismo europeu e sujeita a constantes fiscalizações para verificar se as normas anti-tabágicas são cumpridas, admitindo a possibilidade de sanções a quem as violar,»
……
Apesar do esforço notável de algumas administrações e profissionais de saúde, nos nossos hospitais, com melhor ou pior organização,  toda a gente fuma. Profissionais, doentes (internados e das consultas), acompanhantes, visitantes, trabalhadores externos.  No átrio e imediações das portarias. À socapa  nas cafetarias, elevadores, corredores, escadas de serviço e portarias secundárias.
Acontece que no meu hospital, como é proibido fumar, não existem cinzeiros nas instalações.  Facto que não preocupa os fumadores que  preferem deitar as beatas para o chão.
O  desinteresse dos não fumadores e  das entidades responsáveis em combater o comportamento dos consumidores de tabaco explica a partilha degradante de todos os dias do átrio de um hospital novo e moderno transformado num mar de beatas.

- Steps to implement a smoke-free environment.link
- Implementing inpatient and outpatient program  link
- Keeping Your Hospital Property Smoke-Free: Successful Strategies for Effective Policy  Enforcement and Maintenance link

Clara

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segunda-feira, outubro 24

JMR, bitaites sobre propostas do GTRH

Coordenador do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar: «Temos uma qualidade de gestão muitíssimo medíocre»

A menos de um mês para o fim do primeiro mandato do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar, José Mendes Ribeiro, que está a coordenar os trabalhos, evitou falar, hoje, em Lisboa, acerca das propostas que estão a ser elaboradas para entregar ao ministro Paulo Macedo.

A sua participação numa conferência promovida pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (APEGSaúde) sobre o tema, justificou, tinha por objectivo «ouvir» os administradores hospitalares presentes na iniciativa.
«Nós também não temos ainda ideias seguras sobre o que há para fazer», confessou igualmente o economista, lembrando que tem entre mãos um «problema complicado» e para o qual contribui a situação difícil do País.
Ainda assim, garantiu que a reforma dos hospitais passará muito pela «melhoria de eficiência da gestão» da rede.

«A qualidade médica é muito superior à qualidade de gestão do nosso Serviço Nacional de Saúde. É um ponto de partida fundamental», identificou, reforçando: «Temos uma grande qualidade médica no sistema, com as melhores práticas, e uma qualidade de gestão muitíssimo medíocre - e contra mim falo, porque tenho estado ligado a ela.»
O esforço para mudar o panorama foi entretanto repartido por todos os que têm responsabilidades nas unidades. Desde os conselhos de administração aos directores de serviço, passando pelas restantes chefias intermédias.
A necessidade de encolher e flexibilizar mais as equipas foi uma das pistas deixadas por José Mendes Ribeiro acerca do caminho a seguir.

Financiamento: «Temos de evoluir para os “outcomes”»

A canalização de dinheiro para os hospitais será outros dos aspectos a alterar. «Se passámos do financiamento de “inputs” para “outputs”, agora temos de evoluir para os “outcomes”», adiantou o coordenador da reforma a propor ao Ministério da Saúde.
Continuando a levantar a ponta do véu, o economista considerou que «o custo da não qualidade é intolerável para o País». Referia-se à taxa de infecção hospitalar de 9,9% - «é um número astronómico. Temos de criar as condições para baixá-lo para 5% em dois anos».

«É por esse tipo de objectivos que temos de guiar a reforma dos hospitais. Não queremos privatizar nada», garantiu José Mendes Ribeiro, aproveitando para responder às críticas que lhe têm sido feitas desde que liderou o processo de empresarialização do sector no Governo de Durão Barroso.
A liberdade de escolha que preconiza, centrando o sistema no cidadão, como também gosta de dizer, é outra das ideias normalmente associadas a uma «postura ideológica».

«Ainda temos tempos inaceitáveis de resposta na cirurgia. Em Espanha são 60 dias no máximo. Depois disso o doente vai aonde quiser», comparou o coordenador da reforma hospitalar.

Ao nível das consultas os respectivos tempos de espera foram igualmente classificados de «absolutamente inaceitáveis» e a referenciação não ficou atrás: «Fizemos um levantamento e chegámos à conclusão de que a rede é muito frágil; responde muito mal; e não cobre muitas das áreas. Na prática não funciona.»
Para sustentar as afirmações, José Mendes Ribeiro referiu o caso de um homem de 71 anos, que se dirigiu a um centro de saúde, em Lisboa, com perdas de sangue, a quem foi marcada uma consulta para o dia 12 de Setembro do próximo ano.
«Claro que este homem vai acabar na urgência e depois dizemos todos que não queremos que as pessoas vão à urgência», antecipou.

Mendes Ribeiro também critica corte «cego»

Apesar de apontar para a melhoria da gestão, o economista revelou ter dito ao ministro Paulo Macedo que o corte de 11% nos custos operacionais dos hospitais, previsto para 2012, é «cego» e «profundamente injusto».
Isto porque, conforme explicou, «há hospitais que já fizeram um grande esforço e outros que não fizeram esforço nenhum».

O coordenador do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar, por outro lado, na sequência dos muitos telefonemas que tem recebido, achou por bem fazer o seguinte esclarecimento: «A encomenda que o nosso grupo teve não é para fazer a carta hospitalar e dizer quantos hospitais fecham.»

Uma vez que tem sido confrontado com a existência de uma lista de 15 unidades a encerrar proximamente, acrescentou: «Não temos nenhuma ideia acerca dos hospitais que vão fechar. Não sabemos ainda as consequências sobre o Pulido Valente, o Curry Cabral e a Maternidade Alfredo da Costa, para além daquelas que estão no estudo inicial e que foi feito quando o Estado decidiu avançar com o Hospital de Loures.»
O «TM» foi então reler o despacho do Ministério da Saúde que criou o grupo técnico e, entre os seus objectivos, com direito a uma alínea própria, consta o seguinte: «Rever a carta hospitalar nacional em devida articulação com a Rede de Cuidados Primários e a Rede de Cuidados Continuados.»

Sérgio Gouveia, TM, 20.10.11

Nota: JMR, pareceu-nos desinspirado nesta sua intervenção. Dando a entender que o grupo enfrenta sérios problemas para apresentar obra asseada.
Para percebermos o que é gestão medíocre, bastará rever o percurso do gestor JMR que inclui a presidência da Comissão Executiva do Grupo Português de Saúde entre 2004 e 2007.

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segunda-feira, julho 11

Cavaco quer alijar a responsabilidade do Estado

O presidente da Associação dos Administradores Hospitalares (ADH), Pedro Lopes, defendeu hoje que o Estado tem capacidade para gerir a sua rede hospitalar, não necessitando de delegar a gestão de alguns hospitais a outras organizações. link
"Essa visão de que o Estado não consegue fazer ou não faz tão bem é uma visão que eu não comungo e que a minha associação não comunga de forma nenhuma", disse Pedro Lopes à Agência Lusa, comentando declarações do Presidente da República.
Aníbal Cavaco Silva afirmou no sábado que "se o Estado não tem capacidade, deve delegar a outras organizações" os cuidados de saúde.
"Não percebo porque é que se diz que o Estado não tem capacidade para. O que tem é que haver mais investimento no Estado. Em vez de se estar a investir, que é isso que o Estado está a fazer neste momento, em instituições que não são públicas, enviando doentes para instituições privadas para fazerem e para serem prestados serviços que o Estado pode prestar", sublinhou Pedro Lopes.
Segundo o presidente da associação, o que "o Estado tem é que investir mais na saúde" e deixar de "enviar os seus doentes para as redes privadas, misericórdias, hospitais privados e clínicas privadas".
"O grande problema é que o Estado a partir da 13:00 praticamente tem os seus blocos fechados e envia doentes para os blocos privados, que trabalham no período da tarde. A minha pergunta é porque é que os blocos operatórios dos hospitais estaduais não fazem esse serviço e estão fechados quando têm toda a capacidade instalada para o fazer", questionou Pedro Lopes.
DN 11/07/2011

Uma boa questão colocada por Pedro Lopes. A verdade é que se empresalizaram os hospitais do SNS mas na componente clínica pouco ou nada se fez. À parte um ou outro hospital em que os blocos operatórios funcionam à tarde, geralmente em regime de SIGIC, nos restantes mantém-se, exceptuando urgências, o regime de actividade matinal.

É evidente que se esta situação se tem perpetuado governo após governo, é porque convém a muita gente. Já aqui falei das consequências nefastas da promiscuidade público-privado e não vou voltar ao assunto. Direi apenas que de cada vez que um partido político se prepara para governar e esta questão é aflorada, o líder garante que se for eleito irá resolver o problema separando águas. Foi assim também com Passos Coelho, declaração de que poucos se lembrarão e menos ainda acreditam que seja para cumprir.

Parece-me, porém, que não era apenas à gestão hospitalar que as palavras de Cavaco se dirigiam. O que julgo ter querido dizer é que se por insuficiência de meios financeiros o Estado não puder garantir cuidados de saúde a todos os portugueses deve alijar essa responsabilidade. Para além da sopa dos pobres, às Misericórdias ficaria entregue a responsabilidade de tratar os concidadãos sem meios para suportar os previsíveis aumentos de encargos nos cuidados de saúde. Porém, à parte o reaccionarismo da proposta, ignorará o Presidente que em matéria de Saúde aquelas instituições nada têm de filantropo?

Tavisto

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domingo, abril 17

Modelo de Gestão dos Hospitais

A «consensualização» de um modelo de gestão dos hospitais foi o desafio que Manuel Delgado, deixou à classe política. O legislador ainda não decidiu de uma vez por todas se quer um modelo «basista» — com o presidente do conselho de administração a ser eleito pelos pares —, «carreirista» — no qual a pessoa mais qualificada da carreira hospitalar assume a presidência — ou uma solução em que o próprio Governo nomeia «discricionariamente» o líder. «Vejo ziguezagues permanentes nas diferentes actuações políticas à medida que os governos mudam e, de facto, era bom que consensualizássemos um modelo minimamente aceitável».

A política de recursos humanos mereceu também um reparo crítico por parte de Manuel Delgado. Nomeadamente em termos de recrutamento e selecção, treino, carreiras e modelos de remuneração. «Diria que tudo isto está por fazer no modelo português. Aqui está uma das áreas onde não se chegou a lado nenhum», denunciou. Com a chegada do FMI e da UE ao País, por causa das contas públicas, «vamos perceber o que é mudar as leis laborais» noutros sectores. «Na Saúde também teremos de fazer alguma coisa. Se calhar rapidamente e a contragosto. Perdemos muito tempo e tivemos muitos tabus neste capítulo», lamentou.

No ar pairam também questões como as relacionadas com a opção de juntar hospitais ou de evoluir para modelos que integram os vários níveis de prestação de cuidados de saúde (primários, secundários e continuados). «Tudo isto está por esclarecer e o mais gritante é que está por avaliar. Não sabemos se a fusão de hospitais foi uma coisa boa, nem sabemos se a criação das unidades locais de saúde foi uma coisa boa. Continuamos na plena ignorância», constatou Manuel Delgado.
Tempo Medicina 18.04.11

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terça-feira, fevereiro 1

A malta "power point"

Quem nos acompanha, há algum tempo, certamente terá notado repetidas alusões à gestão “power point”.
Do que se trata ? Bom, tem a ver com a atitude, o estilo, a forma de actuação de uma certa geração de gestores hospitalares (e não só) que primam por cultivar o acessório, fazendo gala das espampanantes apresentações power point com as quais julgam evidenciar a sua pretensa superioridade técnica e intelectual.

Sobre esta dita cultura "power point" foi publicado recentemente o livro "La pensée power point – Enquête sur ce logiciel qui rend stupid", de
Franck Frommer, de quem postamos um curto e esclarecedor excerto da entrevista publicada na revista visão:

O power point tem hoje 500 milhões de utilizadores. Como explica o sucesso
É muito prático, pois permite produzir facilmente um suporte (com texto, imagem e gráficos), que pode ser reproduzido até ao infinito, em todos os tipos de apresentações, seja sobre os objectivos de uma administração seja sobre o plano de invasão do Iraque. Tornou-se uma linguagem quase universal. Criou, aliás, uma língua nova, cheia de automatismos, que tornam o discurso descarnado, neutro. Permite desresponsabilizar quem usa da palavra.

Considera-o, aliás, um dispositivo perverso
Porque é paradoxal. Dá a ilusão de criatividade,mas,ao mesmo tempo, é constrangedor. Pouco permite sair de um fio condutor linear e não favorece a interatividade. Parece muito «científico», embora seja muito simplista. Como transforma toda a argumentação em listas de pontos impede o debate. Inventa laços de causalidade artificiais. É um instrumento de venda feito para seduzir. Não é perverso em si mesmo, mas sim pelo seu uso omnipresente para fins inadequados.

Fala de uma «contaminação universal» do power point. Porquê?
Tornou-se a língua universal do modelo de gestão dominante e dos que o transmitem, consultores como a McKinsey ou o Boston Consulting Group. Estes gabinetes aconselham as maiores empresas e organizações do mundo. Assim, os seus métodos acabaram por invadir outros domínios, como a Administração Pública. Mais grave: tornou-se um instrumento de avaliação na universidade e nas escolas.

drfeelgood

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domingo, janeiro 31

Adalberto deixa o CHLN

foto portal da saúde
Para quem tem acompanhado o seu trabalho no HSM e CHLN o primeiro sentimento é de surpresa . link

Ainda recentemente o secretário de estado em entrevista ao expresso reconhecia que "os grandes hospitais públicos são bem geridos e esses gestores já com bons resultados confirmaram-me que é possível haver mais poupança - isso dá-me bastante conforto enquanto responsável pela gestão da área financeira. "

Como já aqui referi anteriormente nenhum gestor hospitalar me surpreendeu mais nos últimos anos pela sua capacidade de liderança e inovação. A provar, por vezes, a vantagem de "o sistema acolher gente fora da tribo ".
Os resultados estão à vista.
Na altura em que abandona com honra a gestão de um dos maiores hospitais do SNS, após cinco anos de árduo trabalho, acho oportuno agradecer-lhe o exemplo e esperança que nos trouxe e dizer-lhe que poderá contar sempre com o nosso apreço e estima .

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quarta-feira, outubro 15

Jorge Simões, entrevista à GH


Gestão Hospitalar (GH)O SNS está moribundo? link
Jorge Simões (JS) – Não. Seguramente que não está!
GHDiz isso com muita certeza. Porquê?
JS – Podemos fazer diferentes tipos de medições para responder a esta quase certeza. Todas essas medições, no entanto, estão relacionadas com os ganhos em saúde. A saúde dos portugueses vai melhorando, de uma forma significativa, embora seja sempre difícil identificar a relação entre os ganhos em saúde e a intervenção do sistema de saúde – mais concretamente do SNS. Por outro lado, o crescimento da despesa dá-nos alguma tranquilidade…
GHComo analisa então o facto de as pessoas, em geral, estarem descontentes com o SNS?
JS – O grau de descontentamento das pessoas, tem de ser analisado com alguma atenção. Regra geral, nós temos uma percepção do sentir das pessoas a partir de aspectos negativos importantes. Mas temos também uma percepção muito positiva daquilo que pensam os cidadãos e os utilizadores. E podemos ir por aí.
Temos, sem dúvida, um problema de acessibilidade, devido à existência de listas de espera, que penaliza a forma como se vê o SNS…
GHNão há como mudar essa situação?
JS – A situação está a mudar. Não há lugar para pessimismos a esse nível. Eu, pelo menos, não tenho essa sensação. Pelo contrário sou muito optimista. Mas tenho optimismo baseado na evidência. Embora não sejam sintomas muito significativos de melhoria, a verdade é que são sinais que apontam para um caminho muito positivo. Repare que estou a falar na questão da acessibilidade, particularmente no que se refere às listas de espera. Se analisarmos os últimos cinco anos, vemos uma melhoria real.
GHSim, mas também tem um tempo demasiado longo para ter acesso a uma consulta externa, nos hospitais – particularmente – e tem uma coisa que até há três ou quatro anos não existia: lista de espera em oncologia….
JS – É verdade. Temos, de facto, espera com alguma importância, em oncologia, nos institutos (Lisboa, Porto e Coimbra). Não temos nos hospitais gerais. Mas seja como for esta situação é grave. É uma verdade que hoje temos patologia oncológica praticamente em todos os serviços e, neste contexto, este problema tem de ser equacionado com muita atenção. Se foi criado um programa especial para cataratas se calhar justifica-se a criação de um programa especial em oncologia…
GHSeja como for, e apesar desses problemas, está feliz com o rumo que o SNS
tem tido?
JS – Não diria feliz, mas optimista. E estou optimista tendo em consideração tudo aquilo que o SNS passou, ao longo da sua vida – com alguns períodos bastante difíceis – e, particularmente, com o rumo que o SNS tem tomado nos último tempos.
GHFalemos da sustentabilidade económica do SNS. Vivemos mais anos e com mais doenças e o Estado não consegue suportar os gastos derivados desta situação. Acha que é necessário mudar o percurso que estamos a seguir? No fundo, acha que cada um de nós deve também ser chamado para arcar com uma parte das responsabilidades financeiras da situação?
JS – Espero bem que não. Isso iria trazer certamente maiores iniquidades à sociedade portuguesa, particularmente à área da Saúde, que iriam penalizar, ainda por cima, as pessoas com baixos rendimentos. Em Portugal, quem tem a seu cargo preocupações sociais deve pensar bem antes de propor soluções desse género.
GHMas então como se resolve o problema? O dinheiro não chega para tudo! Todos gostaríamos de ter o hospital ao pé de casa; um acesso mais rápido às consultas; os medicamentos gratuitos….
JS – Isso pode ser resolvido de uma forma simples de dizer e difícil de aplicar. É simples de dizer porque temos de ser capazes de concretizar, de uma forma franca, o que se pode e o que não se pode disponibilizar. E sempre foi assim, veja o caso da Medicina Dentária e Saúde Oral, em que temos taxas de mais de 90 por cento de utilização dos cidadãos em ambiente privado, uma vez que o SNS a este nível não dá resposta. É preciso dizer de uma forma clara aquilo que o SNS pode dar e o que não pode dar.
Por outro lado, há que ter em atenção algo que nos últimos tempos foi tentado – e com êxito – a redução de gastos no sector, tendo em conta a capacidade financeira do SNS.
GHEm sua opinião, gastamos muito ou pouco com a Saúde?
JS – A resposta é “não sei”…
GHSendo o Professor a dizê-lo é preocupante…
JS – Nós, na verdade, já gastamos um pouco mais de 10 por cento do nosso PIB com a Saúde…
GH Mas o nosso PIB é pequenito…
JS – O nosso PIB é pequeno mas o do Luxemburgo também é pequeno e os luxemburgueses não chegam a este valor. Ou os dinamarqueses. Esse argumento não chega!
Mas nós podemos, enquanto comunidade – e embora a comunidade portuguesa, e outras, se manifestem de maneira débil – definir que a Saúde é a prioridade das prioridades e assumir que vamos canalizar mais recursos para esta área em detrimento de outras. Este é um primeiro comentário. O segundo, é que quando nos comparamos a outros países – quer em relação à despesa, em geral, quer em relação à despesa pública e dos privados – temos de ser conscientes e saber que gastamos mais do que a média da União Europeia (EU). É preciso dizer de uma forma clara aquilo que o SNS pode dar e o que não pode dar. Esse é um valor de referência e, portanto, desse ponto de vista gastamos muito. (...)

entrevista de marina caldas, GH n.º38

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