sexta-feira, abril 19

Fundamental

A conclusão das negociações para um novo acordo da Geringonça parece estar para breve. 
A gestão pública dos hospitais, o fim das PPP da Saúde, devem constituir ponto fundamental da política de saúde a acertar.
O investimento privado em Saúde, as PPP da Saúde, verdadeiros cavalos de tróia plantados na rede pública do SNS, têm como objectivo estratégico primordial a quebra da universalidade, a conversão do nosso serviço público de saúde num sistema de “dupla porta”: Hospitais públicos descapitalizados para os utentes pobres, acesso fácil para os clientes que podem pagar seguros de saúde.

Etiquetas:

sábado, janeiro 5

Libertação das PPP

Para a ARSN, as exigências de reposição do financiamento ao tratamento do HIV, esclerose múltipla e hepatite C “não são compatíveis com o teor do atual contrato de gestão, dado o seu financiamento estar integrado nos pagamentos estabelecidos para as diferentes linhas de produção definidas no referido contrato”. 
Acrescenta que, assim, fica afastada a hipótese de celebração da referida renovação e que o processo de reversão para a esfera pública da gestão do Hospital de Braga se tornou “inevitável”. 
“Assim, enquanto continua em desenvolvimento a preparação do caderno de encargos para o lançamento do procedimento concursal para constituição de uma nova PPP, a ARSN e a tutela trabalharão com a equipa gestora do Hospital de Braga na preparação conjunta do processo de reversão, de modo a que, em 31 de agosto de 2019, as questões relacionadas com a transição fiquem concluídas”, remata o comunicado da ARSN. A questão do financiamento do tratamento daquelas três doenças vai ser dirimida em sede de tribunal arbitral. 
“O Minho”, 03.01.19 link 
A JMS, apesar das PPP, terem passado  incólumes” aos cortes orçamentais da última crise link, tentou forçar o Estado, uma vez mais, a cobrir todos os riscos (prejuízos). 
É evidente que o Estado não teve alternativa, senão assegurar a reversão do Hospital de Braga para a gestão pública. 
Uma decisão, só aparentemente, correcta. O tempo necessário para o lançamento do procedimento concursal de nova PPP (segundo comunicado da ARS-Norte). E, bem entendido, outras negociações por debaixo da mesa que escapam ao comum dos cidadãos. 
O primeiro episódio de mais um processo vergonhoso? Para já, tudo o indica. 
"Andamos nós "práqui", todos os dias a trabalhar, a fazer o nosso melhor, para alimentar burros a pão de ló" (comentário apropriado de um amigo alentejano). 
Nota: Não temos dúvidas que a nova administração pública do Hospital de Braga fará melhor. Experimente a ministra da Saúde nomear o presidente da APAH. 
Apesar do cepticismo, vamos continuar a apostar, aqui no SaudeSA, na libertação de todas as PPP. A bem da Saúde do nosso país.
drfeelgood

Etiquetas:

sábado, novembro 24

Costa, refundador do SNS

Serviço Nacional de Saúde “esteve estrafegado”, sem conseguir reaver os quatro hospitais entregues a grupos económicos. 
Fundador dos acordos com o sector privado para a administração de unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o antigo ministro da Saúde socialista, Correia de Campos, critica a manutenção das Parcerias Público-Privadas (PPP) depois de terminado o contrato. Os dez anos, em média, da intervenção privada na gestão clínica deviam ser aproveitados pelo Estado para se preparar para retomar o controlo desses hospitais. Não o fez. “O SNS não foi capaz de responder porque esteve estrafegado, incluindo nestes últimos anos.” 
Sem capacidade de reação — desde logo, “porque houve muitas saídas de gente qualificada” — , “não foi possível melhorar a eficiência”, e o Estado acabou por ficar “numa situação de necessidade e vai ter de pedir, com uma posição enfraquecida, ao concessionário que faça o favor de prosseguir durante mais uns anos”. Assim deverá ser nos hospitais de Braga, Cascais, Vila Franca de Xira e Loures. No final da legislatura não há tempo para mudanças mas o Governo ainda pode “aprender com estas experiências”. 
Correia de Campos afirma que o aumento das verbas para a Saúde em 2019, mais €550 milhões, são um bom indício. “Não está bem a gestão intermédia dos hospitais (os diretores não podem escolher o seu quadro de pessoal, fazer obras ou ter novos equipamentos), mas há uma proposta no orçamento para ensaiar, em 11 grandes hospitais, mecanismos novos de gestão, mais autonomia e responsabilidade.” É um fôlego extra na reta final. 
No caminho, o Governo tem ainda para aprovar uma nova Lei de Bases da Saúde. Correia de Campos recusa um palpite sobre a versão vencedora e assume divergências com a primeira proposta entregue, pelos falecidos fundador do SNS, António Arnaut, e deputado do BE, João Semedo. Correia de Campos é contra o afastamento total dos privados e o fim das taxas moderadoras. 
Nota à entrevista de Correia de Campos, Expresso 24.11.18 
Correia de Campos entende que dez anos de gestão privada dos hospitais do SNS já chega. O pai das PPP, acha que chegou o tempo de emendar a mão. Fazer regressar os hospitais PPP à gestão pública. 
Efectivamente, se a retoma do hospitais PPP por parte do Estado não se fizer nos próximos tempos será o fim definitivo do SNS. O Estado perderá irreversivelmente o controlo dos destinos da Saúde. Refém das condições impostas (beneficiando da sua posição hegemónica) pelas empresas internacionais de gestão de fundos proprietárias dos grupos de saúde que actuam no nosso país (excepção feita, até ver, à José de Mello Saúde), limitado ao papel de financiador do sistema. 
O que estes dez anos de infeliz experiência de gestão privada de hospitais do SNS (clínica e edifícios) tem demonstrado é que os privados não têm vocação para actuarem na área social, limitando-se a gerir o negócio como melhor lhes convém. Aumento de dimensão, capacidade negocial, aprendizagem, sangria de profissionais formados no sector público, transacção de participações e realização de mais valias, motor do desenvolvimento das pequenas clínicas que proliferam por todo o território. 
Estranhamos que Correia de Campos tenha precisado de dez anos para defender publicamente de forma clara o retorno dos hospitais PPP para a gestão do estado. Mas mais vale tarde do que nunca, como diz o proverbio popular. 
Notas: 
1.º Gestão rasca: Um relatório da Ordem dos Enfermeiros, recentemente enviado à ministra da saúde, dá conta da prática por parte do hospital de cascais da contratualização de enfermeiros em regime de prestação de serviços com 250 horas mensais (62,5 horas semanais) (informação não rebatida pela administração do hospital). link 
2.º Costa, refundador do SNS,  definitivamente para história. Uma maioria absoluta PS que garantia nos dá num futuro mais risonho do SNS, onde se inclui, naturalmente, o regresso dos hospitais PPP à gestão pública? 
Apesar de todas as dúvidas eu votaria sim.
drfeelgood

Etiquetas:

sexta-feira, novembro 9

Linhas de governação

Financiamento 
O Governo aprovou em 26/10 uma dotação extraordinária para os Hospitais EPE no montante de 500 milhões de euros. link 
O orçamento do SNS beneficiará de um aumento das transferências do OE 2019 (já aprovado na generalidade com votos do PS, BE, PCP, PEV e PAN) de 612 milhões de euros (9.112 euros total transferências). link 
Gestão de recursos humanos 
A nova ministra já adiantou que 2019 "será um ano de redução da suborçamentação e de redução do défice do SNS em 147 milhões de euros, beneficiando, à partida, de um aumento das transferências do OE de 612 milhões de euros. «Mais 186 milhões de euros (+5%) para a despesa com pessoal, para fazer face ao crescimento dos efetivos e a reposição de direitos em matéria salarial, horas extraordinárias, horas de qualidade, a uniformização do período normal de trabalho no SNS e os novos ingressos» (nota explicativa). 
Quanto à política de recursos humanos, tudo o indica, a contenção vai continuar. Veremos quantas greves a ministra terá de enfrentar.  Sem esquecer que estaremos em ano de eleições.
Controlo da despesa com medicamentos, outra grande prioridade 
Nesta área Francisco Ramos (FR), constitui uma poderosa mais valia pelo conhecimento que tem do sector. 
Segundo FR, «o aumento da despesa pública em medicamentos nos últimos três anos de 500 milhões de euros, traduz “a maior prioridade” de aplicação de recursos financeiro no SNS. Num período em que a inovação terapêutica atravessa desenvolvimentos sem precedentes e onde os novos medicamentos constituem um desafio à sustentabilidade dos sistemas de saúde, importa desenvolver novos modelos e soluções, sendo importante garantir o “permanente equilíbrio” entre a busca de ganhos em saúde e a sustentabilidade do SNS. “Olhar apenas para um lado não deu e não dará bom resultado. Há, portanto, de ir à procura de equilíbrio entre inovação, melhoria da qualidade de vida e sustentabilidade dos sistemas de saúde que nos permitem que estas inovações não fiquem ou na gaveta ou reservadas a um grupo muito restrito de pessoas, mas que estejam disponíveis para todos os cidadãos que delas carecem”. Cabe à indústria farmacêutica saber adaptar o investimento associado à inovação e promover “o que proporciona realmente valor”, dando prioridade a escolhas com base na evidência sobre o real valor de cada nova tecnologia e no esforço exigido a uma sociedade com recursos limitados». link 
O orçamento da Saúde podia ser mais confortável? 
Poder, podia... 
A nossa despesa da Saúde, 9,0% em percentagem do PIB (2017), é ligeiramente superior à média dos países da OCDE (8,8%); a despesa per capita 2.888 USD PPP, muito abaixo da média dos países da OCDE (3.992 USD PPP). link 
Nos tempos da geringonça, o aumento dos gastos em Saúde tem sido inferior ao crescimento da economia. Em 2017, a despesa do SNS registou um aumento de 3,8% enquanto o PIB nominal subiu 4,4% . E assim continuará, tudo o indica, em 2019. 
Mas isto só lá vai com a alteração do modelo de prestação de cuidados. 
 «O modelo actual é muito ineficiente (má utilização do arsenal terapêutico, por exemplo antibióticos; sub utilização das salas de bloco; elevadas taxas de faltas das consultas médicas) e a sustentabilidade do sistema e limites de financiamento implicam mais eficiência. Na Europa, 86% dos doentes são crónicos e, por isso, o modelo de agudos não lhes serve. Este trata e repara e manda para casa, mas não serve para os cuidados continuados, por isso este modelo construído nos últimos 50 anos tem de mudar. A transformação é possível porque nos orçamentos da saúde há muito potencial de eficiência e há novos instrumentos . Hoje podemos ligar , digitalizar e comunicar tudo com tudo e já se sabe gerir quase todas as enfermidades a partir de casa para controlar os doentes crónicos, estratificar o risco, integrar os cuidados hospitalares e de saúde, novos papéis profissionais. Passar do modelo em que as diferentes estruturas do sistema funcionam de forma separada para um modelo em que actuam em conjunto.» Rafael Bengoa co-director do Institute for Health & Strategy de Espanha 
As sementes da mudança estão lançadas: Desenvolvimento da hospitalização domiciliária e centros de responsabilidade integrados, apoio à mobilidade interna, melhoria da resolutividade dos centros de saúde como forma de reduzir a afluência às Urgências, renovação de instalações e equipamentos.
Drfeelgood

Etiquetas:

domingo, setembro 30

Hospitais PPP, escaparam à crise

Entre 2010 e 2016, os encargos com hospitais públicos decresceram 8%, enquanto a despesa com hospitais privados aumentou 40%. Mesmo havendo uma diminuição da despesa com hospitais, a transferência de financiamento do SNS para os hospitais privados aumentou em todo o período, escapando incólume à crise.
Essa questão tem a ver com os contratos das Parceria Público-Privada (PPP). Os governos respeitaram na íntegra os contratos dos hospitais PPP enquanto todo os outros hospitais públicos não foram respeitados nas suas regras de financiamento e tiveram cortes significativos.
Dizem mesmo que as entidades privadas “conseguiram passar pelos pingos da chuva” da crise. Porquê?
Não tenho nenhuma explicação a não ser constatar a evolução dos números.
Segundo a vossa análise, em termos da percentagem de despesa pública em saúde no PIB, historicamente Portugal situa-se acima das médias da OCDE e da UE. Mas com a crise a situação inverteu-se. 
O efeito da crise económica sentiu-se muito em Portugal e praticamente não se sentiu quando olhamos para a evolução das médias da OCDE e da UE. Quanto muito pode-se notar um ligeiro abrandamento do ritmo de crescimento da despesa e em Portugal nota-se que o financiamento público contraiu muito significativamente e ainda não recuperou, pelo menos nos dados mais recentes. Curiosamente, da parte da despesa das famílias é como se não tivesse existido crise. As pessoas continuaram a gastar os mesmos volumes. Cerca de cinco mil milhões de euros por ano directamente em cuidados de saúde. Diria que ainda assim é muito significativo porque as pessoas em geral tiveram menos rendimentos para gastar. Mas temos claramente um excesso da despesa das famílias (28% do total). E temos também um problema de subfinanciamento do SNS. Mesmo quando olhamos para a despesa pública ela reduziu e reduziu muito. Tínhamos antes da crise um nível de despesa pública superior em percentagem do PIB à media dos países ricos. Hoje, não é assim, é inferior, mas muito desse dinheiro também não chega ao SNS.
Vai para onde?
Vai para os subsistemas, vai para os benefícios fiscais, que é usado de outras formas não sendo canalizado para o SNS. E portanto o principal instrumento para organizar o sistema de saúde em Portugal é claramente subfinanciado. E a forma de constatarmos esse subfinanciamento são múltiplas. O orçamento inicial é sempre muito inferior aquilo que é a dotação final do SNS. Mas nós podemos ficar sempre a discutir as insuficiências do SNS e a chover no molhado e não encontrar formas de resolver o problema. Aquilo que vai acontecendo é que em cima das insuficiências vai se instalando sem qualquer critério uma oferta privada que está longe de ser eficiente e que na sua maior parte é redundante. Ou seja, não traz nenhum ganho para a saúde dos portugueses a não ser aparentemente alguma rapidez na resposta. Acho que estamos na altura de repensar um pouco tudo isto e tentar ir além, ou seja, aceitar que não fomos capazes de cumprir a generalidade prometida na Constituição e apresentar propostas concretas para resolver o problema.
O que se deve fazer? 
O actual governo até tem aumentado o orçamento do SNS. Mas de forma insuficiente. Acho que é possível buscar mais dinheiro. Aquilo que foi dito nos jornais é que o orçamento do SNS vai ser reforçado com 300 milhões em 2019. Claramente é insuficiente. É preciso bastante mais dinheiro para terminar o subfinanciamento do SNS.
Como vê a proposta apresentada pelo dr. Luís Filipe Pereira de alargar a gestão privada dos hospitais públicos? 
A questão das PPP é uma falsa questão. Tanto quanto sei, actualmente as PPP estão a funcionar bem e são hospitais públicos que cumprem a sua missão de hospital público e portanto não me incomoda a existência de PPP. Mas na minha avaliação pessoal, acho que ficaram longe de demonstrar os benefícios que se poderiam esperar de um tipo de gestão diferente. Acho que esse aspecto falhou e portanto precisa de ser revisitado.
Está a dizer que não faz sentido promover mais PPP? 
Sem uma fortíssima reavaliação, não faz sentido. Eu esperava que os modelos de gestão hospitalar tivessem dado um salto qualitativo graças a inovação trazida pelas PPP. Mas não conheço nenhum sítio onde isso tivesse acontecido.
O que espera da nova Lei de Bases? 
Não reconheço nenhuma utilidade na sua revisão.
JN 21.09.18, Francisco Ramos, presidente do IPO Lisboa 
A provar que os HH PPP não fazem mais, nem melhor, nem são mais seguros, basta consultar o indicadores benchmarking dos Hospitais do SNS.  link

Etiquetas: ,

sábado, setembro 22

PSD, não faz bem à Saúde

A leitura do documento estratégico do PSD sobre saúde, deixou-nos a sensação confrangedora de um conjunto de “post its” recolhidos entre os elementos do grupo de trabalho, colados à pressa nas dezanove páginas do documento de apresentação. link 
Talvez por isso, alguém, envergonhado da obra feita, ter-lhe chamado "work in progress", entendido como algo de útil que se pretendia apresentar mas ainda não é.
Nem vai ser. 
O grupo de trabalho autor deste triste trabalho, coordenado por Luís Filipe Pereira, conhecido como o Darth Vader da Saúde, integra Rui Raposo, administrador do José de Mello Saúde, grupo privado que gere os hospitais CUF; Vítor Herdeiro, da unidade pública local de saúde de Matosinhos; Ana Paula Martins, bastonária da Ordem dos Farmacêuticos; João Marques Gomes, investigador em Gestão da Saúde na Universidade Nova; e António Teixeira Rodrigues, da Universidade de Aveiro .
Basicamente, o referido "work in progress" valeu a nossa atenção pela vil proposta de privatização da Saúde. Através da contratualização aos privados de serviços geridos directamente pelo Estado, através de um processo progressivo, sem ondas, doucement, nada de revoluções do tipo "big bang" dos hospitais SA. Uma  reforma/privatização discreta do actual modelo de gestão das unidades de saúde do SNS. 
Sobre a proposta do PSD,  a análise do ministro da saúde , Adalberto Campos Fernandes, é certeira: Há quem critique o SNS para o desgastar e privatizar. Com essas propostas, "num quadro de resignação política", esses críticos pretendem, "no fundo, desistir da reforma do SNS por dentro da sua função de serviço público para depois poder privatizar- Quem tem uma estratégia de desgaste diária, [para dar] a ideia que existe uma degradação do serviço", quer, "provavelmente, abrir espaço e caminho para que, depois, apareçam propostas políticas que naturalmente digam que a função do SNS de natureza pública não funciona e o melhor será privatizar, expresso 15.09.18. link 
Dias depois, na melhor entrevista que vimos a ACF nos últimos tempos (RTP3)  link,  o ministro da saúde considerou a “proposta muito frágil”, que retoma ideias que têm 15 anos, o que significa “um ato de desistência política”. “O PSD tem um problema que é histórico, e não é apenas na saúde, desiste facilmente do Estado, não gosta do Estado e sempre que é confrontado com dificuldades no Estado orienta-se para a privatização”. 
Notas: 1.º Grande notícia: Os ministérios da Saúde e das Finanças que tutelam os hospitais EPE, vão lançar um programa em 2019 abrangendo um quarto dos hospitais do SNS de autonomia e incentivos à gestão, nomeadamente o reforço de investimento e capacidade de recrutar. 
2.º Vitor Gonçalves (Grande Entrevista, RTP 3) não anda a fazer bem o trabalho de casa. Nesta entrevista foi clara a sua impreparação para lidar com os vários dossiers da Saúde. Clichés não fazem bom jornalismo. Ao pretender ser acutilante conseguiu apenas ser chato.

Etiquetas:

domingo, setembro 16

PSD, um mar de PPP

«Sem documento oficial, mas com powerpoint, o PSD apresentou finalmente aquela que vai ser a sua aposta para a “grande reforma” do Serviço Nacional de Saúde: generalizar progressivamente as Parcerias-Público-Privadas (PPP) não só em hospitais, mas também em unidades de cuidados primários. A ideia é que o Estado, quando não consegue responder com os meios que tem ao seu dispor, possa contratualizar com o setor privado e com o setor da solidariedade social. “Queremos alargar a gestão privada dos hospitais públicos”, resumiu o coordenador do Conselho Estratégico Nacional para a área da Saúde, Luís Filipe Pereira, na apresentação da proposta aos jornalistas, na sede do PSD, admitindo que a reforma é “profunda” e pretende “quebrar tabus ideológicos”.» 
Luís Filipe Pereira (LFP), coordenador  do programa de Saúde do PSD às próximas legislativas. TSF 13.09.18
Um mar de PPP é a proposta de LFP, ministro da saúde do XV Governo,  autor do projecto de transformação (big bang) de 34 hospitais do Sector Público Administrativo (SPA), em 31 hospitais sociedade anónima (S.A.) através da publicação da Lei n.º 27/2002 de 8 de novembro que alterou a Lei de Bases da Saúde e revogou a Lei de Gestão Hospitalar (dec-lei n.º 19/88, de 21 de Janeiro). 
Tratou-se de uma medida desestruturante, geradora de grandes desequilíbrios, dos quais o sector público da saúde ainda hoje não se recompôs. 
Em 29 de Dezembro de 2005, outro ministro do bloco central, António Correia de Campos (pai das PPP), irá transformar os Hospitais–Sociedades Anónimas (SA) em Entidades Públicas Empresariais (EPE) Decreto-Lei n.º 233/2005 .
Depois desta jigajoga, seria chato LFP propor o regresso dos HH EPE aos HH SA. À falta de melhor, vai de pegar na obra do colega Correia de Campos e defender no seu “power point” de apresentação o extermínio progressivo dos HH EPE através do alastramento dos HH PPP, proposta que serve às mil maravilhas o projecto antigo do PSD de privatização maciça do sector público da saúde e potenciação dos negócios privados.
Segundo LFP, a elevada ineficiência do Estado na gestão da saúde justifica o recurso ao modelo das PPP para resolver os problemas de fundo do Serviço Nacional de Saúde, gastando o mesmo dinheiro mas “de forma mais eficiente”.  Para LFP, que tem desenvolvido ao longo de toda a sua vida um combate feroz contra o sector público da Saúde, esta ou outra qualquer medida servem desde que cumpram o propósito ideológico de conseguir o objectivo da sua mercantilização/privatização. 
Todos nos lembramos dos HH SA que chegaram a privilegiar doentes das seguradoras como foi o caso do Centro Hospitalar do Alto do Minho, empenhado em organizar um atendimento mais atempado, célere e personalizado” para os subsistemas e companhias seguradoras. Dos gestores de pacotilha, oriundos dos mais variados sectores de actividade (CTT, SUCH e atá da cutelaria), sem formação específica, com direito a viatura, remunerações e ajudas de custo chorudas. 
A própria lei, que criou os hospitais SA, estabelecia que estes pudessem “explorar os serviços e efectuar as operações civis e comerciais relacionadas directa ou indirectamente, no todo ou em parte, com o seu objecto”(saúde). Ou seja, a porta escancarada à mercantilização da Saúde. 
 Quanto à questão de os HH PPP fazerem melhor com o mesmo dinheiro, LFP sabe que se trata de uma perversão. O que os escassos estudos, dignos de fé, comprovam é que as PPP não fazem melhor que os HH públicos embora beneficiem de todas as vantagens, a começar nos edifícios novos bem equipados e com todas as condições, construídos em terrenos oferecidos pelas autarquias, desviadores de recursos do SNS (financeiros e  humanos, formados à conta do estado), servindo de motor (escala) aos negócios privados desenvolvidos por operadoras privadas gestoras de fundos.  O que está em jogo é o objectivo político de alargamento do negócio privado da Saúde à sombra da manjedoura do Estado. 
Nada temos contra as empresas privadas que corajosamente enfrentam  riscos para criar riqueza. Somos. sim, contra as que desenvolvem actividade protegendo-se dos riscos do mercado à custa, à sombra do Estado (contratos de dez e trinta anos). 
Mas alguém acredita na história da carochinha da existência de empresas capazes de gerar elevados níveis de eficiência na Saúde, traduzidos na repartição de poupanças significativas para o Estado e os lucros previstos nos contratos de gestão para as empresas gestoras.
O lado bom desta intervenção do coordenador da saúde do PSD  é que com propostas destas o futuro da geringonça está garantido para a próxima legislatura.
Foto: JP 13.09.18
Drfeelgood

Etiquetas: ,

segunda-feira, junho 12

Há petróleo no beato ?

O MS vive dias atribulados. 
Uma amostra. Depois da greve dos médicos, os enfermeiros, liderados pela mediática presidente da OE Ana Rita Cavaco, ameaçam bloquear os cuidados especializados. link link 
Igualmente surpreendente a reacção do bastonário da OM link e do presidente do CRC da OM, face à tentativa do governo em reduzir 35% dos encargos trimestrais com a aquisição de serviços de profissionais de saúde. link 
Não concordamos com a atitude demasiado óbvia destes dirigentes. A tentativa de obter, face à fragilidade do governo da geringonça, as maiores vantagens no mais curto espaço de tempo. Contratações, aumentos salariais, progressões nas carreiras, reconhecimento de especialidades e até a defesa do trabalho médico tarefeiro. 
Num quadro em que as contas da saúde vão de mal a pior. O saldo do SNS situou-se em menos 168,4 milhões de euros (abril 2017), representando um agravamento de 68,6 milhões de euros face ao período homólogo. A dívida dos hospitais EPE (Maio 2017) registou um crescimento médio mais elevado que o histórico passado. A média dos meses de 2017 está em 50 milhões de euros por mês, quando a média dos períodos de crescimento desde 2013 andava por volta dos 28 milhões de euros por mês. link 
O SNS precisa de pesados investimentos, criteriosamente distribuídos por recursos humanos, instalações e equipamentos, e aquisição de serviços. Não é este o SNS que defendemos. Transformado em praça forte dos mais desmesurados interesses e proveitos dos seus grupos profissionais.
Drfeelgood

Etiquetas:

sábado, junho 3

Mistificação liberal pacotilha

O sector da saúde deve crescer apostando em nichos de excelência, diz o Fórum para a Competitividade.
A saúde é um dos sectores que contribuem para dinamizar o crescimento económico, reconhece o Fórum para a Competitividade. Um dos catalisadores desse crescimento é o interesse pelo desenvolvimento que a área da oncologia tem tido em Portugal — a valência hospitalar e científica onde o nível de excelência da medicina nacional é mais notório. Por isso, os especialistas do sector da saúde admitem que seria desejável que Portugal conseguisse captar mais investimento para o desenvolvimento científico na área da oncologia, porque isso contribuiria para acelerar o crescimento económico português. Eis a avaliação sumária feita pelo grupo de trabalho da Saúde, do Fórum para a Competitividade, coordenado por Nuno Sousa Pereira, diretor do Centro de Economia e Finanças da Universidade do Porto.
Sousa Pereira defende que o investimento na saúde em Portugal deve de ser canalizado para nichos e valências da medicina em que o país é reconhecidamente bom a nível internacional, porque isso dará um contributo significativo ao crescimento da atividade económica. Guilherme Magalhães, administrador da José de Mello Saúde refere, a propósito, que a medicina oncológica portuguesa atingiu um patamar de excelência reconhecido a nível internacional.
Segundo o coordenador do grupo de trabalho da Saúde do Fórum para a Competitividade, um exemplo unânime no sector da oncologia, “é a qualidade reconhecida ao  Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, mas também ao Hospital de São João, no Porto”. “Como os recursos são escassos e o país tem uma dimensão reduzida, é preciso concentrar todos os meios disponíveis nas áreas da medicina mais desenvolvidas e que têm maior reconhecimento internacional”, refere Sousa Pereira, defendendo que “podemos atrair investimento para a oncologia, porque essa é uma das valências hospitalares em que a medicina portuguesa registou maiores avanços”.
A aposta em nichos de excelência terá a dupla vantagem de alertar para oportunidades de investimento em Portugal — o que é útil para vários potenciais interessados, desde farmacêuticas, às empresas que produzem tecnologia específica, como laboratórios, equipamentos técnicos e infraestruturas específicas (iluminação, ar condicionado, blocos operatórios, etc.) — e de permitir a triagem de eventuais financiadores. As empresas da área da saúde representam um Valor Acrescentado Bruto de €8 mil milhões
O relatório sectorial do grupo de trabalho da Saúde do Fórum para a Competitividade refere que este “é um dos sectores onde haverá maior margem para obter ganhos de eficiência que permitam libertar recursos públicos e privados para outras necessidades”. Guilherme Magalhães recorda que nos orçamentos as verbas sobre a saúde são inscritas como despesas, o que torna qualquer melhoria de eficiência operacional muito relevante porque tende a reduzir custos.
Apesar da dimensão reduzida da economia portuguesa, “as empresas da área da saúde representam um Valor Acrescentado Bruto de €8 mil milhões”, evidenciando um “crescimento sustentado da capacidade exportadora”, refere o relatório.
Entre as medidas propostas pelo grupo de trabalho da Saúde do Fórum para a Competitividade está “a necessidade de se efetuar uma avaliação económica de todas as tecnologias inovadoras no domínio da saúde”.
Considera igualmente que é preciso “identificar as melhores práticas clínicas e fomentar a sua difusão no Serviço Nacional de Saúde (SNS), além de tornar o SNS “um laboratório vivo de experimentação, onde investigadores e empresas possam colaborar no desenvolvimento de novas tecnologias e testar a sua implementação”.
Para apoiar a internacionalização das empresas do sector da saúda é sugerida a “criação de equipas especializadas no interior da AICEP, em colaboração com associações empresariais”. Outra medida proposta — que terá relevância imediata —, é “garantir pagamentos atempados às empresas que fornecem bens e serviços, permitindo às empresas credoras abaterem dívidas às suas obrigações fiscais e contributivas”.
Importante para este sector é “apoiar as iniciativas públicas e privadas que facilitem a apresentação de uma oferta portuguesa de turismo de saúde”, embora Sousa Pereira reconheça que a percentagem dos potenciais utentes de turismo de saúde será sempre diminuta ou residual. Mesmo com o aumento do turismo sénior, e com o crescimento do número de estrangeiros que compram casa em Portugal, “o turismo de saúde não conseguirá ter uma expressão significativa”, sendo sensível a alterações conjunturais em determinadas economias africanas, como a de Angola, em que a queda das receitas do petróleo “teve consequências imediatas na redução do número de angolanos que se deslocaram a Portugal para realizarem atos médicos e hospitalares”, refere Sousa Pereira. João Palma-Ferreira.
Como aumentar a eficiência
• Separar funções de financiamento, regulação e prestação de cuidados no sector público, assegurando que o Sistema Nacional de Saúde garante que nenhum cidadão é impedido de aceder a cuidados de saúde por questões financeiras
• Definir orçamentos plurianuais que facilitam a tomada de decisões estratégicas consentâneas com as prioridades globais do sistema
• Reforçar papel da rede de cuidados primários e alterar a estrutura de incentivos, nomeadamente na remuneração dos cuidados primários, penalizando utentes pela utilização indevida de cuidados e introduzir taxas diferenciadas pelos serviços prestadores de cuidados primários
• Considerar as despesas com seguros de saúde privados como dedução à matéria coletável, tal como acontece com as contribuições para a ADSE.
expresso 27.05.17
É comovedor ver a preocupação da nação liberal com a competitividade do sector da saúde (público e privado). A persistente defesa da redução do Estado às funções de financiador do sistema. Certamente em suporte dos negócios privados. E, já agora, porque não, a despesa com a aquisição de seguros dedutível à matéria colectável. 
A competitividade do sector da saúde atingirá o estado de perfeição com a criação de um arquipélago de nichos de excelência para os utentes que puderem pagar (acesso golden). Restando aos demais o acesso às unidades públicas degradadas, à mingua do financiamento público. Assim o sistema acabado, resta-me a curiosidade em saber para que servirá então a tão apregoada livre escolha dos utentes.
Drfeelgood


Etiquetas: ,

sábado, outubro 8

ACF, perdeu a mão nisto tudo?

O CDS-PPP, requereu a presença do ministro da Saúde na AR link para discussão das dividas da Saúde. 
Trigo limpo. Mais tenso que o habitual, ACF, lá foi respondendo satisfatoriamente às questões colocadas pelos deputados (verdadeiros tenrinhos). link 
No dia seguinte (28.09.16) foi publicado o despacho 143/2016 link
 Um erro crasso bem aproveitado pelo PSD. Miguel Santos, diz mesmo que "o ministro da saúde está completamente perdido. Perdeu a mão nisto tudo. Este despacho, de resto, é inútil, até porque a única coisa que os hospitais fazem agora é pagar salários. E alguns já nem isso conseguem fazer". 
Num Projecto de Resolução apresentado na AR o PSD “recomenda ao Governo que prossiga a política dos anteriores executivos no sentido de gerir com responsabilidade e investimento os recursos do Serviço Nacional de Saúde”. link 
No último mês de Governação PSD/CDS, a dívida total do SNS a fornecedores externos descera para 1.220 milhões de Euros, enquanto os atrasos de pagamentos se situavam nos 451 milhões de Euros. 
«A dívida total do SNS a fornecedores externos voltou a subir cerca de 230 milhões de Euros, situando-se a mesma, em Julho de 2016, nos 1.459,3 milhões de Euros. Significa isto que a dívida total do SNS a fornecedores externos sofreu, entre julho de 2015 e julho de 2016, um agravamento de 12,1%, tendo a mesma aumentado 19,6% desde que o actual Governo entrou em funções. 
Já os pagamentos em atraso dos hospitais do SNS a fornecedores externos sofreram um agravamento de 262 milhões de Euros desde que o actual Governo iniciou funções, o que significa um aumento de 58% apenas nos últimos 10 meses .
Com efeito, de acordo com os mais recentes dados divulgados pela Direcção-Geral do Orçamento, na Síntese de Execução Orçamental relativa a agosto de 2016, os pagamentos em atraso aumentaram para os 713 milhões de Euros, enquanto que, em Dezembro passado, os mesmos se situavam nos 451 milhões de Euros.» 
Certo é que a coisa não está famosa. 
 No entanto ACF, firme, mantém o objectivo de fechar as contas do corrente ano com um saldo de menos 179 milhões e um stock de dívida e um prazo médio de pagamentos igual, senão melhor, ao registado em Dezembro de 2015. 
Marta Temido, presidente da ACSS, considerou que seria bom haver um reforço do orçamento do SNS. Reconhecendo que “ninguém gosta de orçamentos rectificativos, porém a reposição de salários ou mesmo a subida do salário mínimo não foram acauteladas do ponto de vista financeiro no Orçamento do Estado. 
Também PPB: «Actualmente, com o argumento do aumento de despesa devido às 35 horas semanais, volta-se a cair na tentação de encontrar explicações em vez de resolver o problema. Se há um aumento de despesa determinado por decisão central do Governo, então as instituições deveriam receber o reforço de orçamento correspondente a essa decisão. De outro modo, está-se a introduzir um elemento perverso de gestão, ao descredibiliza o orçamento atribuído. O que só poderá resultar no futuro, como sucedeu no passado, num acelerar do crescimento da dívida (uma vez que até se passa a ter uma “razão” para ter dívida).»
Em breve veremos o "fundo ao saco", como dizia a minha avózinha.
Drfeelgood
Foto: Jornal Público

Etiquetas: ,

sábado, setembro 24

ACF na AR

O ministro da Saúde vai ser ouvido na Comissão Parlamentar de Saúde na próxima semana a pedido do CDS-PPP, ao que diz, preocupado com as dívidas a fornecedores link. Apifarma, como é hábito, à cabeça. link 
Não tem sido fácil a vida de ACF ultimamente. As necessárias medidas de reforma tardam em avançar. Como ténue é a esperança de que algum dia arranquem. Enquanto no SNS se escancaram brechas causadas por anos de cortes a eito do anterior governo. Sem dinheiro, sem jeito nem arte, ACF parece refém da difícil conjuntura. Exposto às primeiras humilhações públicas. 
 No Porto, Rui Moreira , avançou com a criação da primeira “Carta de Equipamentos de CSP (CECSP)". Aproveitando a presença do ministro da saúde para referir que o Porto é que está a defender o SNS. A mensagem é clara: O que o senhor ministro não consegue, nós metemos mãos à obra. link 
 A propósito das sucessivas falhas da Prescrição Electrónica de Medicamentos (PEM), o presidente do SIM escreveu no seu site que «a incompetência tem limites de suportável» pedindo ao primeiro-ministro e ministro da Saúde que «parem de prometer novos mundos e, primeiro, ponham este a funcionar». link 
«Trinta e sete anos, parecendo muitos anos, são só o começo da adolescência de um serviço público. Porém, se mantiver o erro da auto-suficiência, da contemplação nostálgica do álbum de fotografias, da reverência às medalhas, condecorações, louvores e elogios, numa espécie de lógica misógina, então trinta e sete anos são já o começo do declínio e da extinção da espécie, mau grado um reboco aqui e uma pintura acolá. E estas têm representado o principal colete-de-forças do SNS. Assim como impedindo que se derrubem algumas paredes, desarrumem alguns móveis, encaixotem umas quantas rotinas, defenestrem muitos poderes, eliminem os interesses do costume, afinal, abrindo alas e criando espaço para a entrada das comunidades num território que deve ser comum. Não sei se era a isto que António Arnaut se queria referir quando defendeu na homenagem que lhe foi prestada que "façam tudo o que puderem para aperfeiçoar o Serviço Nacional de Saúde". Mas não foi isso que se passou no conselho de ministros de Coimbra. Foi mais o regresso ao cerimonial da aprovação de algumas medidas para que tudo fique na mesma.» link 
«Na concepção da tutela, a sua jóia, o Conselho Nacional de Saúde Pública, poderá fazer as vezes da mudança. Mas que tudo vai ficar na mesma, vai. E, no entanto, não tinha de ser assim» link 
Desejamos ao ministro da saúde a melhor sorte para a sua próxima audição na AR. Tememos que a falta de consideração generalizada dos portugueses relativamente ao seu trabalho esteja para breve.
Dr feelgood

Etiquetas: ,

domingo, setembro 11

Privatização da Saúde, à velocidade da Luz

Hospital Luz Saúde aplica €35 milhões em Cascais. Parceria com a Católica prevê um hospital universitário totalmente privado que abrirá em 2019. 
 A Luz Saúde vai investir €35 milhões no seu primeiro hospital universitário, uma unidade de saúde que ficará instalada em Cascais, e que funcionará em articulação com o que poderá ser o primeiro curso privado de medicina em Portugal, a cargo da Universidade Católica. A parceria casa o interesse antigo da Católica de ter este curso com a vontade da Luz Saúde de expandir a sua capacidade de resposta à crescente procura de cuidados privados. 
 Segundo as informações recolhidas pelo Expresso, a Luz Saúde conta ter o novo hospital pronto em 2019. O que permitirá à Católica avançar, entretanto, com a preparação do novo curso. A reitora da Católica confirma a aliança com a Luz Saúde. Maria da Glória Garcia indica que “o número de vagas a disponibilizar decorrerá da especificidade académica e científica do projecto, a desenvolver com um reputado parceiro internacional”.  Trata-se da Universidade de Maastricht. 
 Sobre o potencial custo para os alunos, as partes envolvidas não entram em detalhes. Mas em Espanha, por exemplo, os cursos privados de medicina custam em média €14 mil no primeiro ano, com as propinas a oscilar entre um mínimo de €797 por mês (na Andaluzia) e um máximo de €,2.372 mensais (na Catalunha). 
 O objectivo desta parceria é que os estudantes de medicina da Católica passem os primeiros três anos do curso no novo hospital de Cascais, complementando a sua formação com outros três anos no Hospital da Luz, em Lisboa, que está a ser alvo de uma duplicação de capacidade. O empreendimento em Cascais resultará da renovação do antigo hospital Condes de Castro Guimarães, cujo edifício foi comprado pela Câmara Municipal de Cascais em outubro de 2015. Pelo imóvel a autarquia pagou então à Segurança Social cerca de €3,5 milhões. O edifício será agora vendido à Luz Saúde. Paralelamente, a Católica contará com um outro edifício junto ao hospital onde será dada a formação teórica. 
 O presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, confirmou ao Expresso que “tem havido conversações da Câmara com a Luz Saúde, a Católica e uma universidade internacional de referência para se poder instalar em Cascais um hospital universitário, o que é importante na estratégia de captar universidades para o município”. Carlos Carreiras sublinha que o seu concelho tem conseguido atrair cidadãos estrangeiros em idade de reforma, sendo agora importante conseguir fixar em Cascais mais jovens. “Se tudo correr bem, dentro de três a cinco anos teremos cerca de 20 mil alunos em Cascais”, prevê o autarca. E já há fundos de investimento a planear Projectos de residências universitárias em Cascais.  
E o grupo Mello? 
 A parceria que a Luz Saúde desenvolverá com a Católica surge pouco depois de a concorrente "José de Mello Saúde" ter firmado uma aliança com a Universidade Nova de Lisboa. Em março o grupo Mello anunciou um projecto para criar no futuro hospital CUF Tejo, em Lisboa, um centro de investigação e formação na área da saúde. 
 Este projecto estará vocacionado para a preparação de novos médicos e desenvolvimento de competências em várias áreas, entre as quais a pediátrica. Ao lançar o CUF Tejo, que abrirá em Alcântara em 2018, com um investimento superior a €100 milhões, a José de Mello Saúde já havia indicado pretender fazer desta unidade um “hospital-escola”. 
 A concorrência pelas próximas “fornadas” de universitários espelha bem a confiança que os dois maiores grupos privados de saúde têm no potencial dos cuidados privados. Nos cursos de medicina, a ligação entre a teoria e a prática tem sido feita sobretudo no Estado (nos hospitais universitários de Coimbra, Porto e Lisboa), mas poderá em breve ganhar fôlego com o interesse dos grupos Mello e Luz. 
 Várias universidades privadas já manifestaram vontade de lançar cursos de medicina (além da Católica, são exemplos a Lusófona e a Universidade Fernando Pessoa, que até dispõe de um hospital-escola). Mas nenhuma conseguiu ter cursos acreditados pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, nomeadamente por não conseguirem firmar protocolos com hospitais de dimensão relevante, nem assegurar centros de investigação próprios. 
A Expansão da Luz
 Duplicação em Lisboa: O grupo está a duplicar a capacidade instalada no Hospital da Luz, em Lisboa. O projecto de €100 milhões fica concluído em 2018. 
 Ampliação da Arrábida: Também em curso está a ampliação do hospital que o grupo tem na Arrábida (Vila Nova de Gaia), que hoje conta com meia centena de gabinetes de consulta, maternidade, cirurgia, entre outras valências. 
 Reforço em Oeiras: A clínica que o grupo Luz tem em Oeiras está a ser igualmente alvo de investimentos para reforço de capacidade, graças à aquisição de um terreno contíguo à clínica 
Compra em Guimarães: Está concluída a aquisição do Hospital Privado de Guimarães, que implicou um investimento de €25 milhões da Luz Saúde. 
Jornal Expresso, caderno económico, 10 de Setembro de 2016 

 Luz Saúde à velocidade da luz: “Com a Fidelidade nasceu a marca Luz Saúde. Uma marca que dá continuidade ao maior projecto de Saúde Privada em Portugal. A nossa luz é brilhante , entusiasta, dedicada e inovadora. A nossa marca projecta tecnologia, talento e Medicina de excelência. Com o novo accionista avançamos para o futuro à velocidade da luz. link 
Os privados avançam à velocidade da luz para a conquista da hegemonia da área da Saúde. Enquanto isso, o SNS continua a somar derrotas: “Serviço de Cirurgia Vascular suspenso no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro” link 
 Cipriano Justo: «Da série, meu caro primeiro-ministro. Não é arrebitando o portal da saúde, promovendo circos mediáticos e desfiando rosários de promessas que vamos lá. Vai sendo tempo de encerrar a passerelle e começar a fazer alguma coisa que se veja. Entre o que era e o que é não se consegue enxergar a ponta de um alfinete que seja. Não é com adjectivos grandiloquentes para aqui e para ali que se inverte a situação de míngua em que o SNS se encontra. É que não é do serviço de cristal dos casamentos e baptizados que estamos a falar, é de um bem público que é necessário ter condições para, 24 horas por dia e 365 dias por ano, estar apto a dar as melhores respostas às necessidades essenciais em saúde dos portugueses. Por isso, meu caro primeiro-ministro, dê lá também alguma atenção a este dossier porque isto não está famoso. E sabe como é, quando esta coisa começa a correr mal, o risco de se ter o caldo entornado é grande.» 
Isto corre mal de há muito. Os ministros do bloco central, Correia de Campos e Luís Filipe Pereira, gizaram e puseram em marcha o projecto de liquidação do nosso SNS. Os amanuenses que lhes seguiram limitam-se a cumprir calendário.
Dr Feelgood

Etiquetas: , ,

sábado, junho 18

Devolução das PPP à gestão pública

O governo parece querer optar pela redução da factura das PPP da saúde link 
É uma má decisão. 
É certo que um relatório já antigo da Young, apurou "encargos líquidos de 12 419 milhões de euros em 30 anos, para a componente de gestão clínica e de 1 177 milhões para a gestão dos edifícios num total de 13 596 milhões”. 
 É muita massa. 
Muita massa para quem não tem demonstrado categoria nem especial aptidão para gerir hospitais da rede do SNS. 
Continuar com as PPP é má decisão  por duas ordens de ideias principais: 
1.º O que está em causa é o próprio modelo disfuncional das PPP. Contratos de gestão extremamente complexos. Claustrofóbicos. Verdadeiros escafandros asfixiadores da iniciativa e autonomia indispensáveis à boa gestão. Para pregar um prego é necessária a concordância das entidades gestoras que operam no terreno e autorização das respectivas ARS. Por outro lado, o acompanhamento aturado e dispendioso do Estado não faz das PPP,  unidades mais transparentes nem mais baratas do SNS. 
2. º A tentativa de redução de encargos do Estado constituirá mais um factor de aceleração da deterioração da qualidade dos serviços prestados pelas PPPs que alguns indicadores da monitorização do SNS já revelam. link  A curta existência das PPP tem sido marcada por apertos financeiros. Cascais acumulou prejuízos de 2,2 milhões de euros (2011) e Braga de 16,5 milhões, chegando a ser noticiada a falência quase eminente desta unidade.
Comprovado que não fazem melhor, nem mais barato, não favorecem a transparência e a inovação, “não há nada que seja defensável para a manutenção das PPP” (Constantino Sakellarides), cabendo ao ministro da saúde, Adalberto Campos Fernades (ACF) tomar a única decisão coerente possível: Devolver as PPPs à gestão pública. 
Oportunidade única de ACF ficar para a história da democracia e do SNS, sem comprometer o apreço de Marcelo Marcelo de Sousa que, como se sabe, vai sempre atrás do que mexe.link 
Finalmente, vamos saber de que massa é feito o nosso ministro da saúde.
Drfeelgood

Etiquetas: ,

domingo, março 6

HH, dispensa medicamentos oncológicos

«O consumo de medicamentos oncológicos sofreu variações importantes neste período. Manteve-se o aumento do consumo de medicamentos, em quan­tidade, mas agora com aumento também dos cus­tos associados.
Como esperado o aumento de custos é particular­mente importante nos fármacos novos.
Mais preocupantes são os dados referentes ao pri­meiro semestre de 2015. Quando comparado com o período homólogo de 2014 nota-se um aumento de 9,8% em custos, associado a um aumento ape­nas de 4,5% em quantidades. Estamos a assistir a uma deriva significativa no sentido do consumo de fármacos mais caros, colocando pressão muito sig­nificativa sobre o SNS
PORTUGAL, Doenças Oncológicas em Números – 2015, Pag. 30  link
Este estudo conclui que custo da dispensa de medicamentos oncológicos em meio hospitalar aumentou 9,8%, no primeiro semestre de 2015, enquanto o crescimento do consumo, em quantidade foi de apenas de 4,5%, o que traduz a opção de prescrição de medicamentos  mais caros.
«aumento da despesa com medicamentos é preo­cupante, particularmente com os novos fármacos. A necessidade de monitorizar, de forma sistemática, a efetividade terapêutica dos mesmo, é indispen­sável para conseguirmos aferir os ganhos reais em saúde, face ao custo crescente dos mesmos. Esta monitorização deve ser realizada através do regis­to oncológico nacional, instrumento que carece de implementação.» Pag 55
«A comparação com os dados europeus, em termos de mortalidade, coloca-nos numa posição confortá­vel. Não devemos esquecer, que beneficiamos de um histórico de menor consumo de tabaco em Por­tugal, a que corresponde uma menor taxa de can­cro do pulmão e de mortalidade associada. Se que­remos continuar a beneficiar deste efeito, temos de ser mais ativos na evicção e promoção da cessação tabágica. Também neste capítulo temos assimetrias que não devemos esquecer, sendo gritante a situa­ção dos Açores, onde urge tomar medidas.» Documento de leitura indispensável.
Entretanto, ACF, confirmou na sua última intervenção na AR, o anúncio feito anteriormente  link da decisão do governo em mudar a distribuição dos medicamentos oncológicos e HIVSIDA para as farmácias comunitárias.
O ministro não referiu. Ninguém manifestou interesse em saber. Não conseguimos ver no portal da saúde. Quanto vai custar esta medida (taxa de comercialização das farmácias).  
Certo é que descem os encargos dos hospitais. Cresce a despesa das ARS. Manda-se o princípio do prescritor pagador às malvas (fruto de alguma reforma power point  que terá escapado ao ministro?).  
As farmácias agradecem.
drfeelgood

Etiquetas: ,

domingo, janeiro 31

Liberdade de escolha

Liberdade de escolha foi abandonada «por simplicidade»
«TM» - Outro imperativo do Programa do Governo para a Saúde é trazer verdadeiramente o cidadão para o centro do sistema, dando-lhe liberdade de escolha. É um objetivo muito ambicioso pois terão de mudar as regras da contratualização e as mentalidades. Como será posto em prática este conceito? 

CS - O Senhor ministro não disse que é fácil e por isso devemos começar a experimentar com projetos-piloto, mas a liberdade de escolha é algo muito importante porque é um princípio inscrito na lógica do SNS e que foi abandonado por simplicidade.
E se o sistema se de forma pela comodidade da gestão e não das pessoas que o frequentam isso tem que ser tratado. Isto quer dizer que as instituições devem ir atrás do fluxo das pessoas e não o contrário.
Se eu trabalho em Lisboa o dia inteiro prefiro ir ao centro de saúde mais próximo do meu local de trabalho. É óbvio que se nos concentramos nos fluxos naturais das pessoas, nessa altura temos que ter mecanismos de compensação. Ou seja o fluxo deve acompanhar os recursos. Já outro mecanismo mais complexo é o acesso à informação, assegurando que está disponível em qualquer local. Há um conjunto de instrumento que têm de ser apurados para permitir isso.
Constantino Sakellarides, TM 31.02.16  link
“If we want to change the way health care works, we need to change how we pay for it.Compreendo que esta formula funcione num mercado de seguros. Num sistema  de Serviço Público contratualizado a coisa torna-se dificil.

Etiquetas:

quinta-feira, janeiro 21

Fazer diferente


Fazer mais com menos dinheiro”. Todos nos lembramos do jargão liberal pacotilha, repetido até à exaustão, sempre que a coligação passos/portas avançava para novo pacote de cortes a eito.
Mesmo os liberais pacotilha desconfiavam da treta. Mas todos  fingiam acreditar no patoá.
Inesperadamente, o famigerado governo  liberal pacotilha finou-se num passe de mágica de António Costa.
ACF, aos comandos da geringonça da Saúde, prefere "fazer diferente com o mesmo dinheiro". Assegurando que «dentro da escassez orçamental» o Executivo vai trabalhar na «qualidade e inteligência das escolhas», na substituição das «escolhas erradas pelas certas» e ainda «fazer coisas diferentes, com o mesmo dinheiro» link
Fazer diferente: "A nossa energia vai estar focada em criar uma nova vitalidade do SNS e na reposição do prestígio da instituição e das pessoas que lá trabalham. Queremos dar nota pública de que o SNS é algo que os portugueses respeitam ".
A mensagem parece-nos séria.
Conhecemos ACF. Não é dos que falam, falam, falam. É homem de acção. Workaholic. Inteligente e ambicioso. Batalhador duro.  Que honra objectivos.
Receamos, sim,  a tontice do Fernando Araújo em pretender transformar o serviço público de saúde num «mercado interno competitivo» produtor de mais atos e menores tempos de espera. Custa-nos a acreditar que António Ferreira consiga conduzir a reforma da rede hospitalar a bom porto.
drfeelgood

Etiquetas: ,