domingo, janeiro 28

Os gestores do dinheiro público

Sou apenas médico, chefe de serviço da carreira hospitalar, director de um serviço, ninguém me atribuiu o título de ‘gestor’ e nem isso me preocupa, dado o carácter pelo menos dúbio que essa designação ganhou nos nossos dias no nosso país. Limito-me a gerir o serviço onde trabalho, mas vou apreciando o trabalho de colegas que, também sem terem adquirido, por uma qualquer nomeação ou curso, aquele epíteto, gerem com muito êxito empresas de prestação de cuidados médicos. Não somos ‘gestores’, mas como cidadãos temos a possibilidade e a capacidade de apreciar os resultados das várias gestões públicas, sobretudo na área da saúde, enquanto cidadãos médicos, habituados por isso a fazer e a entender a gestão clínica (que se vai agora chamando «clinical governance»). Das instituições de saúde. São na realidade os médicos quem pode saber profundamente o que faz falta e o que não faz, o que é imprescindível para uma boa medicina a um baixo custo, onde se pode poupar e onde é necessário investir em recursos humanos e materiais para ter os melhores resultados a curto, médio e longo prazo, na certeza de que a medicina que fica mais barata é a boa medicina.
A obsessão constante do Ministério tem sido gastar o menos possível com a saúde, o que se tem reflectido - diga o senhor ministro o que disser aos órgãos de comunicação social - numa redução também quantitativa e qualitativa, dos cuidados de saúde oferecidos e prestados às populações doentes. Que cada vez têm que percorrer mais quilómetros, perder mais tempo e gastar mais dinheiro em transportes para serem observadas por um médico. As equipas médicas hospitalares foram diminuídas, sendo em várias situações os doentes recebidos e seguidos por pessoal sem a devida qualificação. Os enfermeiros, os técnicos e os auxiliares de acção médica escasseiam. A introdução de medicamentos novos é proibida, o uso de técnicas terapêuticas e de diagnóstico mais modernas criticado por serem dispendiosas. Os médicos são aconselhados a reduzir consultas e a limitarem o número de intervenções cirúrgicas. E não são pagos pelo valor da hora extraordinária como deviam ser, tendo o Governo ido ao ponto de alterar uma lei sua só para não pagar o que devia pagar. Assim todos os devedores o pudessem fazer… Enfim, um esforço titânico e inventivo, acima de tudo para poupar dinheiro, invocando sempre a apregoada falta de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.
Mas eis senão quando se anunciam gastos sumptuários (milhões de euros) com sistemas informáticos vários, de natureza administrativa, que seriam eventualmente de alguma utilidade se não estivéssemos num país em que se questiona a própria sustentabilidade da assistência médica aos cidadãos por parte do Governo. Sistemas informáticos que não deveriam ter qualquer prioridade de aquisição, porque os doentes são vistos e tratados igualmente sem eles, porque há países muito mais evoluídos e ricos do que nós que não os possuem nos seus hospitais. Somos os mais avançados do mundo nestes «gadgets» informáticos administrativos, mas depois questiona-se, por exemplo, e por razões económicas, o uso de «stents» medicamentosos em doentes coronários… Não é espantoso?!
E tudo o que o Ministério conseguiu poupar, pelo racionamento imposto em 2006, parece não ter chegado, pois o senhor ministro já anunciou para 2007 cortes nos funcionários da saúde num total de 40 milhões de euros. Que é quanto vai custar o tal sistema informático para marcar consultas, como se as marcações não se fizessem agora, sem quaisquer problemas.
Que em termos de gestão de um orçamento deficitário isto nos choca, choca. Principalmente porque esse orçamento trata acima de tudo da saúde das populações.
Mas se calhar sou eu a falar, que não sou gestor, sou apenas médico.
Carlos Costa Almeida, presidente APMCH, expresso 27.01.06
Depois do artigo de JMS no "Jornal Público", é a vez de CCA, confessar-se chocado com os gastos sumptuários em «gadgets» informáticos administrativos, como lhe chama, a contrastar com outras decisões economicistas impostas por CC ao pessoal da saúde. CCA justifica a indignação com a defesa da saúde das populações. Como de costume. Um responsável pela "clinical governance", baralhado com as prioridades.

18 Comments:

Blogger e-pá! said...

Xavier:

Pode-me enlencar uma lista de prioridades onde a "defesa da saúde das populações" não figure à cabeça?

12:15 da manhã  
Blogger clara said...

Dotar o SNS de sistemas de informação fiável não contribuirá para melhorar o atendimento dos doentes? Melhorando assim a saúde das populações? (redução dos tempos de espera, marcações no próprio dia, telemedicina).

Estas intervenções revelam que as medidas de CC estão a mexer com os interesses instituídos.
Por outro lado, CC precisa de ter apoio maioritário da classe médica para ter êxito com a sua reforma.

1:22 da manhã  
Blogger rasor said...

O dr.CCA está preocupado com o dinheiro que se vai gastar com o sistema de marcação electrónica de consultas mas, não quantifica os ganhos em saúde para os utentes, dado que o sistema permite abrir a porta a uma verdadeira gestão das consultas e dos respectivos tempos de resposta, permitindo ao doente conhecer os tempos de espera e optar por outra instituição, caso a da sua àrea de residência não disponibilize a consulta solicitada a "tempo e horas". Mais ainda,o sistema aumenta a segurança dos doentes, que passam a dispor de um registo da data em que a consulta foi solicitada ao hospital e da possibilidade de saber em que data a mesma foi agendada e para quando.Claro que este sistema colide com hábitos instalados, como os daqueles responsáveis que acumulam caixotes de P1, não os agendando nem os devolvendo,criando ruído no sistema ao abrigo da sua falta de fiabilidade e, isso sim, impedindo o acesso dos doentes a cuidados de saúde.

1:26 da manhã  
Blogger lisboaearredores said...

É possível que se justifique um sistema informático de gestão de consultas e que até custe muitos milhões de euros. O que assusta é o número de vezes em que já foram anunciados sistemas informáticos novos, que custaram milhões, e que depois nunca funcionam como deve ser, ou nunca funcionam de todo.

As empresas de consultoria que conseguem levar o SNS a comprar os seus produtos informáticos deveriam ter uma maior responsabilização sobre o que não conseguem fazer. Introduzir-se o conceito de "negligência informática"!

8:03 da manhã  
Blogger joaopedro said...

Em relação às consultas externas dos CSP, o que CC pretende fazer?

CC quer criar um sistema em que o utente recebe sempre uma comparticipação de valor absoluto idêntico quer consulte um médico no sector privado ou no sector público, conjuntamente com um sistema de remuneração ao médico do sector público diferente se o utente recorrer ao sector privado.
Como diz Pita Barros este sistema não dá uma vantagem inequívoca ao sector público, em termos de esforço financeiro do utente, levando a que este compare mais facilmente a qualidade do serviço num e noutro sector, por um lado. Por outro lado, não cria um incentivo para que sejam estabelecidos preços mais elevados.
Como ao optar pelo sector privado, um utente tem que pagar do seu bolso qualquer diferença positiva do preço da consulta para com a comparticipação.
dada, o prestador privado sabe que o utente será sensível a preços mais elevados e tentará manter um preço baixo. Mas também do lado do sector público surgem efeitos favoráveis - se o sector público tiver custos elevados, então a comparticipação. dada caso seja procurada uma consulta no sector
privado será mais elevada. Ora, este aspecto torna mais fácil a escolha do sector privado por parte do utente. O que não é do interesse dos médicos que
constituem o sector público se estes virem a sua remuneração. (mais precisamente, parte dela) depender da actividade desenvolvida. Resulta assim
um incentivo descentralizado para que os custos de consultas de cuidados primários sejam mantidos baixos, como forma de manter uma vantagem sobre a actividade concorrente do sector privado.

10:30 da manhã  
Blogger e-pá! said...

Entre muitas, duas questões explicitamente expostas por CCA não podem continuar a ser iludidas:
"...A introdução de medicamentos novos é proibida, o uso de técnicas terapêuticas e de diagnóstico mais modernas criticado por serem dispendiosas. Os médicos são aconselhados a reduzir consultas e a limitarem o número de intervenções cirúrgicas..."
e, mais adiante:
" ...questiona-se, por exemplo, e por razões económicas, o uso de «stents» medicamentosos em doentes coronários…"

Informação fiável sim! Todavia, as pessoas primeiro.
Um quebra-cabeças nas prioridades pré-estabelecidas nos gabinetes.

11:53 da manhã  
Blogger joaopedro said...

Este comentário foi removido pelo autor.

2:04 da tarde  
Blogger joaopedro said...

Caro É-Pá
Não é verdade!
Os novos medicamentos não estão proibidos.
Até entrada em funcionamento da Comissão de Avaliação do Infarmed, os novos medicamentos estão a ser autorizados, caso a caso, pelo Infarmed.

Isto para ultrapassar a bagunçada das autorizações feitas pelos HHs.
O que há, e está a ser criado, é uma avaliação com critérios da nova tecnologia.

Se aumentou a produção de (+ consultas ; + cirurgias urgentes) como é que estão a ser dadas orientações pela tutela para reduzir a produção?
Outra coisa é cumprir a produção contratualizada. E aqui há penalizações se a produção exceder significativamente a produção contratualizada.

Quanto aos "stents" basta comparar os nossos consumos com os da vizinha Espanha para concluirmos como é disparatada esta afirmação.

CCA, à semelhança de JMS ,confeccionou um texto demagógico dirigido à populaça ignorante nestas subtilezas.

2:10 da tarde  
Blogger joaopedro said...

Concordo com o comentário do lisboaearredores.
Os sucessivos falhanços registados na aquisição de meios informáticos requer a tomada de medidas especiais.
No RU também têm ocorrido sucessivos escândalos com a aquisição de meios informáticos.

Mas, nós temos de imitar os melhores, como a Dinamarca, onde os médicos de família estão todos ligados em rede entre si, com os HHs , as farmácias e prescrevem toda a medicação e MCDTS, procedem à marcação de consultas de especialidade nos HHs "on line". Os utentes levantam a medicação nas suas farmácia de bairro sem haver necessidade de apresentação de receita (papel)(como acontece com o projecto experimental de Portalegre de desmaterialização da receita médica).

Só através deste salto se conseguirá obter ganhos significativos na qualidade do atendimento dos Centros de Saúde e na redução da despesa com os cuidados primários de saúde.

3:47 da tarde  
Blogger e-pá! said...

João Pedro:

De facto, torna-se cada vez mais difícil um médico escrever sobre saúde. Aparecerá algum vigilante de serviço a anatemizá-lo.

Vejamos a sua afirmação:
"Quanto aos "stents" basta comparar os nossos consumos com os da vizinha Espanha para concluirmos como é disparatada esta afirmação."

Ora bem. Os stents metálicos têm sido progressivamente substituídos pelos stents libertadores de medicamentos com evidência de múltiplas vantagens para os últimos. Embora os novos "stents" sejam mais caros que os procedimentos alternativos melhoram a qualidade de vida ajustada do doente. Em todos os doentes mas com especial realçe nos doentes diabéticos. A evidencia clínica dos resultados não é contestada. Os custos dos stents libertadores de medicamentos é que são o busílis.
Espanha, por diversas questões, nomeadamente o reembolso, introduziu esta técnica mais tarde. Em 2002 a percentagem de uso era residual (4%).
Entretanto, em conformidade com os benefícios ou custos/benefícios, verificou-se uma forte tendência para o seu crescente uso. A qualidade dos cuidados passa por aí.
De 2002 a 2005, a taxa de utilização, em Espanha, cresceu 15 x (quinze vezes!), enquanto que, em Portugal, duplicou.
Estas tendências de crescimento, dispares, coincidem com a crise e/ou recessão económica em Portugal e a politica de contenção orçamental do governo português.
As dificuldades enunciadas por CCA poderão não ser tão demagógicas ou "disparatadas", como lhe chama.
Como estamos em análise comparativa com Espanha falta descortinar as verdadeiras causas da "travagem" de crescimento em Portugal.

7:27 da tarde  
Blogger joaopedro said...

Para que conste que o É-Pá não sabe do que fala e que padece de doses massiças de ignorância, agradeço que veja o slide n.º 13 que compara o consumo de stents em Portugal e Espanha de 2002/2005:
link

É triste constatar que o texto de CCA está cheio de incorrecções do princípio ao fim.

9:12 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Joãopedro:

No tal slide nº. 13 estará visível o que afirmo no comentário anterior:

"De 2002 a 2005, a taxa de utilização, em Espanha, cresceu 15 x (quinze vezes!), enquanto que, em Portugal, duplicou."

E, a partir daí, posso tirar as ilações que entender.

Claro que o slide pode ter outras leituras. Como p. exº. que a taxa de utilização portuguesa, em 2005 foi ainda ligeiramente superior à espanhola.
Mas se eu partir de Valença em direcção ao Algarve é natural que possa estar atrasado em relação a quem partiu de Beja. Neste caso ligeiramante. O caminhante de Valença está a andar mais rápido.
Terá menos obstáculos!

9:54 da tarde  
Blogger joaopedro said...

AQUI NÃO SE INVENTA:
Espanha
2002 - 4%
2003 - 20%
2004 - 55%
2005 - 64%

Portugal
2002 - 35%
2003 - 49%
2004 - 64%
2005 - 74%

Aonde é que está a travagem de Portugal? 74% em 2005 é travagem?
A Espanha partindo de um baixo crescimento em 2002 teria que crescer mais nesta série, naturalmente.

É lamentável que se intervenha com tanta falta de rigor, a roçar a desonestidade.

Aqui não há prazer da vigilância, mas sim muito trabalho e estudo.
Neste Blogue não se inventa.

Seguindo o exemplo do Xavier, do semmisericórdia, tonitosa, aidenós, clara,vivóporto, vladimiro, guidobaldo, peliteiro, nós aqui fazemos intervenção baseada em estudos e na informação mais fiável que conseguimos encontrar.

Quando li o comentário do Xavier ao texto do CCA entendi logo que ele quis poupá-lo a uma análise ponto por ponto pondo a nu todas suas inverdades.
É o que tem acontecido, inevitavelmente, nestes comentários.

10:13 da tarde  
Blogger hospitalepe said...

Este pessoal o que quer é continuar em roda livre. Tudo à lá garder. Ao molho e fé em Deus. Ao sabor do improviso. E muito sentimento. Em defesa dos doentinhos.

A guerra das agendas de marcação de consultas nos HHs é das mais antigas. A gestão dos tempos de consulta nos CSP tem sido impossível por falta de informação.

Ai daqui del rei que vem aí mais um equipamento electrónico para nos controlar!

Com esta forma de estar, com esta cultura de gestão, com esta malta, não vamos lá.

Depois há a ladaínha de queixumes, suspiros e ais, cumplicidades com os que queiram aderir a esta causa do deixa estar tudo como está, porque está muito bem.
Valha-nos Santa Engrácia.

10:39 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Joãopedro:

"Aonde é que está a travagem de Portugal?"
- A "travagem" é referida num contexto comparativo e relativo: nesse espaço de tempo houve diferentes ritmos de crescimento.

"A Espanha partindo de um baixo crescimento em 2002 teria que crescer mais nesta série, naturalmente."
- A Espanha em 2002 partiu de uma baixa taxa de utilização (não de um baixo crescimento) para colocar-se numa posição próxima de Portugal. Recuperou. Aqui é notório que não houve bloqueios.

Por último, ainda não percebi se as taxas de crescimento que indiquei,referentes aos 4 anos do estudo de Correia da Cunha, estavam erradas. Passar de 4 para 64% não é crescer 15 x ?


Não vale a pena evocar o Carmo e a Trindade (Xavier, do semmisericórdia, tonitosa, aidenós, clara,vivóporto, vladimiro, guidobaldo, peliteiro,...).

Eu nunca coloquei em causa a seriedade dos seus comentários. Discordei, tenho outras leituras e exponho. O ciberespaço é, na minha concepção, praticamente ilimitado.
Senão tornar-se-ia numa decadente tertúlia.
Agora, quando não gosta, ou não concorda, é, logo,... "doses massiças de ignorância"..., "a roçar a desonestidade"..., etc. É o vício da rotulagem.

Por fim, não se auto-elogie. Deixe que sejam os "outros" a reconhecer-lhe o valor. Que terá com certeza!

11:12 da tarde  
Blogger Vivóporto said...

POR CCA

O artigo de CCA é interessante. Não pela razão que aqui tem estado a ser comentada, a do investimento ou não em sistemas informáticos ou outro qualquer investimento. Entendo a referência ao investimento em sistemas informáticos como um mero exemplo. Podia ser outro. Contudo, este exemplo até está muito bem escolhido. Talvez seja mesmo o melhor exemplo que CCA podia ter dado para ilustrar a questão central do seu artigo que é, no meu entender, o carácter pacóvio e saloio que caracteriza alguns dos nossos gestores hospitalares. E que ilustra também, o desnorte (se é que o Ministério sabe onde é o Norte, nesta matéria) que parece campear pela João Crisóstomo, em matéria de estratégia informática da saúde.
Não pode negar-se razão a CCA quando, sem o dizer explicitamente, deixa implícito que há gestores que fazem uma gestão de mera aparência, que se preocupam muito pouco com os aspectos essenciais de uma boa gestão (investir com base num plano de investimento assente numa boa estratégia e em planos anuais de actividades, uma e outros participados e aceites pela organização), e parecem mais preocupados em querer levar avante, teimosamente, contra tudo e contra todos, determinadas acções, determinados investimentos, por vezes avultados (e aqui o exemplo do investimento em sistemas informáticos é um bom exemplo, volto a repetir), cuja necessidade não está suficientemente interiorizada, nem suficientemente amadurecida, sem equacionar alternativas credíveis (menos dispendiosas, menos arriscadas e tecnicamente fiáveis), sem atender aos custos e às inevitáveis consequências, boas e/ou más, que um grande investimento sempre tem.
Há gestores hospitalares («jeitosos da gestão», diria eu, pois, em bom rigor, não se lhes pode chamar gestores hospitalares) que pensam que administrar um hospital é apenas mostrar «obra», no sentido literal do termo, deitar paredes abaixo, levantar paredes, pintar, autorizar todos os pedidos, dar, dar, dar..., é fazer política com a gestão dos hospitais, enfim, é gastar. Raramente olham para os custos (nem para os proveitos, diga-se em abono da verdade), raramente olham para o Orçamento, não gostam de ouvir falar em contenção de despesas, não gostam de ouvir falar em equilíbrio financeiro, aceitam como inevitáveis as derrapagens, como se não fosse possível travá-las, ainda que, se necessário, desagradando. E é aqui a que a porca torce o rabo. Porque alguns parecem mais preocupados em manter o lugar, agradando a todos, do que em gerir, desagradando a alguns. E o que é curioso, e o artigo de CCA demonstra-o, é que as pessoas (os médicos) até sabem aceitar um não, quando fundamentado. O que as pessoas, em geral, não aceitam bem, isso sim, é que se lhes fale de rigor quando se tem uma atitude perdulária; se fale de compreensão, quando não se compreende, que se fale de motivação, quando não se motiva, se queira adesão quando se fala de cima da burra, se queira fazer ouvir quando só se fala.
O exemplo do investimento em sistemas informáticos é um bom exemplo, pois bem! Porquê? Porque é uma área onde o basbaque fácil. É fácil embasbacar e, mais fácil ainda, é ficar embasbacado. E os vendedores riem-se, de tanta basbaquice. Com facilidade, comem os gestores por parvos. Com facilidade enredam os hospitais nas suas teias, ainda que mal amanhadas, que depois de envolvidos, se tornam presa fácil e permanente. A área da informática é, dentro nos hospitais, a área em que se vêm mais «doutores» a falar e menos pessoas a saberem o que dizem. È a área, portanto, em que se corre o risco de fazer maus investimentos, diria Dupont. Diria mais... Muito maus investimentos, diria Dupont.
Só que se Dupont diz mata, Dupond diz esfola!
É aqui que se pergunta: o que está o Ministério da Saúde a fazer com o seu silêncio. Que informática da Saúde, pretende o Ministério?

Algumas ideias, para quem queira ser um bom gestor:

«O plano estratégico deve ser um compromisso da empresa no seu todo e não apenas da administração e do seu grupo de chefes de divisão e área»

«Nenhuma estratégia é funcional se não existir coerência entre o seu conteúdo e os princípios da empresa»

«A inovação não significa só a criação de novos produtos ou serviços para acrescentar ao catálogo da empresa. Significa, também, mudar sistemas, políticas, atitudes, processos, estratégias, estruturas, objectivos e até a missão da empresa, para os adequar aos novos tempos e aos novos desafios que se avizinham»

«A inovação deve ser permanente, mas não é necessário realizar mudanças espectaculares para que seja efectiva.»

«Quando uma empresa atravessa uma boa fase, é fácil perder de vista os fluxos de caixa. Não há nada mais reconfortante do que ter um excesso de tesouraria. Porém, é precisamente nessas fases boas que se torna necessário consolidar a posição financeira da empresa para que se aguente com tranquilidade os tempos maus que estão fora do seu controlo...»

«Como é óbvio, se os custos e as despesas aumentam mais rapidamente do que as vendas o efeito sente-se directamente nos lucros»

«Depender apenas de um cliente é tão perigoso como depender apenas de um fornecedor»

«O grande desenvolvimento tecnológico que se vive na actualidade pode deslumbrar-nos e fazer-nos esquecer que as novas tecnologias podem ser postas ao serviço do homem para facilitar muitas tarefas, não para isolá-lo»

«Muitas vezes pensamos que as nossas ideias são as únicas, que ninguém jamais as terá, nem agora nem nunca, e com essa arrogância intelectual demoramos uma eternidade para as pôr em prática»

«À medida que a humanização da empresa ganha terreno, maior é o número de colaboradores que exigem ser tratados condignamente. Mas há empresas onde ainda se acha que se pode comprar a fidelidade e a eficiência com dinheiro»

(Estas e outras ideias podem ser lidas em Luis Castañeda, 2006, Como destruir uma empresa em 12 meses ...ou antes. Lisboa. Actual Editora.)

11:21 da tarde  
Blogger joaopedro said...

Caro É-Pá
Agradeço-lhe o contraditório que tornou mais fácil a tarefa de demonte dos argumentos de CCA, aliás fáceis de rebater.

Quando é que vamos ver os dirigentes médicos a defender de caras salários como deve ser e melhores condições de trabalho no lugar de fazerem a guerra inventando.

9:18 da manhã  
Blogger coiso said...

Não vale a pena estar a apelar à compreensão dos dirigentes médicos pois para além de não terem, em geral, sido preparados para gerir (atigem cargos de gestão apenas por antiguidade), também não estão interessados em contribuir para que as coisas funcionem, desde que não seja a seu favor.
tudo o mais não passa de folclore e de "poder" sobre os "doentinhos" que felizmente para eles não se acabam.

10:09 da tarde  

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