terça-feira, abril 25

Abril, a triste realidade

«A mais de uma centena de hospitais privados representa cerca de um terço do total de camas hospitalares e de consultas externas realizadas no país e já gere a maioria das unidades de saúde com internamento.
Os hospitais privados ao serviço da saúde dos portugueses.
Os dados mais recentes confirmam que os hospitais privados em Portugal têm vindo a merecer crescente confiança por parte dos cidadãos.
Por ocasião do Dia Mundial da Saúde — 7 de abril — o INE atualizou os números sobre o sistema de saúde português e concluiu que os hospitais privados, por ano, já prestam mais de 6,1 milhões de consultas externas, já recebem mais de 1,1 milhões de episódios de urgência e já realizam quase 250 mil cirurgias.
Os hospitais privados representam, assim, cerca de um terço do total de camas hospitalares e de Há um cluster português importante relacionado com a saúde FOTO D.R. consultas externas realizadas no país. Em termos nacionais, não é possível falar do sistema de saúde sem dar o devido relevo à hospitalização privada, que já gere a maioria das unidades de saúde portuguesas com internamento.
O cidadão que, no seu dia a dia, acorre aos hospitais privados sabe exatamente o que procura e a razão da sua escolha. Vai pelo atendimento, vai pelos profissionais e pela organização dos serviços e vai pela disponibilidade de equipamentos especializados. A título de exemplo, os hospitais privados em Portugal dispõem de 56 equipamentos para angiografia, 56 equipamentos para mamografia, 38 ressonâncias magnéticas, 68 TAC, quatro equipamentos para tomografia por emissão de positrões, 15 equipamentos de litotrícia, etc.
Note-se que os dados referidos dizem respeito aos hospitais privados (111) e não contemplam os hospitais que, sendo do SNS, beneficiam de gestão privada (4).
Estes são os números do INE mas temos gosto em torná-los desactualizados. A boa notícia para os portugueses é que os hospitais privados continuam a investir. Estão a aumentar a rede geográfica para quase todos os distritos de Portugal Continental (e também nos arquipélagos) e evoluem para um conceito de proximidade, que aumenta o acesso e permite uma gestão integrada em redes. Investe-se também em tecnologias cada vez mais inovadoras e na formação dos profissionais, ao nível do que melhor é feito a nível internacional.
É um erro não assumir que o sistema de saúde português tem uma componente privada muito importante.»
Óscar Gaspar Presidente da APHP, expresso 22 abril 2017
Aonde vai a complementaridade... A hegemonia do sector privado da saúde aí está!  Os portugueses vão pagar caro esta mudança de paradigma levada a cabo por inúmeros governos do bloco central, prosseguida pelo actual ministro da saúde com a manutenção dos hospitais PPP.
«Privatizar serviços sociais públicos não poupa dinheiro a ninguém: começa por forçar o povo a pagar mais, quando deles precisa; depois, faz surgir gastos desnecessários, de promoção, de marketing e de administração de menor custo na gestão pública; depois ainda, por exigir regulação forte, mas torneável e susceptível de ser enganada, alimentando conluios e fraudes ainda maiores aos do sistema público; finalmente, porque discrimina os que têm dinheiro, ou o cheque, sobre aqueles que o não têm, e, nos prestadores, separa os que podem seleccionar clientela dos que o não podem fazer.» (Correia de Campos, JP 21.01.13).
Clara Gomes

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sábado, abril 22

A Arte da Guerra

Desenvolvimentos: 
Sindicatos tentam “bypass” ao ministro da saúde através de carta ao Primeiro-Ministro, António Costa (18.04.17) link ; Publicado Pré-Aviso de Greve de 10 e 11 de maio (20.04.17). link 
Depois da reunião da última quarta-feira, fracassada mais uma hipótese de entendimento, restará o recurso à greve. Para já, antevê-se mais uma derrota política importante do ministro da saúde e prejuízo grave dos doentes do SNS. 
Notas: Um líder lidera pelo exemplo, não pela força.  A vitória está reservada àqueles que estão dispostos a pagar o preço. A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar. Sun Tzu “A Arte da Guerra”.

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Relatório Primavera 2017


Apresentação do Relatório Primavera 2017 link

domingo, abril 16

Ministro em maus lençóis! (2)

E aqui chegámos. Greve nacional, convocada pelos Sindicatos Médicos, para os dias 10 e 11 de maio. link 
Apesar dos últimos recuos do ministro (anúncio do pagamento das horas extraordinárias a 75% aos médicos com efeitos retroactivos a 1 de abril), os sindicatos médicos mantiveram a convocatória. 
O caderno reivindicativo dos médicos é extenso com alguns pontos difíceis de cumprir tendo em conta as limitações impostas pela crise que continuamos a enfrentar. Não deixa, no entanto, de ser triste constatar a quase total inabilidade do ministro na abordagem de situações mais complexas que requerem estofo político mínimo. Tudo que seja além das fugazes declarações aos órgãos de comunicação social, dos soundbites da praxe, o ministro não vai lá. 
Seja como for, o ministro da Saúde joga a última cartada na próxima quarta-feira (19.04.17) tendo convocado os sindicatos para uma derradeira reunião antes da greve. 
SIM: "Greve. Contagem decrescente e Conselho de Ministros" link "A greve explicada ao Sr. Director-Geral da Saúde" link
Foto: "Altos e Baixos", Semanário Expresso 14.04.17

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sábado, abril 8

Considerações sobre a natureza da continuidade

Enquanto a tutela da Saúde se deslocava da Fundação Calouste Gulbenkian para Santo Tirso com passagem pelo Centro Cultural de Belém, mostrando às plateias os progressos que ao fim de um terço do mandato tinha conseguido, o retrato da saúde dos portugueses, evidenciado pelo Inquérito Nacional de Saúde, realizado em 2014, tinha perdido brilho e muitas das suas cores tinham desaparecido.
A circunstância de os dados se reportarem àquele ano e só serem conhecidos agora, não significa que no início do seu mandato, na qualidade da função governativa que ia ocupar, lhe devesse ser estranho aquele diagnóstico.
 O padrão epidemiológico da morbilidade era inequívoco quanto às causas que lhe estavam subjacentes.
 O Inquérito Nacional de Saúde não fez mais do que dar evidência estatística ao que já era conhecido.
Por essa razão as medidas que têm vindo a ser tomadas nestes meses que a tutela leva de exercício do cargo são tudo menos aquelas que se ajustam ao que muitos dos indicadores de saúde exigem.
No princípio, embora timidamente, o discurso ainda incorporava algumas referências à promoção da saúde.
 Ultimamente, o modelo biomédico readquiriu o seu estatuto, instalou-se e passou a dominar toda a iniciativa que tem origem no Ministério da João Crisóstomo.
 Vejamos então do que estamos a falar.
 Podemos apreciar A Toilette de Vénus, de Rubens, mas sabemos que ela não vai ser diabética, nem hipertensa, nem cardíaca, nem vai sofrer de artroses dos joelhos, nem doença oncológica, nem vai precisar de cuidados médicos, nem de internamento, nem do INEM, nem da UCI, nem do dinheiro dos nossos impostos para se tratar.
 Vai continuar pelos séculos fora a olhar-se ao espelho com os seus cabelos loiros a escorrem-lhe pelo ombro direito.
E também não vai aumentar nem diminuir de peso.
 Na passagem do século XVI para o século XVII aquele era o padrão de beleza feminina dos flamengos.
 Mais recentemente, podemos também apreciar O Picador, de Botero, mas daí não virá mal nem ao cavalo, nem ao jaez, nem a quem vai picar, nem aos serviços de primeiros socorros da praça de toiros, nem ao próprio.
Bem diferente é a epidemia que está instalada entre a população adulta portuguesa. Informa aquele inquérito que “mais de metade da população com 18 ou mais anos (4,5 milhões) tinha excesso de peso ou obesidade, 43,9% tinha um peso normal (3,8 milhões) (INE, Inquérito Nacional de Saúde, 2016, pág. 7).
A dimensão do alto risco é a que os valores mostram.
É verdade que num mundo perfeito nenhum português deveria ter um índice de massa corporal superior a 24, mas daí àquele valor vai o salto de uma incúria das políticas de saúde.
A Gauss iria custar-lhe construir uma curva de normalidade com estes valores.
E aos contribuintes vai-lhes custar andar a pagar durante as próximas dezenas de anos o que podia ter sido prevenido.
E desde logo se tivesse começado a ser aplicada uma estratégia que, em vez do cimento, desse prioridade ao conhecimento e á sua difusão.
Não se tendo atacado o problema quando ele começou a tomar as proporções que agora se conhece em toda a sua extensão, pelo menos ainda se tinha ido a tempo de ganhar alguns anos de vida e de anos de vida sem incapacidade.
Pelo contrário, o investimento terá de ir inevitavelmente para consultas médicas, para medicação, para as linhas verdes do enfarte agudo do miocárdio, do acidente vascular cerebral, para os antidiabéticos, para as quimioterapias, as radioterapias ou as cirurgias. E ainda escasseia.
 Os idosos 
 Há notícia de que os idosos institucionalizados apresentam défices alimentares importantes quando comparados com os idosos que se mantêm em ambiente domiciliário, qualquer coisa como 43,5% contra 17,5% . link 
E que as taxas de depressão são também mais elevadas naqueles idosos. 
Não constituindo um dado surpreendente, ele decorre da ausência de uma política que integre as diversas dimensões e necessidades desta população. Agora que vai ser discutida a descentralização administrativa importa que seja acompanhada pela descentralização de competências de maneira a que a generalidade das funções sociais sejam planeadas e integradas tendo em conta as particularidades de cada comunidade social.
 Não representando todo o argumento para a descentralização, as políticas de proximidade são aquelas que estão em melhores condições para ajustar as soluções aos problemas, numa perspectiva de aproveitamento exaustivo dos recursos locais. Como o caso das condições problemáticas da vida de grande parte dos idosos, que devem beneficiar dos apoios indispensáveis para se manterem no seu domicílio, se essa for a sua vontade. 
E ao sector da saúde nada lhe deve ser indiferente quando se está perante contextos sociais em que com maior facilidade se vão instalar ou agravarem patologias que contribuem para o aumento da incapacidade e para as taxas de mortalidade que ultimamente vêm sendo conhecidas. 
De Manchester nem bom vento nem bom tempo, de espera 
Também foi afirmado no Fórum do SNS, realizado em Santo Tirso, que um gesto tão simples como dar ao doente o número do telemóvel de quem lhe está a gerir a doença iria resolver a peste verde, tipo Linha Saúde 24 peripatética, a doença que ataca à volta de 50% das urgências hospitalares. 
Simplificando, é a cor daquelas pulseiras, atribuídas aos doentes que se dirigem aos serviços de urgência hospitalar, que o informam: não, não é urgente, isto vai-lhe dar umas sete horas para ficar sentado a pensar que da próxima vez não se deve dirigir aqui. 
Este é o ponto de vista de quem decide da entrega do adereço. 
E o ponto de vista de quem espera? 
Para esse ponto de vista, disseram, há o telemóvel e as maravilhas que ele pode fazer. Por exemplo: - oh senhor Manuel, pela sua saúde não vá às urgências porque o seu caso não é assim tão grave, dirija-se ao centro de saúde mais próximo, de preferência da sua área de residência, ou onde está inscrito, e vai ver que lhe resolvem o achaque. Podemos estar a ver mal, mas esta é mesmo a solução para essa calamidade que dá pelo nome de obstáculos organizacionais no acesso fora de horas aos centros de saúde? 
 O que lá foi dito sobre a solução para o que, do ponto de vista clínico, não representa uma urgência é uma consulta telefónica. 
Não será, porém, o alargamento permanente do horário de atendimento nos centros de saúde, de maneira a desenvolver-se uma cultura de utilização prioritária e apropriada destes serviços sempre que algum acontecimento desta natureza se atravessa na vida corrente das pessoas? 
É que os obstáculos, organizacionais e financeiros, no acesso às urgências geraram um défice de 2, 7 milhões de actos médicos que, não tendo sido realizados, tiveram seguramente consequências sobre a saúde de quem deles carecia 
Para não se transformarem as urgências e outros tipos de atendimento equivalentes no epicentro do sistema público de saúde, como a certa altura aconteceu com os SAP, é necessário que o SNS adquira outra configuração, a configuração de parcerias públicas com capacidade de decisão das comunidades locais. 
É no conhecimento dos recursos locais e da extensão da sua capacidade de resposta que as soluções alternativas podem ser encontradas e ter lugar. 
A continuidade é uma rendição 
 Na Fundação Calouste Gulbenkian, a tutela deu notícia do que desde sempre esteve à vista logo que tomou posse: a defesa da continuidade. A qual, dada a proximidade cronológica, só pode ser entendida como a continuidade da política de saúde do governo anterior. 
Bem se esforçou a propaganda do governo do brutal aumento de impostos para impor o então ministro da Saúde como a face benevolente das suas políticas. 
Ao dar aquele sinal político, de dar cobertura ao percurso do seu antecessor, a actual tutela escolheu o caminho mais fácil, ir pelo caminho já traçado, na presunção de que tal como está, com trinta e oito de existência, o SNS irá cumprindo a sua missão ancorado nos pressuposto que o viu nascer. 
Porém, sendo um serviço público, o SNS tem por missão responder pela integralidade dos valores pelos quais está em défice em muitos dos seus aspectos. A continuidade, tal como vem sendo aplicada ao longo dos últimos anos, fez do SNS um prestador cego às razões do que vai acontecendo, acumulando disfunções organizacionais, atrasos e sobrancerias. 
 Está transformado no bombeiro a quem foi atribuída a missão de retirar os que, no meio do rio, esbracejando, estão prestes a afogar-se, sem cuidar-se de saber o que se está a passar a montante. 
A continuidade, enquanto ideologia do sistema público de saúde, é adversária da inovação, Camus diria que é o seu Sísifo, é o equivalente a carregar antigas práticas, muitas delas obsoletas, sempre com o argumento na ponta da língua para justificar a lógica do imobilismo: era assim que os nossos avós faziam. Tem sido esta visão passadista do SNS que o fez parar no tempo, umas vezes benevolente, outras, castigadora. 
Se há declaração e prática que estaria vedada ao governo saído dos acordos de 10 de Novembro de 2015, era de que iria adoptar uma política de continuidade. 
Deitar contas aos mortos 
 Defendia o poeta Gedeão que o sonho é uma constante da vida. 
E durante anos cantámos essa constante, e continuamos a cantá-la, talvez porque, como figura poética, seja inultrapassável e resuma uma das características que nos distingue como espécie, sonhar, isto é, projectar a perfeição do desejo ou, quem sabe, aspirar á sublime tentativa de alcançar o belo. 
Sendo o sonho uma constante, a constante da vida é, porém, a morte. 
Porque, até ver, ela é irremediavelmente irreversível. 
Talvez seja por isso que a espécie humana inventou, nuns casos, e descobriu, noutros casos, a medicina, essa engenharia que tem como finalidade prolongar a vida para que, no todo, ou em parte, o sonho individual permaneça e se possa cumprir. 
Também por isso as sociedades foram aperfeiçoando o modo e a maneira como foram garantindo a todos o acesso a cuidados de saúde com a sofisticação tecnológica que hoje se conhece, até se chegar aos sistemas públicos de cobertura universal, de que o exemplo mais qualificado é o Serviço Nacional de Saúde, tal como o conhecemos desde 1948, na Grã-Bretanha, e desde 1979, em Portugal. 
Ao terem como uma das suas principais missões tratar e curar a doença, é nas oscilações do volume de óbitos verificados num dado período de tempo que podemos avaliar a contribuição que os serviços de saúde estão a dar para manter e prolongar a vida. 
As variações da mortalidade em Portugal, na série temporal 2007-2016, podem ser consultadas em link onde o respectivo quadro permite analisar a sua distribuição e as incidências que se foram verificando ao longo da década, sobretudo nos períodos mais críticos, o verão, associado às ondas de calor, e o inverno, relacionado com o frio e os síndromes gripais, cuja combinação representam um risco acrescido para os grupos mais vulneráveis, principalmente os idosos. 
Apesar disso, e dado o conhecimento que se tem destes acontecimentos e da sua constância, torna-se possível prever e planear as respostas a estas situações de maneira a prevenir a ocorrência mais indesejável, a morte evitável. 
Nestas circunstâncias é inqualificável e inadmissível o que se passou durante o ano de 2016 no que respeita ao volume de óbitos verificados. 
Para uma média anual de 107 574 óbito naquela série temporal, no ano transacto registaram-se em Portugal 112 410 óbitos, representando um excesso de 4 836 óbitos relativamente ao esperado. Na década, este foi o pior valor verificado. 
Os meses de Abril, Maio, Agosto, Setembro, Outubro e Dezembro foram os piores meses de todo o período, e só em dois meses – Janeiro e Fevereiro – não se registaram excesso de óbitos.
 Comparativamente, o ano de 2007 foi o que apresentou melhores valores, sem nenhum mês com mortalidade excessiva. Bastaram, no entanto, dez anos para o SNS deixar de dar as respostas a que nos tinha habituado e que eram esperadas e exigíveis. Relativamente à média da década, entre 2007-2016 verificou-se uma variação de 8 279 óbitos. 
Embora a tutela tenha afirmado que, no que se refere à mortalidade sazonal, este inverno tinha sido o melhor dos últimos anos, os dados aí estão para a desmentir. Considerando que naquela década e nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro se verificou uma média de 32 082 óbitos, o inverno de 2016/17 foi o que apresentou maior excesso de óbitos, 3130, logo a seguir ao inverno de 2104/2015, com 3789 óbitos. Quando os sistemas de saúde, sejam eles predominantemente públicos ou predominantemente privados, apresentam estes valores há responsabilidades que têm de ser assumidas. 
A Constituição da República não deixa de fazer referência a este tipo de ocorrências: O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem (Artº22º). E a pergunta que obrigatoriamente exige uma resposta é: o que não foi feito para prevenir este tipo de catástrofe, porque disso se trata? 
Quando é que estas situações vão começar a ter o tratamento judicial que a Constituição prevê? 
Quando é que a natureza destas omissões vai começar a ser tratada como ofensas à vida? 
 Várias personalidades responsabilizaram o valor dos óbitos de 2016 pelo envelhecimento da população, querendo supostamente dizer que, subitamente, os idosos tomaram a decisão de começarem a morrer antes do esperado.
 Pergunta impertinente: desde que ano, mês e dia é que o aumento da esperança de vida contribui para o aumento da mortalidade? Aprende-se onde estas coisas se ensinam que a esperança de vida é um estabilizador do fenómeno. 
O excesso muito excessivo de óbitos não pode ser explicado nem pelo envelhecimento da população nem pela virulência do vírus H3N2, que já esteve presente noutras alturas sem as consequências que se verificaram neste inverno. A explicação pode ser outra: conjugaram-se temperaturas baixas, presença do H3N2, idosos com multipatologias, baixas condições de vida e, uma vez mais, indiferença da tutela, que não accionou o sistema de alerta e resposta para prevenir esta calamidade, e minimizar as ocorrências. 
 Envolver o envelhecimento da população, que não é uma doença mas uma vulnerabilidade, no excesso de óbitos é irresponsável, mistificador e um argumento arremessado para fazer crer que estamos perante uma fatalidade, e contra fatalidades não há argumentos. 
O aumento de três pontos percentuais do volume de idosos na população, entre 2007-2016 (1,8 milhões – 2,1 milhões), não explica a brutal variação de mortalidade no período, cujo aumento foi de oito por cento. Quer-se fazer crer que é a mão invisível de Deus a fazer das suas. Mas não é assim. 
Teria bastado que os responsáveis da Saúde tivessem tido outra atenção com os idosos e, juntamente com outros sectores das comunidades locais, tivessem feito o que era exigível que tivesse sido feito: protegê-los dos riscos anunciados. 
Notícias de Xangai 
 Realizada entre 21-24 de Novembro de 2016, e na sequência da Carta de Ottawa de 1986 e de outras conferências que se sucederam, a 9ª Conferência de Promoção da Saúde realizada em Xangai, entre outros aspectos realçou a importância das seguintes medidas: Os autarcas concordaram em integrar a saúde como uma dimensão central em todas as políticas das cidades; em promover o envolvimento das comunidades por meio de múltiplas plataformas, entre elas escolas, locais de trabalho e novas tecnologias para avançar em saúde; e em reorientar a saúde municipal e os serviços sociais para a equidade e cobertura universal de saúde. 
O evento em Xangai marca o 30º aniversário da primeira conferência global, realizada no Canadá, que emitiu a Carta de Ottawa sobre a Promoção da Saúde. 
Esse documento deixou clara a necessidade de compromisso político, acção e investimentos para tratar de saúde e equidade e que o sector de saúde sozinho não poderia garantir que as pessoas atingissem o mais alto nível de saúde. 
Mais de mil pessoas participam da Conferência em Xangai, incluindo o primeiro-ministro da China, mais de 40 Ministros da Saúde e outros setores, chefes de cinco agências das Nações Unidas e cerca de 100 autarcas . Centenas de especialistas em saúde internacionais também estão participando em diversos assuntos. 
Não sei se Portugal se fez representar e participou nas discussões da Conferência. De qualquer maneira, aí está, mais uma vez, a declaração de que a saúde das populações trasncende em muito a abordagem biomédica e exige outro compromisso em que as comunidades locais sejam parceiro decisivo das decisões. 
Cipriano Justo, Tempo Medicina

Hepatite A, os erros do passado no presente

O ECDC alertou as autoridades europeias para este surto em Agosto de 2016. Os primeiros casos “em excesso” começaram a ser notificados em Dezembro. A DGS nada fez em todo este tempo. 
Nova Iorque, Julho de 1981. Primeira notícia sobre o VIH/sida publicada pelo The New York Times: “Médicos em Nova Iorque e na Califórnia diagnosticaram uma rara e rapidamente fatal forma de cancro entre 41 homens homossexuais. […] De acordo com o Dr. Friedman-Kien, a maioria dos casos envolveu homens homossexuais que tinham muitos encontros sexuais com múltiplos parceiros, chegando aos dez parceiros por noite, quatro noites por semana. […] O Dr. Curran afirmou que não existirá perigo de contágio para não-homossexuais — ‘a melhor evidência’, disse o médico, ‘é que não existem casos reportados fora da comunidade homossexual ou em mulheres’.” link link 
Lisboa, Março de 2017, 36 anos depois. Notícia do PÚBLICO: “Casos de hepatite A afectam sobretudo homens com 30 anos. […] A maior parte dos casos já confirmados é de homens que fazem sexo com homens. O principal modo de transmissão desta doença é por via fecal-oral, e o director-geral da Saúde explica que em causa poderão estar ‘práticas de comportamento de sexo oral com mais risco’, nomeadamente quando o sexo oral permite ‘a transmissão do vírus eliminado de forma anal, rectal’, em contexto de práticas sexuais prolongadas com múltiplos parceiros.” 
Relatório sobre a situação da sida em Portugal, 1986, Instituto Nacional Ricardo Jorge: “A quase totalidade dos casos verificou-se em indivíduos do sexo masculino e, grosso modo, um em cada dois doentes tem entre 20 e 40 anos de idade. Os elementos disponíveis, de ordem sociológica, fazem crer ser reduzida, entre nós, a população homossexual masculina […]. Entendemos, assim, que os dados epidemiológicos de base obtidos nos EUA e utilizados para esboçar o quadro evolutivo da epidemia — como o número médio de contactos sexuais por homossexual, o número de indivíduos infectados e a percentagem de população em risco — não são reprodutíveis para aplicação directa entre nós.” 
Lisboa, Março de 2017, 31 anos depois, norma da Direcção-Geral da Saúde sobre o surto de hepatite A: “Pessoas em maior risco de adquirir hepatite A: Homens que fazem sexo com homens (HSH) com um ou mais dos seguintes comportamentos: sexo anal (com ou sem preservativo); sexo oro-anal; sexo anónimo com múltiplos parceiros; sexo praticado em saunas e clubes, entre outros locais; encontros sexuais combinados através de aplicações tecnológicas (apps).” 
Sobre o “cancro dos homossexuais” como era conhecida a sida em 1981, já conhecemos o desenrolar da história: de um punhado de “homossexuais promíscuos” a 70 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 40 milhões são mulheres. Será certamente diferente com a hepatite A, pelo facto de esta ser uma infecção muito mais benigna. Mas não aprendemos nada em quase 40 anos de experiência com o VIH? 
No surto de hepatite A, continuamos, como há 40 anos em relação à sida, à procura da “culpa”, à procura dos indivíduos “estranhos”, com modos de vida “diferentes”, de comportamentos sexuais “esquisitos”. Isolamos esses “pecadores” e descansamos as nossas “consciências”. Homens que têm sexo com homens, que o fazem “anonimamente” e usam “aplicações tecnológicas”. Entretanto, os vírus, que não têm qualquer tipo de preconceitos, proliferam alegremente nos mais incautos e insuspeitos. 
O Centro Europeu de Vigilância Epidemiológica ECDC alertou as autoridades europeias para este surto em Agosto de 2016. Os primeiros casos “em excesso” começaram a ser notificados em Dezembro de 2016. A DGS nada fez em todo este tempo e não acautelou o stock de vacinas, agora em ruptura. No entanto, no mesmo dia em que saíram as primeiras notícias, a DGS conseguiu reunir uma série de peritos de urgência e proclamar “intenções”. Esperava-se mais e melhor da DGS. Médico de saúde sexual de homens que têm sexo com homens 
BRUNO MAIA, JP 03.04.17 LINK

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domingo, abril 2

ADSE para todos

Depois da transformação em Instituto Público de regime especial e de gestão participada ADSE, I.P. em substituição da Direção-Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas – ADSE link, o governo prepara-se para alargar o novo instituto público a novos beneficiários, para já cônjuges e filhos entre os 26 e 30 anos. link 
Mais um passo gigante na execução do projecto de convergência dos dois sistemas públicos (SNS/ADSE), à boa maneira de Mendes Ribeiro, para quem a ADSE faz melhor e mais barato: «A experiência da ADSE na gestão de um plano de saúde com mais de 1,3 milhões de utentes tornou-se um excelente exemplo que permitiu comprovar ser possível conciliar a liberdade de escolha com um menor esforço de despesa pública, apesar de um co-pagamento voluntário mais elevado, por parte dos seus utentes. Em vez de matar a ADSE seria bem melhor fazer a convergência dos dois sistemas públicos, alcançando uma nova solução para o SNS. O tema ganha ainda mais interesse quando comparamos o custo relativo dos dois sistemas. Os cuidados de saúde prestados a um utente do SNS custaram em 2007, aos nossos impostos, 938 euros, por pessoa. Os mesmos cuidados, prestados a um beneficiário da ADSE, com relativa liberdade de escolha, custaram, no mesmo ano, 780 euros, ou seja menos 17%.» 
Contas de merceeiro à parte, achamos oportuno, a propósito de mais esta iniciativa liberalizante, tão ao gosto do ministro ACF, trazer à liça de novo o texto “Mitos e realidades” link dos nosso colegas AH publicado no JP. 
 No seu artigo do PÚBLICO de 21 de Janeiro — "O curioso caso da ADSE e a espiral estatizante" link — o prof. João Carlos Espada ( J.C.E.) considera a ADSE uma “espécie de seguro”, aponta-lhe vantagens: liberdade de escolha, responsabilização do utente através de co-pagamentos, criação de um mercado de serviços concorrencial, racionalidade e economia. 
A ADSE foi criada nos anos 60 para garantir a funcionários protecção idêntica à que as Caixas asseguravam aos trabalhadores por conta de outrem, na lógica do modelo “bismarkiano”, ensaiado pelo Estado Novo. Ao adoptar-se, em 1979, o modelo “beveridgeano” de um Serviço Nacional de Saúde financiado por impostos, subsistemas de Saúde como a ADSE deveriam, em coerência, ter sido extintos. Não foram. 
A ADSE parece ser um seguro, mas não tem partilha de risco entre os beneficiários. O SNS serve também os funcionários e pensionistas do Estado, mas a ADSE permite-lhes aceder a benefícios complementares, como a livre escolha de médico e de clínica privada, com amenidades hoteleiras. Vantagens que só existem na faixa litoral do país. 
A adesão não é voluntária, a prevenção e controlo do risco moral, típicas das seguradoras, estão ausentes, ou quase. No ponto de contacto o doente paga uma pequena fracção dos custos, mas a sua parte na conta fi nal, em tardio reembolso, é normalmente elevada – o que torna impossível a generalização da ADSE a todos os cidadãos. Quanto aos benefícios apontados, vejamos: 
A liberdade de escolha pode resultar em prejuízo do utente, dado estarmos longe de um mercado de concorrência perfeita. Não existe soberania do consumidor, o qual tem informação insuficiente sobre o mercado, o produto e os resultados. Fragilizado pela doença e pela dependência do médico, seu “agente”, a sua escolha não é soberana. A ausência de referência médica, combinada com a livre escolha e liberta do preço, induz consumismo, acréscimo de custos e riscos adicionais para o doente. Regista-se, em estudos comparados, que os sistemas de tipo convencionado (“bismarckianos”) apresentam maior custo global e menor equidade. J.C.E. fala em co-pagamentos responsabilizantes, mas desconhece o mercado das clínicas privadas convencionadas com a ADSE, onde o doente, embora não pague taxas moderadoras, tem a seu cargo importantes co-pagamentos, tendo por vezes que se submeter a sistemas de admissão discriminantes.É duvidoso que a ADSE possa “criar mercado e concorrência” e evite a destruição da “economia independente”. Mais importante que a concorrência é a cooperação, para tratar o doente e obter os melhores resultados. E para quê a expansão da economia “independente”, à custa do aumento de encargos para o Estado? Afirma J.C.E. que a ADSE é um sistema mais racional e menos despesista. A ADSE nem sequer é um sistema, muito menos racional, mas um conjunto não estruturado, focado nos cuidados curativos, em que ninguém é responsável pela gestão da doença. Ao contrário, o SNS baseia-se na primeira instância, em cuidados primários, a prestar na comunidade, e numa segunda instância de cuidados hospitalares, promovido através de referência. O médico de família é o gestor dos recursos: como primeiro contacto, pode melhor gerir o uso de meios de diagnóstico e medicamentos e o envio a especialistas, evitando a hospitalização desnecessária. 
Garante J.C.E. que a ADSE é “obviamente” mais barata. Não é verdade. Os actos não são idênticos no público e no privado, na diferenciação e no que o preço integra: a consulta hospitalar inclui medicamentos e meios de diagnóstico. O menor preço do cada acto sai mais caro ao Estado, se ocorrer uma multiplicação de actos, como cronicamente acontece na ADSE. No final, o custo total por doente, controlado por casuística e severidade, é mais elevado na ADSE que no SNS. 
Afirma também que o SNS nem precisa de “construir e sustentar serviços estatais”. Tendo o SNS capacidade suficiente, aqui e ali excedentária, a solução correcta será utilizar a capacidade instalada e não fomentar investimentos duplicados. Com as condições políticas favoráveis actuais, há que preservar e melhorar a eficiência do SNS, que exibe resultados notáveis, com indicadores idênticos aos dos restantes países europeus e muito melhores que os dos EUA. Quanto à ADSE, sendo indesejável a sua extinção imediata, será necessário reformulá-la, tornando-a um sistema autosustentável e bem controlado. 
JP, A. Dias Alves e J. Meneses Correia, AH link

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sábado, abril 1

Eventos adversos

Patient harm is the 14th leading cause of the global disease burden. This can be compared to tuberculosis and malaria. The majority of this burden falls on the developing countries. 
 • Most research on the cost of patient harm has focused on the acute care setting in the developed world where the disease burden can be compared to chronic conditions such as multiple sclerosis and some types of cancer. 
 • The financial impact of safety failure is considerable. Approximately 15% of total hospital activity and expenditure is a direct result of adverse events. The most burdensome adverse event types include venous thromboembolism, pressure ulcers, and infections 
 • Less is known about harm in primary and ambulatory care. Research indicates that wrong or delayed diagnosis is a considerable problem. Some studies suggest that every adult in the United States can expect to be harmed as a result of diagnostic error at some point in their lifetime. 
 • The flow-on and indirect costs of harm include loss of productivity and diminished trust in the healthcare system. In 2008, the economic cost of medical error in the US was estimated to be almost USD 1 trillion. 
 • Many adverse events are preventable. Furthermore the costs of prevention are dwarfed by the cost of failure. For example improving patient safety in US Medicare hospitals is estimated to have saved USD 28 Billion between 2010 and 2015. 

 Most research to date has focused on the hospital setting. Estimates vary, but around one in ten patients can be said to be harmed during hospital admission. The majority of adverse events relates to healthcare-associated infection, VTE, and adverse drug events or medication error. A Portuguese study of hospital records estimated that three out of five adverse events occurred in elderly patients. Most frequently adverse events were related to surgical procedures (27%), medication errors (18.3%) and healthcare-acquired infections (12.2%) (Sousa et al, 2014). In the long-term care setting, the most frequent adverse events include pressure injury and adverse drug events. For example, a study of facilities providing long term care to Medicare beneficiaries in the United States found that pressure injury, falls, aspiration pneumonia and drug-induced delirium to be the most common types of harm (Levinson 2014). 
 The economics of patient safety link

domingo, março 26

O dr Fragateiro e a peste verde

Diz o dr. Regateiro, alto responsável da Reforma Hospitalar link, que um gesto tão simples como dar ao doente o número do telemóvel de quem lhe está a gerir a doença iria resolver a peste verde, tipo Linha Saúde 24 peripatética, não sei se as minhas amigas e os meus amigos estão a par do que é, a doença que ataca à volta de 50% das urgências.
 Horário de trabalho, o que é isso? Simplificando, é a cor daquelas pulseiras que dão aos doentes quando se dirigem aos serviços de urgência hospitalar e alguém decide - não, não é urgente, tome lá uma pulseira que lhe vai dar umas sete horas para ficar sentado a pensar que da próxima vez não se deve dirigir aqui. Este é o ponto de vista de quem decide da entrega do adereço. E o ponto de vista de quem, mesmo não sendo do clube, tem de gramar com uma verdinha? 
Bem, para esse ponto de vista, diz o dr. Regateiro, há o telemóvel e as maravilhas que ele pode fazer. Por exemplo: - oh senhor Manel, pela sua saúde não vá às urgências porque o senhor ministro fixou uma meta e não podemos contrariá-lo senão fica fulo e lá temos de levar com mais uma conferência de imprensa. Digam-me, porque posso estar a ver mal, é mesma esta a solução para essa calamidade que dá pelo nome de obstáculos organizacionais no acesso nos centros de saúde? 
Cipriano Justo, in facebook link

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sábado, março 18

Ministro em maus lençóis!

O Fórum Médico em comunicado fez um aviso solene ao Governo (10.03.17) link:
1 – Defender um SNS de qualidade que respeite os preceitos Constitucionais, com o orçamento público adequado.
2 – Congratular-se com a união e convergência de todas as organizações médicas e de todos os médicos na defesa dos doentes e da qualidade da medicina.
3 – Estimular as organizações médicas para que, no âmbito das suas competências legais, apresentem um programa de negociações, dotado de um curto calendário negocial e onde todos os problemas que afectam a medicina e os médicos sejam objecto de análise e resolução.
4 – Tal programa global de negociações deve contemplar aspectos fundamentais vertidos nos cadernos negociais dos sindicatos médicos já reiteradamente entregues ao Ministério.
5 – A questão da reposição do valor remuneratório do trabalho suplementar a que os médicos são obrigados, não sendo matéria isolada é de imperiosa resolução a muito curto prazo.
6 – Caso as negociações não se traduzam a curto prazo em resultados inequivocamente positivos, as organizações sindicais médicas estão preparadas para desencadearem os adequados mecanismos legais de convocação de uma greve nacional dos médicos.
7 – O Fórum Médico decide ainda constituir-se em estrutura informal dotada de um regular funcionamento e como um espaço privilegiado de diálogo, articulação e convergência entre as várias organizações médicas. 
Lesto o ministro, em reunião realizada em 14.03.17, decidiu recuar e repor, para já, a partir de abril, 25% do valor das horas extraordinárias a todos os profissionais de saúde, sem exceção. A reposição total (100%) deverá ocorrer até ao final de 2017. link 
Apesar desta cedência os médicos deram mais um mês ao ministro para resolver os problemas pendentes das carreiras e concursos médicos. Por sua vez, os enfermeiros anunciaram uma greve geral para 30 e 31 de Março. link 
A fragilidade do ministro parece evidente. Há muito perdida quase por inteiro a iniciativa. De cedência em cedência onde isto irá parar! Será que o amigo MRS, parceiro do pacto para a saúde, estará disposto, desta vez, a dar mais uma ajudinha?
Foto: Expresso
Clara Gomes

domingo, março 12

Conveniências

Governo discrimina Hospital de Braga 
 O Hospital de Braga (HB) obteve “excelência clínica” na última avaliação da Entidade Reguladora da Saúde, em todas as áreas, e a classificação máxima do país em oito das áreas clínicas. Esta avaliação nacional mede a qualidade global dos serviços de saúde de todos os hospitais nacionais públicos e privados. 
Ter obtido a classificação máxima do país é motivo de satisfação para quem vive em Braga, até porque a memória colectiva ainda recorda como o velho Hospital de São Marcos, antes de 2009, era insuficiente para servir uma população de mais de 1 milhão de pessoas. 
 A Comissão de Coordenação Regional do Norte, onde tive responsabilidades até 2001, dispunha de um Núcleo de Planeamento Regional de Saúde que cruzava informação estatística de saúde com outros indicadores de natureza social. Facultava pistas para que o próprio Ministério da Saúde pudesse actuar de forma mais equitativa e justa no acesso à Saúde. 
 Já na altura ficava surpreendido por o atendimento à população minhota, apesar do seu elevado peso demográfico, ser muito inferior à média do país. Alguma coisa não estava certa na decisão política. Esses dados foram úteis para o prof. Joaquim Sá Machado justificar a oportunidade da nova Escola de Ciências de Saúde na Universidade do Minho, hoje reconhecida pela qualidade do ensino e pela excelência da investigação clínica que desenvolve, o que confere também ao HB carácter universitário. 
 Apesar do grande salto qualitativo na oferta regional de serviços de saúde, há ainda disfunções que merecem ser esclarecidas. A recente auditoria à execução do contrato de gestão do HB em parceria público-privada (PPP) do Tribunal de Contas, constatava que o novo hospital aumentou muito a oferta de cuidados de saúde à população. 
 Em seis anos, as consultas externas aumentaram 99% e o internamento e a cirurgia de ambulatório mais do que duplicaram em relação às previsões iniciais. A gestão tem sido eficiente na utilização dos recursos, tanto ao nível do custo operacional por doente padrão, o mais baixo dos hospitais do SNS, como no financiamento atribuído pelo Estado por doente entre os hospitais de gestão pública. 
 No entanto, o HB apresenta um preocupante aumento das listas de espera para primeiras consultas e para cirurgias, respectivamente 68% e 54% nos últimos 30 meses, que são das mais elevadas do Norte. AARS Norte, invocando indisponibilidade orçamental do país, não tem permitido ajustar a produção contratada à procura real. Se as recomendações do TdC fossem cumpridas, o crescimento na espera seria estancado e reposta alguma equidade. 
 Entretanto, o quadro de incerteza mantém-se. Estamos em março e ainda não são conhecidos os valores de serviços a contratar para 2017. O HB, nos últimos seis anos, tem revelado capacidade de reação e não tem deixado de corresponder à procura excedentária. 
 A actividade extra ultrapassa muito os valores contratados, mas não deixa de ser feita. Porém, é paga com um desconto de 35%. Contratar abaixo da procura e remunerar abaixo dos custos reais são práticas inaceitáveis que podem pôr em causa a sustentabilidade económica da parceria estabelecida. 
 Não me move qualquer posição de princípio a favor ou contra as PPP da Saúde, mas receio que, com esta falta de clareza, mais uma vez a população de Braga esteja a ser tratada de forma assimétrica em relação ao resto do país. 
Expresso n.º 2315, 11 de Março de 2017 
Todos sabemos como decorreu a adjudicação do HB e as dificuldades ocorridas desde o seu arranque. link 
O grupo vencedor Escala Braga (que integra a JMS), apresentou a concurso uma proposta inicial de 1.019 milhões de euros, 14.1% abaixo do Custo Público Comparável (1.186 milhões de euros). Na 2.ª fase do concurso baixou para 794 milhões de euros, menos 225 milhões, ou seja, 22% abaixo do CPC. O que não impediu que o projecto fosse adjudicado. Correia de Campos , reconheceu, depois de ter saído do MS, em entrevista ao DE, que esta situação o trazia angustiado. 
 Sobre o actual conflito de interesses as conclusões da última auditoria do TC são claras: «A operação do Hospital de Braga tem-se traduzido no aumento da oferta de cuidados de saúde à população: as consultas externas aumentaram cerca de 99% entre 2009 e 2015 e a actividade do internamento e ambulatório, médico e cirúrgico, mais do que duplicou face às previsões iniciais. 
 Este aumento da produção hospitalar não tem sido totalmente reflectido nos valores acordados anualmente entre a Administração Regional de Saúde do Norte (Entidade Pública Contratante - parceiro público) e a Entidade Gestora do Estabelecimento (parceiro privado), em resultado das alegadas “restrições orçamentais impostas pelos Orçamentos de Estado”, reconhecidas e aceites pelas partes. 
A Administração Regional de Saúde do Norte e a Entidade Gestora do Estabelecimento têm acordado valores de produção anual que pressupõem: 
 • a insuficiência da actividade contratada para responder às necessidades conhecidas de cuidados de saúde da população da área de influência do Hospital, tendo-se verificado o aumento das listas de espera e dos tempos de espera para consultas e cirurgias; 
 • a realização pelo Hospital de Braga de natividade pelo qual não é remunerado, quando esta supera o nível de serviço contratado. 
Assim, as partes não têm atendido às necessidades de cuidados de saúde da população, na medida em que têm concordado em contratualizar uma produção que ambas sabem ser insuficiente para corresponder a essas necessidades. 
A título de exemplo, caso as partes não tivessem chegado a acordo quanto à contratação para 2016, a produção que viria a ser contratada, por via dos mecanismos contratuais previstos, seria, na globalidade, superior em pelo menos 23% face à contratualizada7 , o que beneficiaria os utentes do Hospital e a sustentabilidade imediata da sociedade gestora. 
Assim, a opção do parceiro público por restringir a produção contratada resulta das “razões de comportabilidade orçamental” evocadas pelo parceiro público e pelo Ministro da Saúde, em sede de contraditório. Já a acomodação, por parte do parceiro privado, destas restrições orçamentais, tem de explicar-se pela racionalização que o mesmo faz do conflito, isto é, pela gestão do tradeoff entre a rendibilidade imediata e a rendibilidade futura fundada na expectativa da eventual renovação do Contrato de Gestão. 
O Tribunal alerta que os “termos e condições equilibrados” aos quais o parceiro privado alude, quando aborda a questão da eventual renovação do Contrato de Gestão, sugerem que este está a “investir” na renovação do contrato, em termos diferentes dos atuais, que lhe permita a recuperação de perdas incorridas ao longo do contrato atualmente em execução.» link 
 Moral da história: Para o parceiro privado o tempo é de “aguenta, aguenta!”, na expectativa de eventual renovação do Contrato de Gestão. 
Para o ministro da saúde tudo se resume a uma questão de partilha de riscos: «Quando se fazem parcerias público-privadas (PPP) parte-se do princípio que há uma partilha de risco. Se o operador entende que sempre que há alterações das condições de procura esse risco tem de ser reapreciado, então o Estado não beneficia nada com a partilha de risco. É importante que os hospitais em regime de PPP tenham a noção de que os termos dos contratos têm de ser assegurados, nomeadamente em tempos de espera e em gestão de listas de acesso.» link
Aos utentes compete engrossar as listas de espera na esperança vã que o Estado, desta vez, decida bem em favor do SNS com a passagem do HB para a gestão pública. 
Clara Gomes

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domingo, março 5

Vil tristeza

Promovido pelas Ordens Profissionais da Saúde (Ordem dos Médicos, Ordem dos Médicos Dentistas, Ordem dos Enfermeiros, Ordem dos Farmacêuticos, Ordem dos Psicólogos e Ordem dos Nutricionistas), teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, o encontro “O futuro do financiamento da saúde em Portugal”.
Os promotores do Pacto da Saúde, lá estiveram em peso, representados ao mais alto nível por ACF e MRS. Os inevitáveis discursos de fé não deixaram dúvidas. link 
Embora a entrada fosse livre não consegui marcar presença em tão notável evento. Deixo aqui, no entanto, a nota de Cipriano Justo, publicada no facebook, sobre os relatados  sucessos da governação da Saúde: 
«Ontem, na FCG, protegido pelo ominipresente e inefável anjo da guarda, MRS, a tutela da Saúde deu conta dos sucessos da sua governação. A saber. O primeiro sucesso foi a defesa da "continuidade das políticas", significando que o que vinha de trás, do governo de Passos Coelho era bom, e que o melhor era ir pelo mesmo caminho. O segundo sucesso foi o grande investimento em hospitais e centros de saúde. O terceiron sucesso foi a contratação de 4 000 profissionais para os serviços de saúde. O quarto sucesso foram os 14 milhões de visitas ao portal da saúde, durante 2016. O quinto sucesso foi o elevado volume de transplatações e doações de órgãos. O sexto sucesso foi o facto de este ter sido "o inverno que melhor correu nos últimos anos", cujo volume de excesso de óbitos em Dezembro e Janeiro, e ainda sem se conhecer a mortalidade de Fevereiro, foi o maior da década 2007-2016. Faltou referir-se ao grande sucesso que constiuiu a inusitada procura das urgências hospitalares, e de no ano de 2016 se ter verificado a maior mortalidade geral desde os anos 50 do século passado. Começam a faltar as palavras para descrever o sonambulismo de um sector que tinha todas as condições políticas para mostrar trabalho inovador mas que está reduzido à apagada e vil tristeza de continuar na continuidade, com um reboco na parede aqui, uma pintura ali, e mais um sofá acolá ? link
Clara Gomes

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Bonança

Acabo de folhear o “Expresso”. Nem rasto de parangonas ou extensas entrevistas de fundo de ACF. 
 Efectivamente, tudo parece calmo numa altura em que se publicam medidas de grande alcance visando a melhoria do acesso aos cuidados de saúde. 
Despacho n.º 1788-B/2017: “Define as zonas geográficas carenciadas, por estabelecimento de saúde e especialidade médica, para as áreas profissionais de medicina geral e familiar e de saúde pública e para a área hospitalar e especialidade médica indicadas, em 2017, para efeitos de atribuição dos incentivos à mobilidade de trabalhadores médicos .” link 
 «Levar médicos para fora dos grandes centros urbanos tem sido difícil. Nos últimos dois anos abriram 1710 vagas em hospitais e centros de saúde e em especialidades consideradas carenciadas, mas metade ficaram por preencher. 
O problema é ainda mais expressivo a sul do país: no Alentejo e Algarve das 437 vagas a concurso nas duas regiões, 324 ficaram vazias (74%). Sendo que o Alentejo foi a região mais penalizada. Em 2015 e 2016 abriram 230 vagas em centros de saúde e hospitais, maioria para anestesiologia, medicina geral e familiar, medicina interna e psiquiatria. Mas 180 ficaram por preencher. 
No Algarve o cenário não é muito melhor. Das 207 vagas abertas, 144 ficaram desertas. É o agrupamento de centros de saúde do Barlavento o mais carenciado e nos hospitais as especialidades mais afectadas pela falta de médicos são anestesiologia, ginecologia, medicina interna e ortopedia. 
No Centro houve 177 vagas desertas em 418 e em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) foram 389 em 855. » 
DN 27.02.17 link 
 Despacho n.º 1774-A/2017: “Define regras de organização e mecanismos de gestão referentes ao Registo Nacional de Utentes (RNU), bem como estabelece os critérios e os procedimentos de organização e actualização das listas de utentes nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACeS) e nas suas unidades funcionais . “ link 
RNU será obrigatoriamente fonte única de dados de identificação do utente . As famílias com utentes grávidas, com multimorbilidade, com doença crónica ou com crianças até 2 anos de vida, que estejam a aguardar inclusão em lista de utentes, têm prioridade. 
 Despacho n.º 1728/2017: "Constitui um Grupo de Trabalho com a missão de definir o Programa Global de Modernização das Infraestruturas e Equipamentos dos Cuidados de Saúde Primários do Concelho de Lisboa, devendo elaborar e acompanhar a execução desse Programa." link 
Plano de modernização da rede de CSP do concelho de Lisboa em parceria com o município da capital.

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sábado, março 4

O carro à frente dos bois!

Cascais vai ter Campus Universitário e Faculdade de Medicina 
O dia 24 de fevereiro de 2017 fica para a história como a data em que foi assinado o acordo para a criação do primeiro curso privado de Medicina em Portugal. O acordo para o desenvolvimento do Campus de Cascais da Faculdade Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa envolve a Câmara Municipal de Cascais, Universidade de Maastricht e Grupo Luz Saúde. O projeto integra ainda a criação de uma nova unidade de saúde que irá funcionar nas instalações do antigo Hospital de Cascais. 
 Projeto ambicioso e inovador, a criação deste novo polo vai, segundo Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, “ao encontro dos princípios estratégicos do município de fixação, em Cascais, de conhecimento e talento nacional e internacional, atraindo jovens e investimento para o concelho”. Unidas surgem entidades públicas e privadas, assim como a prestigiada Universidade de Maastricht com longas décadas de experiência internacionalmente reconhecida na área da Medicina. O curso será baseado no modelo de ensino (assente em Problem Based Learning) que Maastricht tem vindo a desenvolver há 50 anos e será totalmente lecionado em inglês. “
O antigo hospital de Cascais foi vendido ao grupo Luz Saúde por 5,4 milhões de euros”, referiu Carlos Carreiras, adiantando que o negócio foi feito com “o compromisso de este grupo construir e colocar em funcionamento o hospital universitário, onde os alunos irão desenvolver a componente prática do curso”. Para garantir mais espaço para o desenvolvimento do projeto, a autarquia disponibilizou o antigo edifício municipal, anexo ao antigo hospital, onde funcionava a empresa Águas de Cascais, para a instalação da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, tendo sido celebrado um protocolo entre estas duas entidades. 
Manuel Delgado, Secretário de Estado da Saúde, presente na cerimónia, sublinhou “a competitividade científica” que este projeto vem gerar, bem como o facto de “possibilitar formação interna e acrescentar valor para os cidadãos com a construção de duas novas unidades hospitalares (em Cascais e Oeiras), o que aumenta a prestação de cuidados de saúde. O governante destacou ainda a “componente de natureza económica” do projeto que “não se pode descartar: a criação de postos de trabalho e a dinamização do tecido económico e empresarial da região.” 
“O ensino da medicina em Portugal é ótimo, mas há sempre espaço para inovar”, salientou Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa. “Este é um projeto com o carimbo da valência académica e científica de uma das universidades europeias de maior prestígio no ensino de Medicina, o que irá atrair não só estudantes portugueses que estão a estudar lá fora, como estudantes estrangeiros que contarão aqui, em Cascais, com as melhores condições para a formação e investigação científica”, acrescentou. 
Arranca agora o pedido de homologação do novo curso que Isabel Gil vai submeter à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) acreditando que o mesmo será aprovado: "A homologação dos cursos, depois de entregue o processo à A3ES, em geral, demora um ano”. 
Um prazo que não compromete o investimento de 35 milhões destinados pelo Grupo Luz Saúde à unidade de Cascais que Isabel Vaz, diretora executiva do grupo Luz Saúde, garante: “o hospital vai sempre avançar, independentemente da acreditação da A3ES para o curso”. 
A responsável sublinha, no entanto que “o modelo está a ser construído com base em todos os requisitos necessários para funcionar como hospital universitário. Este projeto tem uma grande componente de investigação, vai ter um grande centro de investigação incorporado no hospital com um grande centro de simulação, que é hoje fundamental para a educação médica moderna e que traduz o nosso comprometimento com um projeto inovador, internacional, que visa trazer para Portugal alunos de toda a Europa e continuar a projetar a formação médica portuguesa na Europa", esclarece Isabel Vaz. 
Cascais 24/02/2017 
 Como pode um Secretário de Estado dar a bênção a um projeto universitário ainda não submetido à apreciação da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior!!! Face à inaceitável pressão dos intervenientes, que reacção será de esperar do Presidente da A3ES? link 
Vai o Professor Alberto Amaral recusar o projeto mostrando, uma vez mais, ser imune a pressões? Aprová-lo! Dando o dito por não dito quando, por exemplo, tem invocado, entre outras razões, as necessidades do País (número necessário de Faculdades de Medicina internacionalmente reconhecido de uma por cada 2 milhões de habitantes) para justificar a recusa de anteriores projetos privados? Ou demitir-se, face a esta clara ultrapassagem de competências?
Tavisto

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sábado, fevereiro 25

Será que é desta?

... No mesmo ano atingiu-se o número mais elevado de sempre de cobertura da população com médico de família (92,1 por cento), tendo-se passado, pela primeira vez, abaixo de 1 milhão de utentes sem médico de família atribuído. Ou seja, registava-se no final de 2016 um total de 769.537 utentes sem médico de família, o que representa um ganho de 26,6% no número de utentes que passaram a ter médico de família atribuído em relação ao ano de 2015. 
Estes ganhos de cobertura e de atividade assistencial resultam, não só, do aumento do número de médicos nos cuidados de saúde primários (no final de 2016 eram 5.673 os médicos com utentes atribuídos), como também da entrada em atividade de 30 novas USF modelo A e 25 novas USF modelo B, totalizando assim 479 USF em atividade a 31 de dezembro de 2016 (+6,7 por cento do que em 2015). 
ACSS, 20.02.17 link 
Os dados são animadores. É necessário alargar a rede mas, essencialmente, apostar na melhoria da resolutividade dos CSP. link link 
Consideramos  que o objectivo chave da política de saúde da geringonça deve ser a aposta num "SNS baseado nos CSP, promotor de Equidade e garantindo Acesso a cuidados de Proximidade, com Resolutividade, Continuidade, Qualidade e Eficiência".

sábado, fevereiro 18

Vai à urgência?

Vão pedir-lhe que, para a próxima, vá ao centro de saúde. Projecto-piloto arranca em vários centros de saúde e hospitais do Norte, onde a taxa de cobertura de médicos de família é de quase 100%. 
Vários centros de saúde e dois hospitais do Norte do país vão avançar em Abril com um projecto-piloto para tentar evitar a procura desajustada dos serviços de urgência hospitalares que em Portugal parece ser um problema sem remédio. Em 2016, e ao contrário do que pretendia a tutela, a procura dos serviços de urgência cresceu 3%, totalizando 6,4 milhões de atendimentos. 
A partir de Abril, os agrupamentos de centros de saúde (ACES) do Porto Ocidental, Matosinhos, Gondomar, Esposende e Barcelos, o Centro Hospitalar do Porto e o hospital de Barcelos integrarão este projecto-piloto, anunciou nesta sexta-feira à tarde, na Comissão Parlamentar de Saúde, o ministro Adalberto Campos Fernandes. 
Como é que vai ser possível convencer os utentes a ir aos centros de saúde em vez de recorrerem às urgências? Os centros de saúde envolvidos vão ter imagiologia, análises clínicas, saúde oral e visual e psicologia, ou seja, terão “o nível máximo de resolutibilidade” para poder dar resposta a situações agudas, explicou o ministro. O que se irá fazer é, em traços gerais, aproveitar a oportunidade da presença dos utentes triados como não urgentes nos serviços hospitalares para lhes dizer: "Numa próxima oportunidade, não se esqueça de que tem o seu centro de saúde a funcionar das 8 da manhã às 8 da noite”, especificou o governante. 
Os esclarecimentos foram feitos por Adalberto Campos Fernandes, durante uma audição no Parlamento a pedido do PSD, que quis que ele esclarecesse uma afirmação feita há semanas. link Ao falar deste projecto-piloto, o governante terá dito que, “de segunda a sexta-feira, entre as 08h00 e as 20h00, os doentes não poderão ir à urgência a não ser através dos bombeiros, do INEM ou da Linha Saúde 24”. 
“Não passa pela cabeça de ninguém que se vá impedir o acesso aos serviços de urgência. É fácil fazer demagogia e criar alarme social”, ripostou o ministro, notando que o que se pretende é fazer "pedagogia" e, “pouco a pouco, alterar o paradigma nacional” que nos deixa à cabeça da lista dos países da OCDE onde a procura dos serviços de urgência é mais elevada. Como? “A ideia é investir na gestão dos percursos individuais de saúde. Significa criar condições, a prazo, para incentivar modelos de procura de cuidados diferentes, nunca restringindo nada a ninguém. Se [um utente] quiser entrar no estudo é sinalizado. É-lhe dito que passa a ter médico de família e outras respostas nos centros de saúde”, especificou aos jornalistas, no final da audição. 
A escolha do Norte para arrancar com este tipo de projecto compreende-se. Os utentes da região Norte têm uma cobertura muito elevada, quase 100%, de médicos de família, acrescentou. Se este projecto – que está a ser ultimado pela Coordenação do Programa de Literacia e Autocuidados liderada por Constantino Sakellarides – funcionar, pode valer a pena alargar e experiência ao resto do país, admitiu ainda o ministro. A avaliação do projecto vai ser feita em Outubro, altura em que um eventual alargamento pode ser decidido. …
Jornal Publico, Alexandra Campos, 17.02.17 link 
Finalmente alguém percebeu que os responsáveis pelas ditas falsas urgências hospitalares não são os doentes, mas o sistema. Com Centros de Saúde a funcionar das 8 às 8h e minimamente equipados para poder diagnosticar/tratar descompensações agudas de doenças crónicas, vai-se no bom caminho para resolver esta pecha do Serviço Nacional de Saúde. 
Tavisto