segunda-feira, julho 30

No país do Relvas

O ministro da Saúde, Paulo Macedo, já nomeou, por proposta da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) três novos directores executivos para presidir a agrupamentos de centros de saúde (Aces) sem qualquer formação na área da saúde, de acordo com os respectivos currículos publicados esta semana em Diário da República.
Ao que o PÚBLICO apurou, dos 12 nomes que o presidente da ARS-Norte, Castanheira Nunes, indicou, apenas dois são médicos, uma situação que levou já o Sindicato dos Médicos do Norte (SMN) a considerar o processo de nomeações “escandaloso”.
Mas a ARS-Norte garante que, dos 12, seis são da área da Saúde, incluindo os dois clínicos já citados. O Ministério da Saúde não comenta, mas no Parlamento. Paulo Macedo afirmou que as nomeações dos Aces são da responsabilidade das ARS.
As primeiras nomeações suscitaram de imediato comentários nas redes sociais e admite-se a eventualidade de muitos médicos virem a recusar exercer cargos de direcção clínica dos Aces neste contexto de nomeações de pessoas “cuja formação e experiência profi ssional na área da saúde é nula”.
Paulo Macedo nomeou Luís Filipe do Nascimento Teixeira, antigo chefe de gabinete da Câmara de Vila Pouca de Aguiar e actual presidente da direcção do Moto Clube do Corgo e Sport Clube de Vila Pouca, para presidir ao Aces do Alto Trás-os-Montes I — Alto Tâmega e Barroso. Voluntário na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e coordenador na organização de diversos eventos culturais/económicos, nomeadamente as Festas de Vila Pouca de Aguiar, Feira do Granito, Feira do Mel e Artesanato e Feira Gastronómica, Luís Filipe Teixeira licenciou-se em Direito pela Universidade Moderna. De Fevereiro de 2006 até agora trabalhou na empresa municipal Vitaguiar.
O futuro director executivo do Aces do Cávado II — Gerês-Cabreira é Jorge Manuel Oliveira Cruz, tem 58 anos, e entre 2001- 2009 foi secretário da presidência da Câmara de Barcelos, no mandato de Fernando Reis (PSD). Na década de 90 foi director comercial da Maquitrofa, Ld.ª, onde era responsável pelas compras e vendas desta empresa do sector têxtil. Em 1997 Jorge Oliveira Cruz foi tesoureiro do Centro de Bem-Estar Social de Barqueiros.
A terceira nomeação é a relativa ao Aces do Cávado III — Barcelos- Esposende, que vai ter como director executivo Francisco Félix Araújo Pereira. A escolha recai no até agora director financeiro do Mercado da Pedra, Comércio de Rochas Ornamentais, Ld.ª, desde 2011, onde é responsável pela área financeira, recursos humanos e compras. De acordo com o currículo, Francisco Félix foi administrador da Geo Future, Ld.ª (empresa informática, comunicação e imagem). No período de 2003-2009, “foi assessor de vereador”, tendo como “principais actividades: gestão económica e financeira, aprovisionamento, gestão do património, protecção civil, recursos humanos, modernização administrativa, trânsito e transportes”.
O novo director executivo foi consultor financeiro da Plastécnica, Ld.ª (indústria de reclamos luminosos), co-responsável pela concepção, instalação e coordenação do Festival Internacional de Filmes de Turismo, estagiou na Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e, no final da década de 90,“foi informático e administrativo” de uma empresa de cerâmica decorativa. Licenciado em Contabilidade com 13 valores pela Universidade Lusíada, Francisco Félix Araújo Pereira inscreveu-se em Outubro de 2010 em Gestão das Organizações, ramo de Gestão de Empresas no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave. Tendo em conta o perfi l dos escolhidos, o SMN fala de “nomeações sem qualifi cações”. A primeira nomeação de Paulo Macedo foi a de Luís Filipe Teixeira e, segundo o sindicato, “a nota curricular que a acompanha não necessita de qualquer comentário — fala por si e é elucidativa do estado de degradação e impunidade a que chegámos”. O comunicado do sindicato termina com uma interrogação: “Terá sido a presidência do Moto Clube do Corgo ou a coordenação das Festas de Vila Pouca de Aguiar que impressionaram o sr. presidente da ARS-Norte e o sr. ministro da Saúde?”

Margarida Gomes, JP 26.07.12


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4 Comments:

Blogger Observador said...

Eu gostaria de entender qual é a indignação por parte dos médicos e dos respectivos sindicatos.

Mas estas pessoas vão gerir ou vão prestar serviços clínicos?

Defendo e acho que cada especialista no seu ramo e acho que essas pessoas nomeadas, independentemente da sua média final de curso, não quer dizer que não tenham capacidades para o cargo que vão ocupar.

3:07 da tarde  
Blogger Tavisto said...

Tudo malta do aparelho laranja azulado. Muito cartaz colado, muito cargos de xaxa como frete partidário, licenciaturas nas privadas sabe-se lá deus como, são traços comuns dos nomeados.
O Relvado está a ficar demasiado pesado e entra mais água de cada vez que o governo toma uma qualquer medida. São cada vez mais os que percebem que é o Pais, não as eleições, que se lixa mais um pouco a cada dia desta governação.

4:19 da tarde  
Blogger DrFeelGood said...

Relatório da CMVM mostra que 17 administradores acumulavam, cada um, lugares de gestão em 30 ou mais empresas em 2010.

Os administradores executivos das sociedades cotadas a tempo inteiro acumulavam, em média, lugares de administração em 12 firmas de dentro e fora do grupo da sociedade onde exerciam funções. Os dados constam do Relatório Anual do Governo das Sociedades cotadas, relativo a 2010, divulgado hoje pela CMVM.

O regulador identificou também que 17 administradores acumulavam lugares de administração em pelo menos 30 empresas, tendo registado também um caso de um gestor, que não é identifica, que tinha lugar na administração de 73 empresas.

O relatório também revela que a idade média dos administradores executivos desceu para 52,7 anos no final de 2010, quase menos um ano que a idade média identificada em 2009 (53,6 anos).

Os mesmos dados mostram que o mundo da gestão nas grandes empresas continua a ser um universo de homens, visto que apenas 5,9% dos cargos de administração das sociedades cotadas eram exercidos por mulheres, em 2010, o equivalente a apenas 26 cargos em 440. Se tivermos em consideração apenas os membros executivos, a percentagem desce para apenas 4% do total e o relatório revela ainda que nenhuma mulher desempenhava as funções de presidente da Comissão Executiva em termos efectivos
DE 31.07.12link

10:40 da tarde  
Blogger josé tolda said...

Decreto-Lei n.º 28/2008 de 22 de Fevereiro
Estabelece o regime da criação, estruturação e funcionamento dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES).
SUBSECÇÃO I
Director executivo
Artigo 19.o
Designação
1 — O director executivo é designado pelo membro do Governo responsável pela área da saúde, sob proposta fundamentada do conselho directivo da respectiva ARS, I. P.
2 — O director executivo deve possuir licenciatura, constituindo critérios preferenciais de designação:
a) A competência demonstrada no exercício, durante pelo menos três anos, de funções de coordenação e gestão de equipa, e planeamento e organização, mormente na área da saúde;
b) A formação em administração ou gestão, preferen- cialmente na área da saúde.

10:41 da tarde  

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