quinta-feira, outubro 13

Manuel Delgado is back

Há mais de uma década que os Administradores Hospitalares Portugueses participam activamente na organização que congrega a maioria dos gestores hospitalares dos países europeus, a EAHM (european association of hospital managers).
Muitos desses gestores têm formação médica, outros são diplomados nas áreas de economia, de gestão ou das ciências sociais em geral e há um grupo crescente constituído por profissionais com formação em gestão de hospitais ou serviços afins.
É esta, por exemplo, a tradição da escola francesa que apenas admite em funções de gestão técnica intermédia ou de topo, profissionais diplomados pela escola de Rennes.
Há todavia um traço comum que a todos nos une: a dedicação a essa área muito específica da gestão, de forma intensa, permanente e disponível para aprender coisas novas, desenvolvermos o nosso conhecimento, acompanharmos as experiências uns dos outros e contribuirmos para melhorar a eficiência das organizações de saúde e o acesso dos doentes.
Ao longo destes anos tenho comentado com os nossos colegas europeus as diferentes situações vividas em Portugal, com ciclos políticos que vão alternando, num movimento pendular sincopado, ou o reconhecimento das competências específicas para a gestão hospitalar, ou o seu desprezo em benefício de gestores de “reconhecido mérito”, de fora da saúde, que meteoricamente atracam a este cais e logo partem sem deixar rasto.
E sempre vou ouvindo, nos períodos de maré baixa, palavras de conforto e de esperança quanto ao futuro, que valha a verdade, a seguir, tarde ou cedo se confirmam.
A situação portuguesa é neste caso, como eventualmente noutras, “sui generis”. Ao acumular, permanente e estável, de conhecimento dos profissionais, devidamente habilitados, prefere-se, muitas vezes, a ruptura, introduzindo-se o “sangue novo” do arrivismo, de pequenas ou grandes habilidades, de desconstrução.
Que provocam a instabilidade no governo dos serviços, geram a desconfiança nos profissionais de saúde e pioram o funcionamento das instituições. Há, naturalmente, excepções que apenas confirmam a regra.
Veja-se o que se passa lá fora, repare-se na continuidade e autonomia das condições de trabalho que são dadas aos gestores hospitalares e perceba-se os ganhos que isto trás para o funcionamento das instituições.
Em benefício dos doentes, naturalmente.
Manuel Delgado- editorial da revista gestão hospitalar- setembro 2005.

Finalmente o presidente da APAH, Manuel Delgado, "apareceu" através de um editorial oportuno publicado na revista "Gestão Hospitalar" de Setembro, pondo o dedo na ferida sobre o problema da instabilidade da gestão hospitalar, aferindo o que se passa entre nós, com as práticas utilizadas na maioria dos países europeus.
Para lá do brilho da análise, o editorial de Manuel Delgado veio sossegar o espírito da maioria dos associados da APAH que temiam pelo “desaparecimento” do seu líder.
Manuel Delgado foi meu professor na ENSP, integrando o célebre trio dos três mosqueteiros assistentes do professor Vasco Reis. Sempre reconheci nele duas grandes virtudes: competência e verticalidade.
Desde que Correia de Campos é ministro da saúde temos estranhado o comportamento do presidente da APAH, quedando-se nas covas, pouco interessado, talvez cansado, em acompanhar os problemas de fundo da nossa vida associativa.
Reconheço, depois da publicação deste editorial, que não soubemos dar tempo ao tempo. O Manuel Delgado que sempre conhecemos está de volta. Aí o temos a intervir acertada e oportunamente o que nos traz esperança renovada para os próximos combates em defesa da nossa profissão.

16 Comments:

Blogger joaopedro said...

O editorial do MD á primeira leitura merece-me os seguintes comentários:
- Que timing escolheu MD para ressuscitar?
- Em que maré estamos?
- Estará em desenvolvimento um processo de alteração da lei de gestão hospitalar ?
- O editorial do MD será o toque de partida do processo ?
- O editorial de MD será indício de que algo está a correr muito mal em relação à carreira dos AH ?
- De qualquer forma MD tomou uma posição sobre a carreira e as funções dos AH relativamente ao Ministro da Saúde.
É necessário estar muito atento aos próximos pasos de MD.

4:42 da tarde  
Blogger Vivóporto said...

Alguma ideias-chave a registar no modelo de gestão subentendida no Editorial (será esta minha interpretação abusiva?):

1ª diversidade de formações académicas de base complementadas com uma formação comum e específica em Gestão Hospitalar.

2ª aposta a todos os níveis da gestão hospitalar em diplomados em Administração Hospitalar;

3ª Formação em Gestão Hospitalar a efectuar na Escola Nacional de Saúde Pública;

4ª Vantagem num sistema que facilite a criação de condições para haver identidade social (espírito de grupo?), continuidade, disponibilidade, troca de ideias e de experiências assentes em pertenças comuns;

5ª Cessação do sistema de nomeações políticas, geradoras de instabilidade, arrivismo e desconstrução;

6ª autonomia de gestão;

7ª Primado do doente, como critério aferidor da bondade da gestão.


Estou de acordo com todas elas.

Há que glosar o tema.

6:04 da tarde  
Blogger Dezcartes said...

A parábola de uma gestão:falta de fundamento na gestão de recursos humanos SA.

A gestão de recursos humanos nos hospitais SA tem-se fundamentado na falácia segundo a qual, os «nossos» são bons, e os «outros» maus.
Neste pressuposto asistimos, ao longo dos últimos três anos, à entrada nos hospitais SA de recursos humanos (especialmente quadros superiores)e ao afastamento/emprateleiramento de profissionais que desempenhavam essas funções.
1.Um primeiro efeito se gerou na divisão/separação da massa humana hospitalar em: «os nossos», e « os outros»;
2.Na sequência desta divisão/separação verifica-se a atribuição de funções menores aos «outros», que têm permanecido nos hospitais em condições, muitas vezes, humilhantes tanto do ponto de vista pessoal como profissional;
3.Um outro efeito gerado tem a ver com o enriquecimento do currículo profissional dos «nossos» e o prejuízo claro da carreira profissional dos «outros»;
4.Aos «outros» têm sido dadas condições escassas(quer físicas, quer de informação) para o exercício da sua profissão.Aos «nossos» todas as condições são dadas e todos os acessos permitidos.

O irónico da parábola reside no facto de que, nem o processo de selecção e admissão dos «nossos», nem o emprateleiramento humilhante dos «outros» teve por base uma avaliação transparente e objectiva que permitisse sustentar as decisões tomadas e o comportamento tido!

7:22 da tarde  
Blogger tonitosa said...

Volto a insistir: um licenciado em LÍnguas e Literaturas Modernas com pós-graduação em AH's é, só por isso, mais "gestor hospitalar" do que um licenciado em Gestão?
Não creio. E se os AH's foram essencialmente os dirigentes e quadros intermédios dos nossos estabelecimentos de saúde, porque estamos no actual estado das coisas?
Repito e repetirei: Equipas multidisciplinares...concerteza. Monolitismo dos AH's é demasiada presunção da classe.
Que os AH's são capazes...concerteza (nem todos...) mas pensar que os outros não são capazes é próprio de quem precisa da muleta do lobby porque não se sente seguro.

8:15 da tarde  
Blogger lisboaearredores said...

Estou em desacordo com o ponto 3 do vivóporto, apenas por limitar o recurso a outras formações válidas que possam surgir nesta área (suponhamos que vinha alguém da escola francesa tão elogiada noutros posts, português para não haver outros obstáculos - deveria ser impedido de gerir hospitais em Portugal porque não passou pela ENSP?)

Também preferia que a identidade social (?) fosse criada pelo exercício da actividade e não pela formação nesta ou naquela escola.

Primado do doente - dificilmente se consegue à primeira vista discordar deste tipo de princípios, mas sejamos precisos sobre o que está contido nele - deve ser dado tudo o que for possível ao doente, independentemente dos custos que isso gerar? há limites ou não? E num contexto de recursos limitados, como gerir o primado do doente?

10:35 da tarde  
Blogger Pedro said...

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11:52 da tarde  
Blogger Pedro said...

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11:55 da tarde  
Blogger Pedro said...

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11:56 da tarde  
Blogger Pedro said...

Tal como uma Administradora Hospitalar portuguesa (diplomada com o Curso de AH pela ENSP, entenda-se) não pôde ser impedida de concorrer a um concurso de AH em França, por sentença do Tribunal de Justiça das CE, assim também um AH francês, diplomado pela ENSP de Rennes não pode ser impedido de concorrer a um hospital português. É a vantagem do reconhecimento mútuo de diplomas e de competências, condição sine qua non da liberdade de circulação de trabalhadores. Disse alguma asneira?
E com que critérios poderiam circular os nossos gestores hospitalares políticos? Seguramente com nenhuns porque ninguém os queria.É a diferença entre ter-se um título válido e credível e ter-se apenas o cartão do partido que lá fora nada valem.

11:56 da tarde  
Blogger tonitosa said...

Meu caro pedro
Você ainda não reparou que mesmo sendo AH, se não tiver o dito cartão do partido não arranja "um lugar" de Administrador/Gestor. Porque será que os AH's em lugares de destaque são todos importantes figuras do PS (antes do PSD). Então se assim é se os Administradores dos Hospitais devem ser da ENSP porque não devem sê-lo, também, os membros dos CA das ARS's?!

12:11 da manhã  
Blogger tonitosa said...

A gestão dos Hospitais sempre foi feita de cumplicidades e compadrios. Porque será que os clínicos nunca viram com bons olhos os AH's?
Qual era o papel do Administrador Delegado nos SPA's? Sabem, concerteza que se limitava a assinar papéis, a autorizar despesas (sem qualquer análise crítica e de custos de oportunidade), enfim o Adminstrdor Delegado não passava (e não passa) de um VERDADEIRO BUROCRATA no pior sentido do termo. Gestão? Nem pensar. O que interessa é ter ORÇAMENTO GORDO.

12:21 da manhã  
Blogger helena said...

Senhor Tonitosa,
Vát tirar o curso de Administração hospitalar.´Para tudo é preciso esforço.
Sou licenciada em engenharia.
Depois diplomei-me em administração hospitalar (dois anos em regime de exclusividade, só a gastar dinheiro).
Alguns anos depois tirei o pós graduação de avaliação económica do medicamento (+ um ano lectivo).

Enquanto o senhor tonitosa azedava.

12:47 da manhã  
Blogger tonitosa said...

Sra. Engª Helena
Eu não personifico a minha análise.
E nem sequer deixo de admitir, como já fiz neste blogg, que há gente muito competente independentemente da formação académica de base. Mas também conheço AH com formação em Engenharia que nem para Chefes de Secção os queria, a trabalhar comigo.
Já agora vou satisfazer um pouco a sua curiosidade: eu sou licenciado em Economia, (quando ainda não havia universidades particulares de qualidade duvidosa) tenho pós-graduação em Economia Europeia (UCP) e Mestrado (ISCTE). E também fui assitente universitário, veja lá!
Mas tenho ainda outra coisa: é que comecei a trabalhar aos 18 anos e tenho mais de 30 anos de dirigente na função pública. Não sou pois um dos tais da privada (felizmente) que acham que os Funcionários Públicos não sabem trabalhar!
Pelo que se verifica, não sei bem QUEM É QUE AZEDAVA.

10:52 da manhã  
Blogger helena said...

Parabéns pelo esforço.
Quando ao azedanço já compreendi que é da idade.

11:31 da manhã  
Blogger helena said...

Vamos ver se o MD vai continuar com intervenções como esta ou se pelo contrário mete a viola no saco e desaparece por mais alguns meses.
Penso que a nova lei de gestão hospitalar vai consagrar o princípio da autonomia da gestão intermédia (descentralização) liderada por administradores hospitalares.
CC não vai abrir mão da possibilidade de poder nomear os elementos dos Conselhos de Administração dos hospitais.
Por outro lado lembraram-sepor certo das dificuldades no tempo do 30/77 (?) em que o AH + antigo era por inerência elementodo CA, relacionada com os AH confundiam os problemas da gestão dos hospitais com a defesa dos interesses locais em prejuízo da unidade de comando e do prosseguimento deuma política de saúde nacional concertada.

5:27 da tarde  
Blogger Santa Maria said...

Após uma ausência de dois dias, não pude deixar de me surpreender com alguns comentários sobre a questão que levantei na passada quarta-feira sobre os logos de partidos políticos no SAUDESA!Não se trata de personalizar o problema.Não se trata de defender este ou aquele partido!!Se eu criasse um blog para discutir assuntos desta natureza nunca colocaria o símbolo do meu partido. A criação de rótulos onde não é suposto existirem afasta as pessoas das discussões: viva a pluralidade dos "afectos" e das opiniões. Não voltarei a tocar no assunto. Apenas um comentário ao editorial do Dr MD: Excelente artigo.Concordo que haja uma escola com formação específica em gestão hospitalar que permita o acesso à carreira de AH nos hospitais. Julgo que a questão central é garantir a qualidade desse ensino e garantir um sistema justo de admissão de pessoal. A formação ministrada na ENSP terá que ser revista. Eu sou ex-aluno e acho ridículo que seja ministrada uma pós-graduação em horário laboral, quatro dias por semana...à excepção dos cursos para desempregados é caso único no país!!Como é que se podem atrair futuros bons AH desta forma?
Concordo com o Tonitosa quando ele fala de "cumplicidades e compadrios" na gestão de pessoal dos Hospitais.Como é óbvio isso descredibiliza em muito a nossa classe! E isso é visível no meu hospital... Acima de tudo, trata-se de um problema de liderança, RESPONSABILIZAÇÃO e AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO.
Concordo com a formação multidisciplinar dos AH. O problema não está na sua formação (Gestores, Enfenheiros, Enfermeiros...). O problema está no seu recrutamento e avaliação na ENSP.

7:59 da tarde  

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