domingo, dezembro 11

Nas mãos de contabilistas

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«Mas a crise económica também altera hábitos de transporte, de alimentação e até de exercício fisico (mesmo que não seja desporto). Como a mortalidade em acidentes de viação e em acidentes de trabalho é uma das fontes de anos de vida potencial perdidos, a redução da circulação automóvel reduz os acidentes e melhora os indicadores gerais de saúde da população. Ou seja, se há um aumento de mortalidade associada com suicídios por um lado há uma redução de mortalidade associada com outras causas
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«implicação desta evidência internacional é a de ser mais importante pensar nas intervenções da política de saúde, dados os recursos disponíveis, do que pensar que haverá uma pressão muito elevada sobre os recursos a utilizar apenas por causa da crise. Estejamos atentos à crise, mas não a transformemos no bode expiatório da despesa em saúde.»
link
PPB, recessão e saúde
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Interessante esta espécie do pobrete mas alegrete (não fora o aumento da taxa de suicidios).
Alteração dos hábitos alimentares (não ter dinheiro para jantar fora com a família, beber uns copos com os amigos, encher o frigorífico de iguarias do pingo-doce): Corre-se menos risco de obesidade, colestrol, enfarte do miocárdio. Exercício fisico: Andar a pé por não ter dinheiro para a gasolina e transportes públicos faz bem à saúde. E baixa a taxa de mortalidade por acidentes de viacção (se excluirmos os atropelamentos nas passadeiras).

Será que, apesar da crise, cuja profundidade não se conhece, podemos estar confiantes que os indicadores de saúde no seu conjunto a curto/médio prazo não vão piorar (já será mau se não melhorarem)?

Quanto à pressão elevada sobre os recursos. Na Grécia aumentou significativamente o número de pessoas que dizem que nunca vão ao médico ou ao dentista. O diagnóstico de seropositivos subiu 52% entre 2010 e 2011.
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Que intervenções de política de saúde o nosso MS está a desenvolver para enfrentar os problemas resultantes da recessão profunda que Portugal atravessa ?
Será que os cortes a eito também fazem bem à saúde?

Como dizia Paulo Mendo numa recente entrevista: «O que eu disse foi que não classificava o ministro porque ele não tem objectivos de saúde, foi posto lá para tentar salvar o que é possível ainda salvar. Se ele tivesse objectivos de saúde podia classificá-lo, assim não posso, porque só sei que ele é muito bom em gestão. E a situação é catastrófica. Não temos nenhuma forma de fuga a esta situação. O mundo ocidental caiu nas mãos das casas de penhor. Em todo o mundo deixou de fazer-se política, estamos nas mãos dos contabilistas.»

drfeelgood

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5 Comments:

Blogger e-pá! said...

De certo modo, trata-se um exercício à volta da escolástica aquiniana que - entre outras coisas - afirmava: “é perigoso possuir as coisas do mundo”...
Ou seja, o caminho de regresso à “Aurea Mediocritas”

6:58 da tarde  
Blogger Tavisto said...

Há coisas que não mudam e o ataque às gerações futuras é uma delas. Em Portugal, os governos surpreendem sempre pela criatividade e desfaçatez e os cidadãos pelo conformismo. Já tinha escrito sobre a matéria recentemente, mas tenho de voltar ao tema porque o ataque aos futuros pensionistas prossegue a um ritmo que acabará por trazer a desgraça mais rápido do que se pensava.
Como quem manda é a troika e a troika não quer saber do futuro, o ministro das Finanças vai derrotando, um a um, os restantes ministros até que eles percebam que, nas actuais circunstâncias, estão equiparados a gestores de insolvência. O que me incomoda é que os seis mil milhões de euros que a banca entregou ao Estado, e que deveriam servir para pagar as reformas de milhares de bancários, desapareceram num abrir e fechar de olhos. A maioria para tapar buracos e pagar dívidas. Perante este assalto, estranho que nem o ministro da Segurança Social se incomode, nem o líder da oposição tenha uma palavra a dizer. E os senhores de Bruxelas, que tanto rigor exigem nas cimeiras, pactuam afinal com uma aldrabice em que aceitam uma receita extraordinária sem terem em conta os encargos futuros.
Retomo o que escrevi há dois meses: "Mais cedo que tarde, vão dizer-nos que o nosso sistema de Segurança Social já não é sustentável e explicar-nos que, por mais descontos que tenhamos feito, o Estado não poderá dar-nos mais do que um rendimento mínimo." Nessa altura, vão tentar convencer-nos de que o sistema de Segurança Social que construímos era irrealista, que fazíamos vida de ricos, sendo pobres. Os governantes que nas últimas décadas desbarataram fundos de pensões, nacionalizados para pagar erros de governação, estarão a assobiar para o lado.
No meio desta desgraça que se abate sobre as futuras gerações de pensionistas, temos o primeiro-ministro a falar de um excedente de dois mil milhões de euros e o líder da oposição a encher-se de razão porque, afinal, havia uma almofada. Nem um nem outro se dão conta de que nos estão a empobrecer para todo o sempre. Ficar mais pobre agora para pagar erros do passado e preparar o futuro é aceitável, mas não podemos aceitar que estejam a utilizar o dinheiro que lhes confiámos, para nos devolverem na velhice, sem sequer nos darem uma explicação.
Na situação de emergência que vivemos, tudo se passa na maior das tranquilidades. É até possível ouvir o ministro Vítor Gaspar dizer que esta operação é "actuarialmente equilibrada". O cálculo actuarial é usado para determinar o risco dos seguros e das finanças e, se o ministro fez as contas, deveríamos ficar descansados. Mas eu não fico, porque ele não vai estar lá para responder quando eu for pensionista e pedir a devolução do dinheiro que lhes confiei. Adeus reforma.
PAULO BALDAIA
DN 11/12/2011

Estamos na mão dos contabilistas e, acrescentaria dos maus políticos. Esta notícia evidencia a ligeireza com que Passos Coelho e José Seguro trataram de uma matéria que interessa a todos nós e que pode implicar mudanças radicais no futuro dos futuros pensionistas.
Um vê no esbulho do fundo de pensões dos bancários uma folga orçamental, o outro uma almofada financeira, ignorando (ou distraindo-nos) as pesadas consequências para o sistema de pensões da Segurança Social e, por certo também, da Caixa Geral de Aposentações.
Mas terá esta medida consequências nas estatísticas da Saúde? Possivelmente não desde que asseguremos uma pensão mínima à maioria dos reformados. Viverão mais infelizes é certo, mas talvez durem mais anos ao privarem-se dos excessos consentidos por uma bolsa mais recheada.

7:16 da tarde  
Blogger Clara said...

O post do PPB está bem esgalhado.
Parece-me, no entanto, estarmos perante a mãe de todas as crises. Um mergulhar abrupto no desconhecido e que não há estudos realizados que nos valham para podermos avaliar o impacto futuro da crise que vivemos na Saúde.
Esta política de recessão sem fim à vista está a conduzir-nos a níveis de probeza inimagináveis.
Por outro lado, os portugueses além da crise vêem-se confrontados com um Governo de lunáticos que quer aproveitar a situação para atacar o estado social e pôr em prática a sua politica de liberal social.

O Governo, como refere PPB, deve promover a criação de indicadores capazes de acompanhar, medir o impacto da crise na Saúde (e não só).

10:24 da tarde  
Blogger DrFeelGood said...

A ilustração (crisis) é do Gerd Antz.

12:37 da manhã  
Blogger e-pá! said...

Públicas (e notórias) contradições, aleijões ideológicos e sistemas (esquemas?)

"O nosso objectivo, portanto, é que o seu efeito moderador possa ser reforçado, e que aqueles que nesta ocasião têm mais disponibilidade possam realmente dar um contributo maior para o financiamento também do sistema de saúde "...

Mais à frente, tentando compor ramalhete:

"Ressalvando que o executivo sabe que "a missão das taxas moderadoras não é financiar o sistema nacional de saúde", Passos Coelho defendeu que é "importante, para não pôr em causa justamente a qualidade dos serviços prestados, que estas taxas sejam actualizadas". link

Um contributo para o financiamento não é financiar. Deve ser, na aleijada concepção neo-liberal, um retrógado fantasma de resquícios socializantes que teimam em bloquear a acção deste Governo.

Diz o povo: "É Mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo". Neste caso, trata-se de um coxo, mentiroso.
Realmente, para quem ainda tinha dúvidas sobre este assunto fica agora a certeza de que este 1º. ministro não tem a mínima noção do que é o SNS.
Já agora chamemos os bois pelo nome: o que, por enquanto, ainda sobrevive é um serviço (nacional) e não um sistema!

2:39 da tarde  

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