Saúde, alteração de modelo
João Semedo: Não
considero excessivo o peso do Estado na Saúde, nem em termos absolutos nem na
comparação com os outros países da União Europeia. O Serviço Nacional de Saúde
(SNS) dispõe de uma rede equilibrada, onde ainda é mais o que falta do que
aquilo que pode ser dispensável. Reduzir a despesa é possível se apostarmos na
promoção da saúde e prevenção da doença, sendo que há margem para ganhos de
gestão.
Miguel Gouveia: Há uma série de consolidações a fazer, por
exemplo fechar unidades em Lisboa para compensar a abertura do Hospital de
Loures. O caso de Lisboa é apenas o mais chocante. O facto de continuarem a
funcionar os três hospitais do Médio Tejo é outro exemplo...
JN: Até onde deve o Estado reduzir o seu peso
na saúde? Admite que nesse propósito o Estado reduza o leque dos serviços
prestados? Quais?
João Semedo:
Recuso qualquer amputação no direito à Saúde, seja no acesso, nos cuidados
prestados ou na sua qualidade. O racionamento, a exclusão de tratamentos ou
medicamentos apenas porque são caros, é desumano e inaceitável. Recuso um país
em que a saúde se transforme num privilégio apenas disponível para aqueles que
o podem pagar.
Miguel Gouveia: Parece-me que haverá algumas intervenções de
saúde que têm uma má relação entre custos e benefícios. Estas intervenções
deveriam ser reequacionadas para ver se têm alguma outra característica
"redentora", caso contrário deveriam ser desencorajadas. Estou a
falar de alguns tipo de cirurgia, mas outros tratamentos podem estar em causa.
Na prática, uma depuração do leque de serviços terá de ser feita por um esforço
conjunto de profissionais de saúde usando as regras da medicina baseada na
evidência e alguma racionalidade económica.
JN: Acha que os utentes poderiam ganhar (na
relação do que pagam e do que recebem) com a transferência de responsabilidades
do sector público para o privado?
João Semedo : Não
há qualquer evidência que a gestão e exploração privada traga qualquer
mais-valia. O 'outsourcing' é um dos principais responsáveis pelo crescimento
da despesa inútil no SNS. A substituição do sistema actual - SNS pago por todos
e ao serviço de todos - por um sistema centrado nas seguradoras ou em
prestadores privados, significaria uma saúde a duas velocidades: uma para quem
a pode pagar e outra para quem não disponha de recursos suficientes. O Estado
não teria recursos para garantir a sustentabilidade do SNS.
Miguel Gouveia: De uma forma simplista temos de considerar o
financiamento e pagamento de um lado e a prestação por outro. Mudarmos para ter
mais responsabilidades em financiamento/pagamento é polémico, embora
pessoalmente eu seja a favor de políticas desse tipo. Já o facto de haver mais
responsabilidades do sector privado na produção me parece mais pacífico, desde
que isso seja feito com evidência de haver ganhos de eficiência globais.
JN: Será este o melhor momento para se repensar
o modelo do sistema de saúde português?
João Semedo: Sabe-se que situações de grande fragilidade
social potenciam a doença e dificultam o acesso aos cuidados de saúde,
atingindo sobretudo os mais pobres e excluídos. É preciso não conhecer o país
ou não ter um pingo de sensibilidade social para escolher este delicado momento
para desarticular o SNS e a sua base universal e geral.
Miguel Gouveia: Em teoria poderíamos pensar que a crise é uma
oportunidade demasiado boa para se perder. Na prática parece-me observar que as
emoções das pessoas estão no rubro, como mostraram todos os disparates feitos a
propósito do parecer do Conselho de Ética. Tendo em conta este clima mental,
será difícil que boas reformas possam emergir nas circunstâncias actuais.
Jornal de Negócios
04 Novembro 2012
Etiquetas: Ataque ao SNS, Crise e politica de saúde
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