domingo, março 4

Mortes por acréscimo?...

A mortalidade aumentou em Portugal nas últimas semanas, muito por culpa do gripe e do frio. Só na última semana morreram mais de três mil pessoas, de acordo com dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), citados pela TSF. link
Antes do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) começar a colher os dados epidemiológicos destes anómalos exitus letalis as primeiras insinuações: gripe e frio.

Na verdade, uma explicação simplista. Todos os anos é comum existirem surtos gripais (a DGS até aconselha a vacinação aos maiores de 65 anos) e no nosso hemisfério é normal fazer frio no Inverno…
Previamente à investigação do Instituto Ricardo Jorge seria possível espiolhar outras culpas que provavelmente os utentes do SNS gostariam de ver contempladas.

Vamos enumerar um "decálogo" para abrir hostilidades:

1.) Os casos em estudo referem-se a indivíduos vacinados (contra a gripe sazonal?)

2.) Trata-se de indivíduos sem (ou com reduzida) autonomia funcional que perderam apoio nos transportes de rotina aos serviços de saúde (consultas/urgências/MCTD)?

3.) De acordo com os meios electrónicos de prescrição será possível apurar as patologias principais e acessórias e se o grupo em estudo adquiriu a totalidade dos medicamentos prescritos ou optou por “amputações” do receituário por carências económicas?

4.) Caracterização das situações económico-social e cultural deste conjunto de pessoas falecidas?

5.) Qual o tipo de ambiente familiar, nomeadamente, em apoios sociais, convivialidade e actividades funcionais, climatização desfrutados por estes idosos?

6.) Percentagens de idosos que viviam no domicílio, em lares, em unidades de cuidados continuados ou na situação de sem abrigo?

7.) Qual a taxa de suicídios entre este grupo em análise?

8.) Os falecidos encontravam-se na situação de pensionistas (ou aposentados) ou mantinham actividade funcional regular?

9.) Os idosos faleceram no domicílio, em instituições de solidariedade social ou em serviços de urgência?

10) Qual a percentagem deste grupo que beneficiava de apoio médico, de enfermagem ou psicológico em programa domiciliário regular?

Por aqui poderá andar escondido um bom indicador da qualidade dos serviços médicos e sociais na actual situação de crise, cujos cortes são sempre efectuados "sem prejuízo da qualidade das prestações e sem alterar a acessibilidade"...

É que, muito embora, as drásticas medidas de austeridade tenham começado a ser aplicadas há poucos meses, em pessoas frágeis, os efeitos podem ser quase imediatos. É possível estragar em meses o que demorou 30 anos a ser construído. Basta não ter sensibilidade social. O resto vem por acréscimo…

e-pá!

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12 Comments:

Blogger Olinda said...

Estas sao verdadeiramente as questoes que importa colocar. Perturbadoras e incomodas mas, sobretudo, certeiras. Pena seja que os liberais de pacotilha não as entendam. Não esta no seu código genético. Cercados pelo muro da sua arrogante ignorância vivem apenas uma obsessão: o ódio primário a tudo que tenha que ver com proteção social.
Tratam o sistema de saúde com olímpica irresponsabilidade convencidos de estar imbuídos de uma histórica missão de expurgo patriótico da herança recebida. Tarde demais perceberão a tragédia dos erros que estão a cometer. Pobre pais, pobres pessoas, pobre sistema de saúde. Trinta anos depois vemos uma construção de gerações ser desmantelada por um grupo de curiosos e exoticos tecnocratas mal arrumados na vida que não conseguem perceber o mundo quanto mais as pessoas.

11:17 da tarde  
Blogger Maria Eduarda Runa said...

Muito bem observado essencialmente o que consta no ponto três.
Acrescentaría apenas a seguinte questão: a direcção geral de saúde não tem certa responsabilidade neste cenário ?
Não era suposto este organismo (mais um, entre tantos) implementar medidas prévias para evitar cenários como este ?
Mandar afixar uns posters nos centros de saúde e hospitais,emitir umas circulares, etc. etc, não chega. As pessoas merecem mais.

7:47 da tarde  
Blogger tambemquero said...

Nos últimos dias, o Instituto de Saúde Ricardo Jorge registou um novo pico de mortalidade, com um número de mortos superior ao normal nesta altura do ano.
Há quatro semanas que Portugal regista uma taxa de mortalidade superior à registada nos últimos três anos, mas a situação tem vindo a agravar-se. Só na semana de 20 a 26 de fevereiro registaram-se 3.080 mortos.

As principais vítimas são idosos com mais de 75 anos. O frio e a circulação de agentes infeciosos respiratórios poderão ser causas desta situação. link

10:19 da manhã  
Blogger tambemquero said...

O pneumologista Agostinho Marques afirma à Antena1 que o número elevado de mortos que se tem registado nas últimas semanas resulta do pico de gripe e da crise.

O diretor da Faculdade de Medicina do Porto observa que a falta de dinheiro terá levado muitos idosos a não ligar os aquecedores e não terão resistido ao frio.

Agostinho Marques afirma ainda que há muitos portugueses que não estão protegidos contra a gripe, porque não tomaram a vacina.

Há quatro semanas que Portugal regista uma taxa de mortalidade superior à registada nos últimos três anos, mas a situação tem vindo a agravar-se. Só na semana de 20 a 26 de fevereiro registaram-se 3.080 mortos. As principais vítimas são idosos com mais de 75 anos. link

10:25 da manhã  
Blogger DrFeelGood said...

Em duas semanas apenas, morreram 6110 pessoas em Portugal, pelo menos mais um milhar do que era esperado para esta altura do ano. Os responsáveis da Direcção-Geral da Saúde (DGS) continuam a atribuir este elevado número de mortes ao período de frio extremo, em conjugação com a ocorrência tardia da epidemia de gripe, mas adiantam que está igualmente a ser estudada uma eventual influência de pequenas alterações observadas na estirpe do vírus da gripe que este ano é predominante, a A (H3N3), que afecta sobretudo os mais idosos e que provoca habitualmente um excesso de mortalidade.

Especialistas como o ex-director-geral da Saúde e professor da Escola Nacional de Saúde Pública Constantino Sakellarides e o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge Santos, vieram ontem a público defender, porém, que os efeitos da crise económica e do aumento das taxas moderadoras devem também ser levados em linha de conta na análise deste fenómeno. "O facto de as pessoas viverem com mais dificuldades", sentidas no acesso "aos medicamentos e à saúde", e de terem a "electricidade mais cara", são "hipóteses plausíveis" para explicar os anormais picos de mortalidade verificados nas últimas semanas, admitiu Constantino Sakellarides, em declarações à TSF.

Além do frio e da gripe, que provocam sempre um aumento da mortalidade no Inverno, a manter-se esta tendência, há outros factores que devem ser investigados, como a "perda de rendimento das famílias e o aumento brutal das taxas moderadoras", defendeu Mário Jorge Neves. "Conheço pessoas que deixaram de ir ao hospital, de comprar medicamentos e de fazer alguns exames complementares de diagnóstico por causa das taxas moderadoras", descreveu.

É preciso ver se as pessoas se estão a vacinar mais ou menos, se retardaram a ida ao médico e se pioraram a sua alimentação, recomenda também Vítor Faustino, coordenador do GripeNet, um sistema de monitorização da actividade gripal. "A gripe mata, mas não pode ser a única explicação. Temos de olhar para todos os lados, não descurar nada, como um detective", afirma o investigador, que lembra que noutros países europeus e nos Estados Unidos não se estão a observar tendências semelhantes. E nos EUA esta foi a gripe mais tardia dos últimos 29 anos.
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JP 03.03.12

10:41 da manhã  
Blogger DrFeelGood said...

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"São declarações precipitadas", contrapõe o director-geral da Saúde, Francisco George. "Este perfil de mortalidade e de curva epidémica [da gripe] já se registou em anos anteriores, nomeadamente em 2008/2009", ano em que também predominou o A (H3N2), frisa. "Este excesso de mortalidade é da mesma magnitude do observado em 2008/2009", quando houve cerca de 1900 óbitos acima do que era esperado, reforça Baltazar Nunes, bioestatista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), o laboratório nacional de referência da gripe. Recuando mais no tempo, em 1998/99 o excesso de mortalidade foi ainda mais expressivo (8500 óbitos acima do habitual).

O pico de mortalidade começou a ser observado a partir da semana cinco, no final de Janeiro, e tem vindo a crescer desde então. Mas foi na semanas sete e oito (entre 13 e 19 e entre 20 e a 26 de Fevereiro) que se acentuou, com um total de 3030 e 3080 mortes, respectivamente. Estes picos são coincidentes "com um período de frio e uma epidemia de gripe que neste momento está em fase ascendente", diz Baltazar Nunes. O especialista admite que "neste momento todas as hipóteses são passíveis de ser estudadas", até porque só será possível chegar a conclusões depois de desagregadas as causas de morte, mas considera que relacionar o que está a acontecer com a crise é, por enquanto, "muito especulativo".

"É o padrão da actividade gripal do A (H3). Já em 2008 tive de explicar que não se passava nada de anormal, o que é invulgar é que agora se está a assistir em directo [a este fenómeno]", assegura também Paulo Nogueira, especialista em estatística na DGS
Quanto às pequenas alterações que estão a ser observadas no vírus A (H3N2), também ainda é cedo para adiantar conclusões. "Parece haver uma alteração muito ligeira, que está a ser estudada em vários países", explica Isabel Falcão, da DGS. Destaca que este fenómeno não é raro, mas necessita de ser estudado "em profundidade". É o que está acontecer neste momento, até porque está a ser preparada a vacina para o próximo Outono.

JP 03.03.12

Pico de mortes e desemprego.
Que mais desgraças nos reservará este Governo!...

10:42 da manhã  
Blogger Clara said...

A morte saiu à rua

O ministro da saúde entra a partir de agora em contato com a dura realidade da prestação de cuidados.

Para quem parecia entender que isto da Saúde com a nomeação de uns grupos de trabalho, a publicação de resmas de decretos e portarias, cortes e mais cortes ia ao sítio, deve ter sido um duro golpe.

10:57 da manhã  
Blogger saudepe said...

E Francisco Ramos explicitou: «Se por um lado há evidência de que a crise está a afectar negativamente a nossa saúde, também aparece na Imprensa que a crise também tem alguns benefícios: “Se as pessoas não têm dinheiro para andar de automóvel andam a pé, se não têm dinheiro para comer reduz-se a obesidade”».

«Entramos num caminho muito perigoso de hipocrisia na relação entre crise e saúde».

Para o ex-secretário de Estado da Saúde, o principal problema da crise económica em que vivemos é a questão da equidade. «E o que este fenómeno vai provocar em termos de saúde é exactamente um aumento das desigualdades». E as desigualdades acentuam-se «particularmente quando falamos de doenças raras», pois, «aquilo que estamos habituados a aceitar como critérios evidentes, em regra excluem precisamente este tipo de doenças», avisou.

TM 05.03.12

1:35 da tarde  
Blogger Tavisto said...

Lembram-se dum Verão passado, particularmente quente, em que as autoridades sanitárias francesas alertaram para o risco que corriam os idosos face ao aumento de óbitos registados naquele País em resultado do calor excessivo?
Era então ministro da saúde Luís Filipe Pereira que, questionado sobre o assunto, disse que por cá estava tudo bem que as autoridades nacionais nada de anormal tinham assinalado. Avançou mesmo com um número ridículo de mortes tendo o calor excessivo como causa provável. Não me lembro ao certo quantos eram, recordo apenas ser um número inferior ao de bombeiros vítimas de incêndio naquele ano.
Fiquem pois cientes de uma coisa, golpes de calor, desidratações, gripes e outras minudências só deitam abaixo povos piegas. O povo Luso aguenta isso e muito mais, quando morre é mesmo porque tinha de morrer – Estava na hora!

1:41 da tarde  
Blogger helena said...

O que mudou então, este ano?

- Talvez tenha mudado o acesso aos serviços de urgência, cada vez mais distante dos que precisam e mais inacessível economicamente.

- Talvez tenha mudado a forma como as pessoas podem dispor das suas parcas reformas, tal como já se noticiou aqui antes, os médicos queixam-se de que estão a aparecer muitas pessoas que não se medicam para doenças crónicas e graves, tais como problemas derivados da diabetes, tensão alta, problemas de coagulação, pois não tem dinheiro para os medicamentos, e obviamente isto somado a uma simples gripe torna-se fatal.

- Talvez as pessoas idosas, muitas vezes incapazes de conduzir ou sustentar um carro, tenham ouvido na televisão que as ambulâncias chegam a custar 250 euros num transporte até ao hospital, e preferem esperar em casa por melhoras... mas morrem.

- Talvez as pessoas de uma forma geral e visível a todos, tenham perdido muita da sua capacidade económica para empreender uma luta contra a doença... Para quê pagar uma ambulância se depois não tenho dinheiro para as consultas? Para quê pagar consultas se depois não tenho dinheiro para os exames? Ou para medicamentos? E desistem...

- Talvez a usura da EDP não deixe margem para pagar aquecimento.
Óbvio que tais misérias humanas, jamais serão publicadas ou sondadas. As estatísticas tal como o governo, a justiça ou a saúde servem interesses que em nada convergem com os do cidadão.

(in não votem mais neles, pensem)

1:53 da tarde  
Blogger helena said...

O ex-director-geral da Saúde Constantino Sakellarides declarou que a crise económica pode ser responsável pelo aumento do número de mortes das últimas semanas. “O facto de as pessoas viverem com mais dificuldades são hipóteses plausíveis” para o anormal pico de mortalidade, referiu.

Membro integrante do Observatório Português de Sistemas de Saúde, Sakellarides destaca que o facto de “a electricidade estar mais cara, haver mais dificuldade em aquecer as casas, haver mais dificuldade em ter acesso aos medicamentos e saúde” pode estar relacionado com as mortes em excesso.

Em declarações à TSF, Sakellarides refere ainda um estudo “publicado muito recentemente que revela que a população portuguesa é na Europa aquela que tem mais dificuldades em manter a casa quente”.link

1:57 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Há um dado (empirico) inquietante.

A tomar em consideração uma alta incidência de gripes ou de afecções respiratórias seria "normal" que a prevalência destas situações prevalecessem em instalações comunitárias para idososos (lares, asilos, unidades de cuidados continuados, etc.).
Ao que parece, numa primeira bordagem, as mortes têm incidido no ambiente domiciliário (mais protegidas de infecções nosocomais).

4:43 da tarde  

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