domingo, junho 20

José Saramago

"Com José Saramago, desaparece não apenas um grande escritor português, mas sobretudo um enorme escritor universal . Fica connosco um universo: esse que Saramago criou, feito de uma visão subversiva da História e dos seus protagonistas, dos mitos estabelecidos e das imagens estereotipadas”. (Carlos Reis) link

- "Pensar, pensar"
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- "Death Takes a Holiday"
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- "José Saramago, R.I.P."
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- "José Saramago, Nobel-Winning Novelist, Dies at 87"
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- "Nobel laureate José Saramago dies, aged 87"
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- "New ways of seeing"
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- "Este mundo da injustiça Globalizada" link
- Amigos e leitores lêem excertos dos seus livros link

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13 Comments:

Blogger AM said...

Até sempre Ser Amargo Ser Um Mago Ser Amar Saramago.

Aqui na Terra a fome continua...

1:48 da manhã  
Blogger Clara said...

Caro JS, escolheste uma péssima altura para nos deixar.
Lá de cima tenta, peço-te, dar uma ajudinha a estas criaturas miniatura empenhadas em aplicar o PEC da Saúde.

7:23 da tarde  
Blogger Tavisto said...

Os homens grandes não são conformistas e, por isso mesmo, não geram indiferença. Assim sucedeu com Saramago.
Bateu-se pelas suas ideias, comunista até à morte, sem deixar de criticar abertamente os erros cometidos em nome da ideologia que professava ou discordar do partido em que militava, sempre que a consciência lho exigia.
Morreu um dos maiores escritores de todos os tempos, morreu o homem, sobrevive-lhe a obra literária, o carácter e a memória colectiva.

12:05 da manhã  
Blogger DrFeelGood said...

Para lá do campo das artes e da cultura, o génio de José Saramago é exemplo da capacidade em criar riqueza através da criação de produtos objecto de aceitação, (comercialização) à escala planetária.

1:01 da manhã  
Blogger tambemquero said...

...
José Saramago morreu. Inicia-se o seu segundo combate ou uma nova fase do seu combate de há muito: a luta pelo reconhecimento pleno da sua obra. A luta pela conquista e fidelização de leitores, pela leitura e releitura dos seus livros. Mas não só dos seus, e sim pela leitura dos grandes do passado ou dos seus contemporâneos: Camões, O padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo e Eça, Jorge de Sena ou Rodrigues Miguéis, numa lista incompleta. Portugal é um país em que historicamente se acumularam atrasos culturais e uma enorme fragilidade das suas instituições culturais. Isso explica em parte que a morte de um escritor seja muitas vezes a sua entrada num limbo da memória, num período de descaso e de esquecimento. O Nobel que ganhou é em relação a esse comportamento do futuro uma protecção simbólica, é certo, mas não suficiente por si só. Um pouco por todo o mundo (não estou a exagerar) foi lido e amado por leitores que, em tempos de derrota e de solidão, reconheceram nele um dos seus, alguém que ocupava o mesmo campo social à escala planetária. Esse facto foi caricaturado por alguns, que atribuíram o seu sucesso a uma “conspiração internacional” de comunistas ou cripto-comunistas.
Agora que morreu, nós temos responsabilidades acrescidas nesse combate. E não é preciso “conspiração” nenhuma. Basta cuidar do nosso património literário e artístico. Ele permaneceu fiel à longa e denegada “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin). Nós que nessa tradição temos vindo, sabemos que a memória é uma condição do desejo de futuro; sabemos que o cuidar da memória integra o longo trabalho da emancipação. Eu sei que há quem deteste palavras como estas – memória, futuro, trabalho, emancipação – , mas que hei-de fazer, ó boas almas, é que ele era um dos nossos.

Manuel Gusmão

2:03 da manhã  
Blogger tambemquero said...

Saramago é um escritor que se conquistou a si mesmo, que encontrou a sua maneira em pleno percurso. Que fez o seu caminho, caminhando. A fase da sua obra que vai produzir essa maneira que muitos reconhecem como a marca da sua assinatura, vai de 1977, ano fecundo da narrativa em português, em que publica Manual de Pintura e Caligrafia, a 1981, ano em que sai a 1º edição da sua Viagem a Portugal. Entre esses dois anos e esses dois livros, Saramago publicara Objecto quase (1978), “O ouvido” integrado na obra colectiva Poética dos Cinco Sentidos (1979), Levantado do chão (1980) e duas peças de teatro – A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980). Se é com Memorial do Convento (1982) que o seu êxito se torna uma evidência, inclusivamente à escala internacional é nessa fase (1977-1981) assistimos à descoberta e invenção do fundamental do dispositivo narrativo que o vai acompanhar ao longo da obra. Manual de Pintura e Caligrafia é na ficção, uma meditação sobre os problemas da representação; a dissociação entre representação e semelhança, preparando assim a desenvoltura na construção dos mundos narrativos na obra posterior. A Viagem a Portugal dá conta da espessura significativa da radicação no território pátrio da ficção de Saramago. Em Levantado do Chão, surge a famosa frase em que várias personagens, inclusivamente o narrador, podem falar; essa frase que é assim dita em diálogo, mostrando essa admirável evidência da socialidade da linguagem. Este romance dispõe já da construção de uma figura de narrador marcado pela “auralidade”, de uma frase articulada por um nítido ritmo sintáctico. E sobretudo começa a funcionar um princípio narrativo que parte de uma negativa ou negação imposta a uma história já contada pelos vencedores ou de qualquer fora por uma historiografia oficial. Essa negatividade marca a relação entre ficção e história no que se poderia considerar a primeira fase da nova maneira de Saramago. Nela conta-se sempre de outra maneira algo que já foi contado, designadamente porque se conta algo que nunca mereceu ser narrado, nomeadamente a história dos servos e dos que transportam a pedra e constroem Mafra. Assim é em Memorial do Convento, Em O ano da morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Com A jangada de Pedra anuncia-se o que virá a ser um outro dispositivo narrativo, característico de uma segunda fase da maneira “Saramago” que se afirmará inicialmente em Ensaio sobre a Cegueira e Todos os nomes e continuará depois. A este novo dispositivo chamarei de alegoria do presente.

Manuel Gusmão

2:03 da manhã  
Blogger helena said...

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças, desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte, relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros, cercados de bastões e fortalezas, hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

José Saramago, a pré-anunciar o 25 de Abril de 1974

12:20 da tarde  
Blogger tambemquero said...

Cavaco Silva, em Julho de 2008, interrompeu as suas férias para fazer uma comunicação ao país sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. Pela voz de um dos seus assessores soubemos «que só uma razão verdadeiramente importante levaria o Presidente a interromper as suas férias».

Cavaco Silva, em Junho de 2010, não interrompe as suas férias para assistir e representar o Estado português no funeral de José Saramago.

A animosidade entre ambos é conhecida: António Sousa Lara, subsecretário da cultura do então Primeiro Ministro Cavaco Silva decidiu, em 1992, e com o apoio deste, afastar «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» de um prémio literário europeu. A justificação foi clara: «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e «o livro não representa Portugal nem os portugueses».

Não é por medo do confronto que Cavaco Silva não vem ao funeral de José Saramago. Cavaco é destemido, caso contrário não passaria férias numa região cujo estatuto político-administrativo vetou reiteradamente e que até pôs fim à famigerada cooperação estratégica entre São Bento e Belém.

Cavaco Silva não interrompe as férias porque a sua mediocridade e tacanhez não têm limites.

Andrea Peniche

1:19 da tarde  
Blogger cotovia said...

O oportunismo do presidente da república, Aníbal Cavaco Silva.

Depois de aprovar a lei do casamento gay, CS decidiu não estar presente na cerimónia funebre de José Saramago.
Uma no cravo outra na ferradura na caça ao voto.

1:37 da tarde  
Blogger e-pá! said...

cotovia:

Para já nenhuma no cravo - é o que vê!

10:00 da tarde  
Blogger DrFeelGood said...

O selvagem ataque do Osservatore Romano a José Saramago, no dia seguinte à sua morte, mostra que o Vaticano continua a ter uma leitura puramente ideológica da literatura, esquecendo que Saramago, independentemente das suas ideias e convicções, é o grande escritor que é pela qualidade da sua escrita, pela mestria da sua linguagem e pela sua criatividade ficcional. E mostra igualmente que o Vaticano continua tão intolerante com os não crentes como sempre foi, como se o humanismo fosse um monopólio religioso. Não podendo já mandá-los para a fogueira da Inquisição, não poupa porém no ódio nem no rancor.
Se o Vaticano julga que desse modo pode apoucar postumamente o escritor, engana-se. Pelo contrário, há ataques que engrandecem.

vital moreira, causa nossa

12:10 da manhã  
Blogger DrFeelGood said...

Em todas as épocas há sempre muitos escritores que publicam, vendem livros e são lidos. Poucos são porém os que depois passam o teste do tempo. Pela qualidade, densidade, criatividade e densidade humanística da sua extensa obra, José Saramago estará seguramente entre eles, tendo um merecido lugar assegurado na história da nossa literatura. Depois de Pessoa, ninguém como ele deixa uma marca tão profunda na literatura portuguesa.
Adeus, José.

vital moreira, causa nossa

12:13 da manhã  
Blogger cotovia said...

Caro e-pá,

Casamento gay (desagrado à direita)
Ausência, funeral de Saramago (agrado à direita).

Mas a propósito deixo-lhe este delicioso texto do DE:

A relação de Cavaco Silva com casamentos e funerais está a tornar-se o maior empecilho à sua reeleição. O casamento entre homossexuais e o funeral do único Nobel da Literatura português revelaram inesperadas zonas cinzentas do Presidente da República. Compreende-se, certamente, o incómodo do católico Cavaco como casamento entre homossexuais – mas, estranha-se, na sua posição, o compromisso entre o calculismo político e os princípios. Tal como se compreende a sua embirração coma figura e comas convicções de José Saramago – e, sobretudo, como que o
escritor pensava do político. Mas, tambémaqui, o equilíbrio entre as
emoções e as obrigações da primeira figura do Estado deixaram a desejar.
Senhor Presidente, permita-nos, pois, um conselho humilde: repense a sua relação com os casamentos e os funerais. E vá rezando para que até às eleições não apareça, por aí, um convite para um qualquer baptizado…

12:30 da manhã  

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