terça-feira, fevereiro 26

Avaliação e objectivos dos HHs do SNS



Para além de a avaliação ser imposição legal, a amplidão de poderes que competem aos CA dos HH, sobretudo nos HH-EPE, justifica plenamente não só que o seu desempenho seja avaliado como também que por eles se inicie o processo de avaliação. Além disso, porque a formulação de objectivos só se compreende se for feita em cascata, do topo para a base, o processo de avaliação teria mesmo de iniciar-se pelos CA.
A avaliação é, no fundo, a medição dos resultados no confronto com os objectivos da instituição, porque é a esse nível que se situa a responsabilidade dos CA. Debrucemo-nos então sobre os objectivos do Hospital.

1. Os grandes objectivos do hospital público
Será consensual afirmar que os grandes objectivos dos hospitais públicos, entre eles os HH-EPE, são os seguintes:
A melhoria geral do acesso e da equidade aos cuidados básicos e especializados de saúde por parte das populações das áreas abrangidas;
A melhoria da qualidade dos serviços prestados, em termos de qualidade e de padrões de atendimento e acolhimento, bem como da sua necessária humanização;
Garantir a manutenção de padrões actualizados de funcionamento, de acordo com uma lógica de investimento racional e capaz de introduzir as inovações infraestruturais e técnicas necessárias;
A adopção de um modelo de gestão empresarial eficiente e eficaz, orientado pelos objectivos precedentes e sustentável com os recursos mobilizáveis.
Estes objectivos, já de si sinteticamente enunciados, podem ainda resumir-se:
Porque é um hospital público, é para benefício dos seus utentes, actuais e futuros, que tudo deve organizar-se e é no seu interesse que tudo deve fazer-se: os utentes são os verdadeiros proprietários e beneficiários do hospital;
O interesse dos beneficiários consiste em obter a satisfação das suas necessidades – actuais ou futuras – ao menor custo que não afecte a satisfação obtida.

Sintetizando ao máximo, devemos dizer – e tudo fica dito! – que é o interesse dos beneficiários que deve definir, governar e dirigir o Hospital. O compromisso de lealdade e fidelidade para com os beneficiários impõe-se e rege a todos os níveis.
É destes postulados fundamentais, que não carecem de demonstração por serem evidentes, que deriva o conjunto de princípios e objectivos com os quais devem conformar-se e alinhar-se todas as decisões respeitantes ao Hospital, quer incidam na sua organização quer no seu funcionamento, sob pena de constituírem desvio de poder por não dimanarem do interesse dos seus beneficiários.
Não obstante toda a clareza, e até evidência, destes princípios básicos, não causará surpresa a afirmação de que os hospitais – e, em geral, as organizações – tendem para a entropia, esquecendo que não existem para si mesmos e que é em vez dos beneficiários e em sua representação que as decisões devem ser tomadas e toda a acção deve ser desenvolvida. Só pelo seu alinhamento e conformidade com estes princípios é que deve avaliar-se a bondade das soluções e das performances atingidas, quer ao nível da instituição quer pelos seus profissionais.

2. As responsabilidades do C.A.
Para cumprir o mandato recebido dos beneficiários, agindo em sua vez e em sua representação, o órgão de topo do Hospital deverá assumir várias responsabilidades:
Formular os fins do Hospital, a sua visão e objectivos chave e garantir que as estratégias da administração estão com eles alinhadas;
Assegurar altos níveis de performance executiva;
Assegurar que o Hospital presta cuidados de alta qualidade;
Assegurar a saúde financeira e a sustentabilidade do Hospital;
Assegurar a sua própria efectividade, eficiência e capacidade de inovar.
Para o conseguir, o órgão de topo tem de desempenhar três papéis:
Formular a política;
Decidir, escolhendo entre alternativas;
Supervisionar: monitorizar e avaliar os processos organizacionais chave, monitorizar os resultados, e avaliar a política de comunicação e informação.

2.1 - Formular a política, Decidir, optando entre alternativas
A formulação da política e a escolha entre alternativas estão intimamente ligadas com a formulação dos objectivos do Hospital e com o seu quadro de valores fundamentais.
Objectivos essenciais“core purposes” – são os que traduzem a razão de ser do Hospital:
- No seu melhor, por que existe o Hospital?
- Em que poderia ser diferente do que ele é agora? O que deverá ser?
O que não deverá ser? O que deve ser como é?
- O que mais deverá fazer no interesse dos seus beneficiários e para ir de
Encontro às necessidades e expectativas destes?
- Que tipo de consumidores deve o Hospital servir? Quais os que não estão a ser
servidos? Quais devem ser evitados?
- Que tipo de serviços deve o Hospital prestar?
Os valores fundamentais“core values” – são as normas e regras pelas quais o Hospital deve bater-se e que o Hospital deve actuar para atingir os seus objectivos:
- Que princípios devem guiar a decisão e a acção?
- Qual o comportamento na relação com beneficiários, entidades reguladoras,
clientes, compradores, parceiros, competidores, médicos e outros
profissionais?
- Que imposições e que proibições têm de ser respeitadas?
- Que valores definem o coração e a alma do Hospital? Por que regras deve
ele viver?
A resposta a estas questões, ou seja, o enunciado do que é e deve continuar a ser o Hospital, no seu melhor, já no presente e no curto prazo, por referência aos seus objectivos e quadro de valores, corresponde à Missão da Organização;
Quando projectamos esse enunciado para o futuro, estamos a fixar a ambição do Hospital, clarificamos os objectivos essenciais a atingir no médio/longo prazo, expressamos a Visão do Hospital. Numa organização tão complexa como o Hospital e tão marcada por apertada interdependência das suas partes componentes, os objectivos a atingir são naturalmente exigentes e só possíveis através de esforços conjugados nas diversas áreas implicadas pelas mudanças necessárias, as quais não raro exigem acções ou reorganização de recursos que não são possíveis no decurso de um só ano. Por isso uma boa definição da visão, partilhada, envolvente, dinamizadora e motivadora para a acção tem capital importância no seio da organização.

2.2 - Supervisionar: monitorar e avaliar os processos chave, monitorar os resultados
No entanto, se formular a estratégia e tomar as decisões inerentes são aspectos da maior importância a que o órgão de topo não pode furtar-se, idêntica importância tem de ser atribuída a um terceiro papel: a supervisão. Esta actividade incide sobre os processos organizacionais chave que devem ser monitorizados e avaliados, sobre os resultados atingidos comparativamente aos esperados e sobre os processos de comunicação interna e externa que devem ser considerados, como na verdade são, essenciais para a aceitação do Hospital, e da sua política de compromisso e participação nos objectivos.
Com base nesta actividade de supervisão de processos e de resultados o órgão de topo fica posicionado para decidir as correcções ou ajustamentos que se revelem necessários, designadamente actualizando a visão ou mesmo a missão do Hospital.

3 - A Missão e os Valores da Instituição
3.1 - Visão
A visão do Hospital passa, dentro do nível a que pertencer, pela afirmação da qualidade e humanização dos seus cuidados, prestados em tempo oportuno e a um custo razoável para a comunidade que serve, assim como pela qualidade e eficiência da sua participação no ensino, de acordo com o seu estatuto. Ambicionará ser reconhecido por ser socialmente responsável, garantir excelência em todas as actividades por ele desenvolvidas e oferecer um ambiente de trabalho que propicia o desenvolvimento integral das pessoas.
A responsabilidade social do Hospital traduzir-se-á em:
Colaboração na promoção da saúde, e articulação de cuidados com as restantes áreas;
Cumprimento integral da legislação vigente sobre cuidados, respeitante à repartição de atribuições e responsabilidades, e dos demais normativos legais aplicáveis ao trabalho;
Responsabilidade ambiental exemplar;
Garantia de segurança para doentes e profissionais, a promover por adequada gestão do risco clínico e não clínico.
A excelência de actividades há-de transparecer:
Na qualidade de cuidados e intervenções;
Na eficiência de cuidados a um custo razoável para a comunidade;
Na prestação dos cuidados em tempo oportuno;
No esforço constante para a melhoria contínua em tudo o que faz.
A excelência de resultados significará:
Eficácia e resultados na saúde;
Satisfação de doentes e outros clientes;
Satisfação dos profissionais;
Eficiência e sustentabilidade.

3.2 - Missão
A Missão do Hospital há-de referir o seu contributo para a melhoria da saúde da população da sua área através de cuidados diferenciados prestados com qualidade, humanização e eficiência, coordenando a sua intervenção com as restantes entidades, nomeadamente hospitais, com os cuidados primários e continuados. Além da colaboração activa que lhe couber no ensino pré e pós-graduado e na investigação em saúde.

4 - Princípios e Valores
O Hospital deve adoptar na sua organização interna como princípios e valores fundamentais:
O primado do doente, que não poderá ser posto em causa por quaisquer outros interesses, sejam da Organização (considerações de custo/eficiência) sejam do pessoal (interesses corporativos) ou de qualquer outra entidade;
O primado do tratamento do Doente sobre o tratamento das doenças, sendo promovido através da concentração de recursos e competências;
A procura sistemática da melhoria contínua de qualidade com vista a eliminar progressivamente erros e omissões e a aumentar a satisfação dos utentes e dos profissionais;
A humanização das relações com clientes, profissionais e fornecedores;
A colaboração e coordenação com os restantes hospitais, serviços e instituições de saúde, a começar pelas da sua área de influência;
O empenho na investigação e no ensino clínico como processo e garantia de promover e expandir a cultura institucional que coloca o doente no centro do sistema;
A evidência, o método científico e o trabalho de grupo como instrumentos de melhoria e desenvolvimento das pessoas e dos processos.

5 – O modelo de comunicação
Visando a concretização destes objectivos fundamentais, o modelo do Hospital deverá considerar a particular importância de:
Definir e implementar um modelo eficiente de comunicação interna e externa, considerando os diversos públicos do Hospital, orientado pelos seguintes objectivos:
-Promover a compreensão e a adesão da população servida, dos Doentes, dos outros clientes (Centros de Saúde, Hospitais, Cuidados Continuados, Autarquias, etc.) aos princípios básicos, enquadradores do funcionamento do Hospital;
- Garantir que todos os colaboradores do Hospital se identificam com os seus grandes objectivos e têm a percepção forte de que a sua participação na concretização daqueles constitui a melhor via para os colaboradores atingirem níveis elevados de satisfação pessoal e profissional;
Concretizar e desenvolver a colaboração necessária com as áreas dos cuidados primários e dos cuidados continuados, fomentando o diálogo sistemático entre profissionais e o estabelecimento de protocolos conjuntos;
Gerir correctamente os recursos facultados – entre os quais os mais relevantes são os recursos humanos – de forma a garantir ao Utente do Hospital o acesso fácil aos cuidados hospitalares e um atendimento a custos controlados, personalizado e solícito antes do internamento, no internamento e no apoio após a alta do Hospital, a mesma solicitude devendo ser dispensada no acesso às restantes áreas.
Estes princípios e valores fundamentais hão-de traduzir-se em:
1º. Serviço do doente,
2º. Excelência em tudo o que faz (qualidade e eficiência),
3º. Respeito e correcção no relacionamento,
4º. Valor para a comunidade,
5º. Inovação para melhorar os serviços e os resultados,
6º. Responsabilidade por tudo o que faz.

Para a tradução prática destes valores e princípios será necessário um esforço substancial de aculturação inicial, logo no recrutamento, seguindo-se formação e difusão intensa de informação, incluindo exemplos de “boas práticas” (promoção da distribuição de informação e de clima de abertura em todo o hospital). Deverá seguir-se a demonstração da ligação de comportamentos e actuações à avaliação e às suas consequências (promoção, reconhecimento e recompensas), a promoção de responsáveis em que se reconheça comportamento exemplar nos valores e princípios acima enumerados, a tradução em objectivos e programas (sempre que possível) e a monitorização periódica de resultados.
A aposta deve ser feita na difusão da estratégia definida, de forma a conseguir que, em toda a instituição e a todos os seus níveis, perpasse a mesma cultura institucional e o mesmo empenho e uma actuação sistematizada para os grandes objectivos da instituição. Estes princípios e valores devem servir de guia de actuação e de inspiração quer para a gestão, nos diversos níveis, quer para os profissionais do hospital. Deverão facilitar a emergência de cultura de:
Decisões baseadas em elementos objectivos;
Trabalho em função das necessidades do doente,
Cooperação, responsabilidade e rigor no uso dos meios,
Melhoria contínua de tudo, em todos os locais do hospital,
Respeito e procura de desenvolvimento das pessoas.
Aidenós
Legislação:
- decreto-lei n.º 71/2007- estatuto do gestor público (EGP)
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- despacho n.º 3596/2008-Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, E. P. E.
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21 Comments:

Blogger e-pá! said...

Caro aidenos:

A leitura do seu artigo fez-me lembrar a cartilha de João de Deus.

É de facto uma ladainha que começa por definir os objectivos do HH Público, como se amanhã fosse lançada a 1ª. pedra da primeira instituição deste novo tipo redimindo as tragédias e os dislates que os doente vêm sofrendo desde os Hospícios, Trapiches e Gafarias da Idade Média.
Finalmente, devo declarar-lhe que, praticamente, pela primeira vez tive dificuldade em compreender o seu texto. Muitas vezes tivemos posições divergentes. Mas desta vez fiquei na dúvida se este texto mesmo era algum tratado do tipo escolástico, quiça um projecto semiótico, ou se, por mero acaso, teria alguma afinidade com um País da New "West Coast" europeia - vulgo: Portugal.

É também a "morte" dos mesários, resquícios desse passado longinquo e obsoleto, que se encontravam aos domingos, ridiculamente vestidos com uma opa vermelha, mal adaptada oa esqueleto. Nasceram os AH´s e os gestores.
Esta é uma natividade oportuna.

Arruma de uma penada com a co-participação interna - com o entrosamento polivalente - de uma instituição tão eclética e utilitária, como é um HH.

A partir daqui os HH´s deixam de ter vida própria e são a extensão dos CA's. Embora, seguindo por essa via, possam ficar reduzidos a meras instalações hoteleiras.

Nos HH's públicos, embora se façam solene promessas ao redor do doente, existe "mesmo", porque existe um CA.
Ao fim de tantos anos de HH's públicos foi necessário criar a avaliação destas instituições para lhes transmitir uma razão de vida, uns objectivos, a sua missão e, entre os mais sagrados deveres, a carta dos direitos do doente, sendo a implementação da maioridade dos doentes definida na Carta de Otawa (1996).
O CA passa a ser o transportador, o carrrier e o garante dos grandes objectivos do SNS.
Ele, não é o HH, mas o CA.

Tanto as "core values" como os "core pruposes" são um brilhante exercício de liberdade individual, da responsabilidade e da subjetividade do ser humano, do tipo existencialista. Somente aqui se ententede que a existência precede a essência.

"Para cumprir o mandato recebido dos beneficiários"... Eufemismo político, enternecedor, que supõe importantes alterações da nomeação dos CA. De facto, andamos cá na Terra sempre tristes...esquecendo que temos uma missão quase redentora.

Para final um remate anarco-sindicalista: é o interesse dos beneficiários que deve definir, governar e dirigir o Hospital.
Não haverá mais directivas, não haverá mais circulares informativas, não haverá mais intromissões - só o interesse dos beneficiários que passará a ser aferido pelos interesses da população - utentes ou se quisermos potenciais bebeficiários .

Isto é, o CA será o barometro que recolherá o "estado" sanitário regional, ou em extremo, nacional.

Não será mais necessário um MS. Melhor será reduzir essa excrescência a uma subsecretaria de Estado do Min. da Segurança Social, que garanta os vencimentos desta prole de benfeitores, capitaneados por AH's e Gestores, capazes de criarem as condições objectivas para todos os profissionais de saúde tratarem os doentes (...finalmente acertaram).

Ninguém percebeu como se formará uma legião de prestadores aptos para o exercício de tão nobre missão que se supõe delegada de modo clarividente e perpétuo pelo poder político.
É o andar com o carro à frente dos bois, mas o que interessa é estar no terreno.
Vamos definir o acto de gestão ou administrativo antes de definir o acto médico. Em termos de ursupação de funções e competências é, simplesmente, brilhante e uma magnificiente "jogada de antecipação".
Talvez pelo sagrado dever de supervisão.

Sempre é melhor que o chicote.

Apostiha:
O estatuto de gestão hospitalar - na sua multiplicidade de valores, saberes e desempenhos - deve ser discutido no seio das instituições e passa pela definição prática e pela confrontação da liderança em todo o processo de curar. É a "guerra" pela liderança de bem curar, com os meios e as condições indispensáveis.
Esse é o objectivo último do Hospital. Seja público , social ou privado.

Finalmente, toda esta questão levanta um problema de oportunidade - que não de oportonismo.
Esta situação fez-me lembrar a "guerra da Secessão" americana e do grande homem que soube interpretar esse magno problema - Abraham Lincoln.
Perante as dificuldades em se afirmar perante um País dividido teve a hombridade e a sensibilidade de afirmar:
"Ninguém é suficientemente competente para governar outra pessoa sem o seu consentimento".

4:36 da manhã  
Blogger tambemquero said...

No fundo, os senhores da Sedes não percebem que nenhuma "crise social" (que fazem eles senão descrever sem grande originalidade a que neste momento vivemos?) põe em perigo o suave arranjo da política portuguesa, enquanto Portugal pertencer à "Europa": e os partidos sabem isso muito bem. O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.

VPV, JP 23.02.08

2:45 da tarde  
Blogger aidenós said...

Caro É-Pá:

Várias vezes alguns têm discordado do que digo, com vantagem para mim que, não sendo, obviamente, dono da verdade, tenho a oportunidade de aprender com as discordâncias, quando expressas e fundamentadas.

Não entender o que escrevo, nunca ninguém mo tinha dito, mas alguma vez havia de ser, apesar do esforço que ponho para que tal não aconteça. Tocou-lhe ao É-Pá (“pela primeira vez tive dificuldade em compreender o seu texto”). Como não explicita onde estiveram as dificuldades, o mais que posso fazer é pedir que me desculpe. No entanto, se é como diz, tem mais sorte do que eu que várias vezes não tenho conseguido entender os seus textos, como lhe tenho dito.
O seu comentário, na linha das suas anteriores intervenções sobre avaliação dos CA, é mais um exemplo disto mesmo. Acredite que ainda não consegui entender como é que uma medida como a avaliação dos CA lhe merece tanta oposição! Por quê? Não será o É-Pá capaz de o dizer frontalmente, sem derivações, mas por palavras de sentido inequívoco que todos possamos entender?

Compreendo que ser avaliado é sempre uma prestação de contas, mas não é também a primeira coisa a que tem de submeter-se quem aceita um mandato? Muito mais se a selecção se faz pelos critérios que o É-Pá refere? Esta não é uma das razões para que devam existir parâmetros e medidas objectivas, previamente divulgados, para balizar a avaliação (parâmetros e medidas para cuja definição foi nomeada pelo SES a Comissão)? Uma avaliação negativa não comportará também uma censura ao acerto da nomeação? A forma discricionária como alguns CA exercem os seus poderes, a manutenção de profissionais com provas dadas “na prateleira”, sem qualquer justificação aparente, não merecem ser avaliadas? Se assim é, por que se lhe opõe com tanto empenho o É-Pá? Aqui nem podem invocar-se interesses da grande corporação: médicos estão em todos os CA, mas nunca estão sós, normalmente estão também um enfermeiro e, sempre ou quase sempre, um AH.

O É-Pá pode, evidentemente, classificar o meu texto como entender, mas não tenha dúvida de que foi escrito na perspectiva do que, em minha opinião, deve ser e não a pensar em semelhanças ou afinidades com as nossas realidades actuais.

11:03 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Caro aidenos:

OS CEGOS E OS ELEFANTES

Em plena savana, uns cegos que, nunca tinham visto um elefante, tinham dificuldade em entender como era esse animal.
Como cada vez existiam menos elefantes tal ignorância não parecia grave.
Certo dia passou por lá um elefante, e os cegos foram levados para "ver" e “conhecer” o bicho.
Estes invisuais tinham diferente estaturas.
O cego mais baixo, pegou a perna do elefante e foi dizendo: "Este bicho é como um tronco, redondo, roliço, áspero."
Um outro, muito alto, passou a mão pelo lado do animal e protestou: "O elefante é como um muro alto e rugoso, difícil de ultrapassar."
O terceiro, de postura intermédia, pegou a tromba e concluiu:
"Parece uma serpente!"
Voltaram discordando e sem se entenderem...continuando sem saber o que era um elefante, apesar de terem tocado.

O que se conclui dessa historieta é:
- tocar não chega;
- conhecer uma parte, não permite tirar conclusões.
- mais vale ser mudo do que cego (toda a gente prefere ver o mundo com os olhos do que ser obrigado a descrevê-lo ou a comprometer-se).

E é exactamente isso que a maioria dos economistas, gestores e políticos fazem, quando discutem OS PROBLEMAS DA SAÚDE EM QUALQUER PARTE DO MUNDO.
Agarram-se a uma parte e acantonam-se neste castelo, cercado de ameias e de armas de arremesso . Perdem-se as perspectivas de soluções globais e integradoras.

É interessante verificar como num ápice se passou de uma “Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE’s”, para um arrasador, exaustivo e fracturante, trabalho de fundo, sobre :
“AVALIAÇÃO E OBJECTIVOS DOS HH’S DO SNS “.
Que sejamos honestos, só muito esporadicamente, ou circunstancialmente, um CA é um conhecedor dos objectivos do SNS, enquanto estrutura nacional que funciona como um dos mais importantes e, ainda, sólidos, pilares sociais. Pior será se lhes forem colocados problemas de evolução estratégica.

A gestão hospitalar, entretanto, estende a sua acção com uma “estratégia da aranha”: pretende açambarcar a qualidade dos cuidados prestados, a eficiência da prestação de cuidados e o financiamento das organizações de saúde. Três pilares fundamentais. Reclama que dá muito importância à “governação clínica” mas acto súbito retira-lhe todos os instrumentos e meios. A estratégia da aranha é isto: deixa-os pousar, depois ficam entorpecidos e são devorados pelo aracnídeo emboscado no centro da teia. O problema é que claudicam em três outras questões:
1.) No conhecimento do trabalho hospitalar;
2.) Na definição da produção hospitalar;
3.) Na sua medição objectiva (há números publicados que fazem sorrir o mais crédulo clínico)
4.) E, na avaliação do desempenho hospitalar (que só pode ser objectiva, idónea e válida quando feita por pares).


A avaliação dos HH’s, do desempenho penso eu, mas também da sua gestão é um assunto “fashion”. Tanto em Portugal como no âmbito internacional.
Em Portugal são os “rankings” que fazem rir a grande maioria dos profissionais de Saúde portugueses.
Mas a moda não se consigna ao rectângulo ibérico. Nos EUA proliferam anualmente, certamente por razões de promoção e de marketing, mas existem; “The Best Hospitals” “One Hundred Top Hospitals”, etc.
Finalmente, esta questão salta para fora destas questões lúdicas. Embora o Xavier não goste que eu vá buscar a avaliação com contratos-programas, na verdade, já houve tentativas de lá chegar. Existiram algumas experiências de avaliação da actividade dos hospitais realizadas no âmbito das Agências de Contratualização dos Serviços de Saúde, referentes a 2002 e 2003. Não será necessário recordar-lhe.

Aliás a Lei de Gestão Hospitalar - Lei n.º 27/2002 de 8 de Novembro, no seu anexo sobre o Regime jurídico da gestão hospitalar no seu Artigo 5.º define os “Princípios específicos da gestão hospitalar”. Estão aí princípios que chegam e sobram.
O que se foi verificando – como por exemplo no caso do controlo de assiduidade por métodos biométricos – foi a aberrante violação do artº. 10, alínea e) do refrido Anexo (Lei n.º 27/2002 de 8 de Novembro, onde se diz:
“e) Articulação das funções essenciais da prestação de cuidados e de gestão de recursos em torno dos directores de departamento e de serviço, sendo-lhes reconhecido, sem prejuízo das competências dos órgãos de administração, autonomia na organização do trabalho e os correspondentes poderes de direcção e disciplinar sobre todo o pessoal que integra o seu departamento ou serviço, independentemente da sua carreira ou categoria profissional, com a salvaguarda das competências técnica e científica atribuídas por lei a cada profissão;”

Não vale a pena adiantar mais. A “Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE”, visa alargar competências do CA e por arrastamento dos AH’s e gestores, dentro dos HH’s.
Quanto mais complexos se tornam os HH’s em termos de desempenhos, produção e respostas mais pessoal oriundo dos gabinete de estudos, deseja interferir.
A Comissão de estudo parece que vai arrancar. Mas muita água deverá correr debaixo da ponte Vasco da Gama.
O reforço das posições dos AH’s e gestores, que parece inerente à “velocidade” exigida para consagrar novos poderes nos HH’s. Francisco Ramos quis andar derpressa e de modo expedito.
Neste momento as relações de força do seio do MS não me parecem favoráveis. A qualquer tipo de reforço de posições. O momento será de procura de novos equilíbrios e de novas partilhas. Este arremedo legislativo parece-me ser um resquício de CC, portanto, extemporâneo.
A Lei 27/2002 de 8 Novembro, para já, serve.

Deixam de fora os grandes conteúdos programáticos.

1.) Escondem-se, por debaixo do tapete, nos anfiteatros da gestão e da administração e nos centros de decisão, coisas tão importantes como:

A) “CLINICAL GOVERNANCE”:
a.1) - como instrumento indispensável da gestão;
a.2) - como aferidor da qualidade dos serviços clínicos;
a.3) – como balança decisora acerca dos riscos clínicos;
a.4) - como base de estudo dos “case-mix” e, novamente, dos riscos;
a.5) - o registo (informático ou manual) dos resultados em função do risco
a.6) – a capacidade de realizar auditorias cientificamente idóneas;
a.7) – como lidar com o erro diagnóstico (impressibilidade dos actos médicos);
a.8) – como identificar o erro terapêutico e as iatrogenias;

B) GESTÃO MÉDICA CORRENTE:

Ficam de fora muitos parâmetros, tais como:
1.) lidar com resultados medíocres ou mesmo maus;
2.) idenfificar os erros;
3.) avaliar a “performance” colectiva (benchmarking)
4.) dissecar a performance individual;
5.) Detectar eventuais “desdios”;
6.) Apreender a lidar com as queixas (gabinete do Utente)

C) GESTÃO MÉDICA ESPECÍFICA:

1.) introduzir conceitos custo-benefício
2.) implementar a medicina baseada na evidência
3.) activar protocolos de acção clínica e terapêutica (guidelines)
4.) gerir os recursos técnicos e humanos adequadamente.
5.) uma boa gestão de recursos (não é, nunca foi, o controlo apertado e rígido do tipo biométrico);
6.) planificar o trabalho, dividir tarefas e definir estratégias por Unidades Funcionais;

D) LOGÍSITICA:

1.) sistemas de informação de fácil manuseio e consulta e inteligíveis;
2.) sistemas de transportes acesíveis;
3.) acesso automático aos serviços farmacêuticos hospitalares;
4.) apoio hoteleiro e de restauração.

E) OUTROS:

1.) avaliar periodicamente o grau de satisfação dos utentes;
2.) avaliar semestralmente a motivação dos trabalhadores;
3.) incentivar o envolvimento, segundo as suas competências, de todos os profissionais ( nomeadamente da Enfermagem, TCDT e auxiliares);
4.) incentivar o ensino, a formação e a investigação;
5.) Criar incentivos remuneratórios (éticos, equitativos e com largo espectro de distribuição);
6.) cuidar da imagem externa e no seio da instituição do serviço ou das Unidades;

Agora, falar em avaliação da gestão, começando pelo topo e, como uma correia de transmissão, fazê-las chegar às Unidades Funcionais é construir uma casa pelo telhado.
Todos, ou pelo menos muitos andamos nisto há muitos anos.
Conhecemos muitas declarações de princípios. Desde o Juramento de Hipócrates, até às novas formulas, como:
1. Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial – 1948
2 Texto de Brighton, U.S.A. - 1995
3. Texto do Código de Deontologia Médica da França - 1995
4. British Medical Association - 1997 ,
etc.

Há uma panóplia de defesa de princípios dos direitos dos doentes velhos como o caminhar dos tempos que, para meu espanto, são o cerne do “código de gestão” dos CA.
De facto médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde que desde 1968 trabalham no sentido de desenvolver os cuidados primários de Saúde (Alma-Ata), posteriormente em Otawa, não têm de receber lições de neo-gestores ou de AH’s que, nessa altura, estavam em amniótica incubação.
Haja Deus!

As minhas grandes preocupações onde actualmente (e residualmente ainda me movo), como um médico que tem uma perna dentro e outra a sair do SNS (por aposentação) são as seguintes:

1. alto nível de competência profissional;
2. capacidade de entender e integrar os avanços científicos;
3. manter um empenhamento crítico e um questionamento sistemático na aplicação clínica de novas tecnologias;
4. assumir os erros com humildade e ter a modéstia de declarar o desconhecimento de muitas áreas da medicina.
5. Evitar, por todos os meios, os conflitos de interesses.

De resto, a Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE. – tudo bem!

O inusitado aproveitamento para um lunático “alargamento” protagonizado no texto do “aidenos” sobre o tema:
“AVALIAÇÃO E OBJECTIVOS DOS HH’s NO SNS”. NÂO!

"Nota-se claramente que o é-pá não está dentro dos assuntos de gestão, o que não admira…
Com certeza."

Só que não me considero “trengo” (como se diz no Norte).

ESTA IMPORTANTE DISCUSSÃO NÃO CABE DENTRO DESTE ÂMBITO (COMISSÃO PARA O ESTUDO DOS CA DAS EPE'S).

É UM QUESTÃO MAIOR, MAS NÃO NECESSARIAMENTE A MISTURA DA AVALIAÇÃO COM OBJECTIVOS.
O INVERSO PODERÁ SER MAIS ADEQUADO, MAIS VEROSÍMEL!
EMBORA, TAMBÉM, NÃO SATISFATÓRIO.

caro aidenos:
o que não entendo são os cegos e os mudos.
E muito menos entendo, quando parecem acumular!
De resto, fora o posicionamento da "clinical gouvernace", tudo bem!

11:31 da tarde  
Blogger tonitosa said...

É conhecida a minha pouca apetência para teorizar sobre temas da saúde neste blogue.
Já tudo foi dito e já tudo foi escrito sobre o SNS (seja ele um Sistema ou um Serviço) e a necessidade da sua reorganização com vista a torná-lo mais eficaz, mais eficiente e mais acessível (ou não?).
Prefiro abordar a prática a discorrer sobre a teoria (ou teorias).
E neste caso a prática em matéria de avaliação leva-me a dizer o seguinte:

O despacho do SE F.R. parece algo estranho. Por um lado diz que o MS tem vindo a desenvolver um modelo de avaliação..., por outro diz que importa testar e afinar esse modelo com vista à sua aplicação aos HH EPE's e para tal nomeia uma Comissão. Mais uma Comissão.
E mais um contrato (inevitável) com uma Universidade.
Enfim, com gente competente é sempre um dinheiro bem gasto(?)

Mas este Despacho não deixa de me levar a colocar a seguinte questão: sendo as nomeações dos CA por períodos de três anos, estas avaliações permitirão interromper os mandatos ao fim do 1º ou do 2º anos dos mandatos? E sobrepôem-se às opções políticas do Ministro da Saúde e à sua livre escolha dos "boys"?

Num seu comentário disse o Xavier:
"Vamos acompanhar com especial empenho esta matéria, pois a avaliação do gestores afigura-se-me uma medida da máxima importância. Pois garante, através da publicitação e do prémio, que irá haver motivação no sistema para introduzir melhorias profundas nos hospitais, para benefício dos doentes e dos trabalhadores mas também dos contribuintes, que com os mesmos impostos aspiram a ter mais e melhores serviços. Por outro lado as nomeações de favor, chamemos-lhe assim, devem ficar mais difíceis pelo menos porque se introduz mais risco para os incompetentes e adeptos de desbaratar os dinheiros públicos."

A esperança é a última a morrer...mas eu não sou Homem de tanta fé como o Xavier!

E estou mais em crer que daqui a mais algum tempo o Xavier continuará a poder afirmar:
"Todos conhecemos os critérios que têm sido utilizados, até hoje, nas nomeações dos gestores para os CAs dos HHs.
Anos houve em que tive colegas que, no mesmo ano, foram objecto de três nomeações para Conselhos de Administração. Sem perfil, sem experiência, sem avaliação. Por serem amigos deste e daquele. Por pertencerem a esta e aquela agremiação ou partido.
Uma vergonha.".

Uma vergonha, é verdade Xavier.
E alguns lá continuam.

Aliás é suposto que os nomeados sejam pessoas competentes, porque de livre escolha do Ministro e este, enquanto tal, opta sempre por pessoas da sua confiança, com provas dadas ou perfil adequado para o cargo (assim devia ser, mas não é!)
Mas a avaliação de desempenho dos CA parece ter como objectivo motivar e incentivar, premiando, os gestores.
E aqui surge mais uma pergunta: não são os gestores pagos com as tais "MORDOMIAS" (parece que já nem existem?) que só por si os obrigam a estar motivados?
É evidente que a avaliação dos gestores deve existir, mas essa em meu entender faz-se pela análise dos resultados globais e ou sectorias da "empresa" (hospitais ou outros organismos). E os indicadores para tal estão há muito estudados e definidos.
Mas como sabemos uma das "bandeiras" de CC/FR foi a famosa "carta de missão" ou "carta de compromisso". Alguém conhece até hoje alguma decisão relacionada com esse misterioso "contrato de gestão/carta de missão"?
Ou será que todos os gestores dos HH EPE's têm merecido avaliação positiva?
Enfim, estou mais em crer que se trata de mais um faz de conta. Fica sempre bem ao Governo legislar, legislar muito e de forma a que muitas vezes nem os especialistas entendem.
O difícil é a aplicação prática das "normas".
E quanto a prémios de desempenho, por este andar ainda vamos ter os HH EPE's cheios de "Barrosos" e constituindo os CA lugares cobiçados por ex-ministros e secretários de Estado com aliciantes como os da EDP, GALP, CGD, BP, etc..
PS: o despacho é só para os HH EPE's?! Porque ficam de fora os outros?
Não posso deixar de concordar com o que escreveu o é-pá sobre os Centros de Responsabilidade Integrados.

11:58 da manhã  
Blogger Hermes said...

Cumprimento o Aidenós por mais este óptimo texto e aproveito o ensejo para sublinhar a excelência das intervenções do Brites. Bloguistas deste calibre definem um padrão elevado para o Saudesa reforçando-o como fórum de discussão de qualidade, ainda que nem tudo esteja ao alcance dos mais repentistas e adeptos de “ir a todas”, bombardeando tudo o que não compreendem ou que vá bulir com a imagem da realidade que formularam.

O texto do Aidenós constitui parte de uma estratégia de hospital, apontando os seus pontos cardeais: Visão, Missão, Objectivos gerais/finalidades, Valores. Trata-se de UMA alternativa valiosa, mas não é A solução para todos os HH – estaríamos então no campo da prescrição (receita) única, o que o Aidenós já fez sobeja prova de não professar.

Trouxe-nos também, en passant, as responsabilidades do Conselho de Administração (CA) o que, por definir melhor o papel e vincar a importância da liderança para a boa performance do hospital, faz a ligação à avaliação do CA e de todos os que exercem funções de gestão.

Lendo o Despacho do SES e o Estatuto do Gestor Público não parece difícil concluir que há outros requisitos cuja definição é essencial para haver avaliação do CA:
a)-Objectivos e orientações, gerais e específicas, a cumprir em cada hospital,
b)-Projectos e meios colocados à disposição dos gestores,
c)-Regras e consequências da avaliação.

Por outro lado a avaliação do CA, com a de qualquer gestor, sempre incidirá sobre:
a)-Os resultados do hospital, relativamente aos demais e ao previsto,
b)-O cumprimento dos objectivos e das orientações fixadas e o grau de sucesso dos projectos e acções constantes do contrato (melhorias introduzidas),
c)-O modo com exerceu as suas funções e as mudanças induzidas na cultura e valores.

Quem leu (mesmo!) o Despacho e o Estatuto aqui postados pelo Xavier, concluirá facilmente que:
a)-A avaliação em causa decorre directamente da lei que a impõe para TODAS as empresas públicas. Ora os HH EPE são-no mas o HH SPA não, pelo que as muitas suposições e atoardas de alguns bloguistas não passam disso mesmo e só traduzem o seu modo de estar – tudo criticar mesmo quando «nem leram». Quem haveria de avaliar os gestores se não o accionista, que neste caso é o Estado?
b)- Os objectivos são estratégicos, porque o contrato de gestão é para um mandato, e anuais, porque é nesses períodos que se concretizará a estratégia aprovada e porque da actuação verificada nesse período, deve resultar apreciação E decisão – continuar ou terminar o mandato.
c)- O contrato de gestão é com o CA, não com o hospital, e será replicado internamente com os gestores. De modo semelhante o contrato programa, com o hospital, será detalhado em cascata com cada centro de responsabilidade e serviço, visando a actividade como já aqui foi dito pelo Xavier de modo claro e sucinto.

Causa estranheza a incoerência e sem sentido de algumas posições de bloguistas, as que se seguem, por ex..

a)- Má vontade e desconfiança alardeada relativamente à avaliação dos gestores e, simultaneamente, à manutenção em funções de CA não decorrentes de provas dadas e resultados concertos apresentados. Não merecem comentário os saltos no escuro e as suposições malévolas contra os AH – também prefiro um mudo a um comentador cego à realidade que prefere a efabulação e o lançamento de atoardas, quiçá produto de um passado «guerreiro».
b)- «Por um lado diz que o MS tem vindo a desenvolver um modelo de avaliação..., por outro diz que importa testar e afinar esse modelo com vista à sua aplicação aos HH EPE's». Mas não é normal que após definir um modelo se queira efectuar o seu teste na realidade, um «prático» atento não faria assim?
c)- Questionar se as nomeações podem cessar durante o mandato, «nomeações dos CA por períodos de três anos, estas avaliações permitirão interromper os mandatos ao fim do 1º ou do 2º anos dos mandatos?», e, logo depois, achar uma vergonha os incompetentes «lá continuarem».

Claro que é possível agora cessar as comissões, nalguns casos pagando indemnização. A avaliação deve permitir apreciação objectiva recorrendo a um conjunto de critérios, em que os aspectos de qualidade e eficácia não estarão ausentes, porque no MS não estão recém chegados à saúde e, portanto, não desconhecem a primazia que aquelas dimensões devem ter (cf referiu o Xavier).

9:57 da tarde  
Blogger e-pá! said...

O Hospital do futuro, ou melhor, o Hospital com futuro, nomeadamente a preservação funcional e a sustentabilidade dos grandes HH’s públicos do SNS, não se constrói, nem se defende, à volta do CA’s.
Este novo estatuto, esta nova “Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais” é o primeiro tiro nos pés. Melhor seria, desde já, mudar-lhe o âmbito.
Isto é: “Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, PPP’s”.
Aqui sim, não será difícil antever que, vão surgir problemas, sérios. Volto, mesmo com o risco de ser maçador, ao paradigmático caso “Amadora-Sintra.”
O MS, nomeadamente CC, deixou os HH’s um pouco “ao Deus dará”… Já tivemos oportunidade de assinalar isso.
De facto, o MS entreteve-se a tocar vários instrumentos em orquestras diferentes: CPS (USF´s, CS e regulação dos fluxos de urgências), reestruturação e emergência pré-hospitalar (INEM), da rede de Urgências (SUB, SUMC e SUP).
Os Hospitais são os parentes pobres do SNS. Foram alocados a parcerias PPP’s e estão, em muitas situações, em stand by.
Agora surge um “estudo para a avaliação dos CA”. ..

Caro Xavier: parece gozo!

Vamos encurtar razões. Senão fico com a fama de ao contestar esta proposta estar a proteger o parasitismo e o compadrio que se instalaram, de pedra e cal, nas nomeações dos CA’s dos HH’s EPE’s. E da avaliação política do seu desempenho, indiferente a resultados. Sim, porque aqui o que contam são os resultados, estudados, decompostos e escrutinados.
Ainda hoje li, num jornal diário, um HH que teve um esmagador avanço em Cirurgia de Ambulatório. Segundo o texto do HPA (Hospital Padre Américo), as cirurgias convencionais registaram um aumento de 42,3 por cento (relativamente a 2005), as cirurgias programadas cresceram 39,6 e a cirurgia do ambulatório fez mais 4.600 cirurgias do que em 2005, valor que significa um acréscimo de 96 por cento. Bem, Com base nos DRGs (Diagnosis Related Groups), pode-se obter uma nova forma de definição do perfil nosológico dos casos cirúrgicos tratados nos hospitais em regime de cirurgia ambulatória, e também da mensuração da produção hospitalar, como também no controle do processo do trabalho médico.
Venham, portanto, os índices de “case-mix”, para conversarmos com dignidade e rigor.

Bem, para os CA dos HH’s, defendo, pouco.
Quatro grandes questões:
1. - Funções de coordenação e apoio às estruturas administrativas, logísticas e financeiras (mais do que dirigentes ou de vanguarda);
2. - Criação de Centros de Responsabilidade Integrada (CRI’s) com fortes condicionantes nos cumprimentos de objectivos, objectividade na motivação técnico-profissional e equidade nos incentivos;
3. - Um rigoroso e funcional “sistema de contratualização” (com grande predominância interna - SNS).
4. - Criar um ambiente saudável que permita a reconciliação no interior dos HH’s, primando pela ausência dos CA’s, entre a administração, a gestão, o sector médico e de enfermagem.

Entre as funções essenciais e específicas dos CA’s, enquanto grandes plenários, onde o poder político central se dilui, julgo:
- Centrar-se em questões de desenvolvimento estratégico e de financiamento específico para além do OGE (que deverá apresentar ao HH);
- Acompanhar e controlar a execução orçamental dos diferentes CRI’s;
- Promover a formação e outras iniciativas “pela sáude dos cidadãos”.

E, finalmente, as questões da sua composição que, em minha opinião deverá ser (muito) alargada (entre 15 e 20 membros)
Um sector representativo da sociedade civil (Presidente da Câmara e associações cívicas e culturais…)
Um sector representativo da tutela (administrador delegado, etc…);
Um amplo sector representativo do pessoal Hospitalar (médicos, gestores, AH’s, enfermeiros, TDT, técnicos de equipamento, auxiliares, etc.);
Outros sectores – Direcções de Departamentos (?)

Neste âmbito, nesta multidão, dissolviam-se muitos “cambalachos” …
Aliás, este é de certo modo o “sistema francês” que CC deve ter apreendido em França, mas quando chegou à pátria lusa, depois de um lampejo na oposição, á chegada ao governo trocou-o pelo atávico centralismo lisboeta. Não caiu às mãos de uma revolta dos CA’s que, algumas vezes, maltratou. Caiu às mãos dos autarcas e da ala esquerda (?) do seu próprio partido.

Se o processo ficar debaixo das “saias” de Francisco Ramos, vai continuar a enfermar (com maior ou menor sofisticação) das perversões que todos conhecemos. Vai ser uma reprodução revista e aumentada do “dejá-vue”.
O melhor será contestar o sistema, para tentar mudá-lo.

Finalmente, aqui fica, Xavier, a minha razão profunda.

PS - já li, nestes últimos dias, mais sobre estudos e métodos de valiação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, do que desejava.
Claro que, enquanto me canso, há outros que já vão muito longe. Chegaram aos objectivos dos HHs do SNS.
E tornam-se adivinhos e assertivos: "Quem leu (mesmo!) o Despacho e o Estatuto aqui postados pelo Xavier, concluirá facilmente que..."
ou, então, a crise de mau gosto entremeada com a a amputação da realidade, centrando a desconfiança em relação aos gestores e mais à frente os saltos no escuro e as suposições malévolas contra os AH. Um artista de circo.
Assim:
"Má vontade e desconfiança alardeada relativamente à avaliação dos gestores e, simultaneamente, à manutenção em funções de CA não decorrentes de provas dadas e resultados concertos apresentados. Não merecem comentário os saltos no escuro e as suposições malévolas contra os AH – também prefiro um mudo a um comentador cego à realidade que prefere a efabulação e o lançamento de atoardas, quiçá produto de um passado «guerreiro».
Um verdadeiro bloguista do diálogo, da sapiência e do civismo.

No meu entender, precisamos de definir um novo modelo.
A não ser que o existente sirva a tanta gente que, com pequenos retoques, possa continuar imutável...
Como me parece que vai suceder!

11:29 da tarde  
Blogger aidenós said...

Caro É-Pá:

Pela extensão do seu último Comentário, em que aborda tantos e tão variados temas e que entrou no Saudesa apenas 28 minutos depois daquele que eu próprio lhe dirigi, fico convencido de que só a última parte (“o que não entendo são os cegos e os mudos. E muito menos entendo, quando parecem acumular! De resto, fora o posicionamento da "clinical gouvernance", tudo bem!”) terá sido escrita depois do que eu próprio escrevi. Já não espero que me esclareça nos termos por mim solicitados (dizer frontalmente, sem derivações, mas por palavras de sentido inequívoco que todos possamos entender). Sou então “cego e mudo”, mas guardo alguma capacidade de memória. Por exemplo, lembro-me de que há dias, com outras palavras para não ter que ir à procura das suas, dizia o É-Pá que é obrigação, de quem tem superioridade de saber, expressar-se de forma que os outros o entendam correctamente.
No texto inicial afirmei que a avaliação é, no fundo, a medição dos resultados no confronto com os objectivos da instituição, porque é a esse nível que se situa a responsabilidade dos CA. Com esta afirmação pretendia duas coisas: mostrar a pertinência da abordagem subsequente (não estava a fugir para outra área) e recentrar ou dar maior objectividade à discussão do tema da avaliação dos CA e da sua legitimidade. Mas o É-Pá viu uma derivação intencional e fala de “um arrasador, exaustivo e fracturante, trabalho de fundo, sobre “avaliação e objectivos dos hh’s do sns”“ (nem tanto, para o bem e para o mal, digo eu!) e de “inusitado aproveitamento para um lunático “alargamento” protagonizado no texto do “aidenos” sobre o tema”. E proclama: “avaliação e objectivos dos hh’s no sns. nâo! ”, como se estivéssemos perante uma heresia. Foi preciso chegar aqui para, primeira vez, ouvir dizer que avaliação se pode fazer ignorando os objectivos.
No entanto, a leitura desse texto, sem preconceitos ou sem receios injustificados, permite ver que todo ele é dirigido para por em destaque a responsabilidade que, no desempenho do H, cabe ao CA. Como órgão de topo não é o único envolvido nesse desempenho mas, sem dúvida, tem um papel a desempenhar, sejam EPE ou SPA; todos os autores o afirmam, existe nos HH de todo o mundo e, se não tivesse, para que existiria? O que está em causa (e isso é o que se propõe o despacho do SES) é a avaliação dos CA e não a avaliação dos HH, o que são coisas diferentes e fazem apelo a coisas diferentes.
Parecem assim descabidas, ou denunciadoras dos tais preconceitos ou de receios injustificados, derivações como as que cito, a título de exemplos:
- a “gestão hospitalar, (que) entretanto, estende a sua acção com uma “estratégia da aranha”: pretende açambarcar a qualidade dos cuidados prestados, a eficiência da prestação de cuidados e o financiamento das organizações de saúde”;
- a “Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE”, visa alargar competências do CA e por arrastamento dos AH’s e gestores, dentro dos HH’s”.
Olhe que não, caro È-Pá, olhe que não! Até parece que é o único que não acredita na liderança do médico dentro do H, sempre que está em causa a autonomia técnica das equipas de saúde. Posso garantir-lhe que, quando se entra nesta área, nenhum AH defende outra coisa.
Finalmente, porque não queria alargar-me mais, o que significa a última parte do seu Comentário: “De resto, fora o posicionamento da "clinical gouvernance", tudo bem”? Que só aí discordamos? Se é assim, dir-lhe-ei que aí não discordamos, tal como não discordamos quando se refere aos CRI, nos quais me parece que se deve apostar. Toda a questão estará em que façamos uma definição correcta, ou seja, em não fazermos instrumentalização de clinical gouvernance ou de CRI, ou ainda, em sermos capazes de entender o que significa a autonomia técnica dos profissionais de saúde.

12:34 da manhã  
Blogger e-pá! said...

Caro aidenós:

Cito o texto do Xavier de 22.02.08 - Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE.

"Mistura aqui o contrato programa, que é com o hospital e para determinadas produções e actividades a realizar, com o contrato de gestão que visa o cumprimento de objectivos pelos gestores.

Trata-se de iniciar a avaliação do desempenho dos gestores, o que deverá depois ser também feito para os restantes chefes e directores do hospital.
O que interessa é o desempenho e não se eles pertencem ou não à administração pública.

A avaliação da administração pública, onde há funcionários e dirigentes, é diferente da das empresas, onde existem regras e estatutos diversos, quer das unidades quer das pessoas."

É este esquema que foge à avaliação dos médicos...

É a clara noção de que os médicos não podem aceitar mais definições, esclarecimentos ou avaliações de situações dentra da Saúde sem estar definido o acto médico;

É partir dos CA para "o que deverá depois ser também feito para os restantes chefes e directores do hospital."

É, Caro aidenós:
o golpe da secretaria , a burocratização do trabalho dos outros profissionais(não são só médicos), construir do telhado para os alicerces.

É o lançar da confusão para reinar: num CA de admonistração não são todos gestores!
Imitam gestores. Uns serão AH's, outros médicos, outros enfermeiros,...

Mas, não valorizo tanto esta questão por maior bondade que tenha o Despacho n.º 3593/2008, link publicado no DR, 2.ª série, N.º 31 de 13.02.08.

O poder político não vai abdicar do privilégio de nomear os gestores das EPE'e.
Ele exerce funções de sócio maioritário.
Nomeia e avalia.
Como diz o povo: "Quem dá o pão dá a educação"

O Poder tem boys para servir, enquadrar e avaliar.
A perda de mandatos ocorrerá - quando ocorrer - por perda de confiança política.

E disto tudo, resta um pouco (muito) o início de uma inadiável discussão do que podem e devem ser os HH's do serviço público.

A gestão dos HH's será a do grande (ou do maioir) accionista!

7:59 da manhã  
Blogger e-pá! said...

GESTÃO:
do Lat. gestione
s. f.,
acto de gerir;
gerência, administração; direcção.

ADMINISTRAR:
LLAT.administrare
v. tr.,
gerir negócios;
governar, reger;
ministrar;
conferir;
aplicar.

GOVERNAR:
lat. gubernare,
por ext.
reger, administrar, gerir, dominar, imperar sobre; mandar;
v. int.,
encaminhar-se, dirigir-se;
exercer autoridade, administração, governo.

DOMINAR:
do Lat. *dominare por dominari
v. tr.,
mandar soberanamente, ter poder absoluto em, exercer domínio sobre;
ser senhor de;
reprimir, refrear, vencer;
subjugar;
prevalecer em, sobre;
preponderar;
estar sobranceiro a, estar ou elevar-se acima de;

ENFIM, QUANDO PENSAMOS EM AVALIAR OU ESTUDAR OS MÉTODOS DE "TRABALHAR", NAS COISAS PÚBLICAS, ESTAMOS POR CONTA DE OUTRÉM, OU À MARGEM DO PROFISSIONALISMO, DAS COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS, A TENTAR CONSTRUIR MECANISMOS DE DOMINAÇÃO.

Caro aidenós:

NENHUM MÉDICO CONSCIENTE ACEITA PARTICIPAR MESTA AVALIAÇÃO, NEM SEQUER NA DEFINIÇÃO DE OBJECTIVOS DOS HH's do SNS, SEM PREVIAMENTE, SE DEFINIDO O QUE É O ACTO MÉDICO.

NÃO VAMOS DEFINIR O ACTO ADMINISTRATIVO, O ACTO DE GESTÃO, O ACTO DE GOVERNAÇÃO, E DEPOIS O QUE ESCORRER, O QUE TRANSBORDAR ...ISTO É, O SOBRENADANTE, SERÁ O "ACTO MÉDICO".

ENTÃO... JÁ QUE SOMOS TODOS GESTORES, UNS GEREM OS OBJECTIVOS E OS CONTRATOS E OUTROS TRABALHAM NA PRODUÇÃO, HAVERÁ ALGUEM QUE LEVE A TAÇA E A BICICLETA PARA COLOCAR NO EXPOSITOR ...

Há situações aparentemente inocentes que empurram as pessoas para rupturas.
Uma pergunta cavilosa:
A "mobillidade especial" será um acto de gestão, administração, governação ou ... uma mera e inocente medida determinada pelos pergaminhos e pela eficácia do "outsourcing"?

10:20 da manhã  
Blogger xavier said...

Entendo que relativamente a esta matéria, o é-pá devia fazer uma Declaração de Conflitos de Interesses.

12:26 da tarde  
Blogger PhysiaTriste said...

Para o bem e para o mal CC deixou uma marca impressiva no MS. Mas estava a precisar de sair. Vejam como bastou a sua saída para não nascerem mais meninos em ambulâncias, não caírem mais doentes das macas nas urgências, não morrerem mais pessoas sem assistência do INEM.

Muito mais cedo do que ele próprio imaginaria muita gente apareceu a defender as suas políticas e, com a força que esperava, atacaram os seus detractores.
Alguns destes enfadam-se com a repetição dos elogios, mas não perdem ocasião de continuar as críticas, sobre o que fez e o que deixou de fazer.

Calcule-se que, diplomado em França, CC não foi capaz de replicar em Portugal o modelo de gestão dos hospitais franceses.

A organização do hospital público francês reflecte, como não podia deixar de ser, a história dos hospitais em França. Abro um parêntesis para recordar o que o saudoso Prof. Coriolano Ferreira costumava lembrar: “um hospital é um facto social dinâmico e evolutivo”.
É a história que explica o carácter comunal dos Centros Hospitalares Regionais em França e, até determinada época, a existência dos Hospitais das Misericórdias, em Portugal.

Os hospitais franceses têm efectivamente um Conselho de Administração alargado, cuja composição foi determinada pela evolução histórica do hospital e reflecte uma grande preocupação de equilíbrio político. Mas este Conselho de Administração não tem nada a ver com o dos nossos hospitais, que é um órgão executivo.
O órgão executivo dos hospitais franceses é o Director que representa, no Hospital, uma tutela Ministerial bastante pesada. Tão pesada que reduz, em muito, a margem de manobra do Conselho de Administração, a quem cabe deliberar, sobretudo, sobre os projectos de construção e grandes reparações dos estabelecimentos.

Quem é este Director? Genericamente um diplomado pela ENSP, onde CC fez o seu curso (pode também ser um diplomado pela ENA). Ou seja, o equivalente ao administrador hospitalar em Portugal.
Agora, meus amigos, imaginem só que CC recriava em Portugal esta figura do Director de Hospital. Não custa adivinhar que dele diriam o que Maomé não disse do toucinho!

2:44 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Caro Xavier:

TODOS, mas TODOS, devíamos fazer uma declaração de intereses sobre questões tão sensíveis como as lideranças ou a ocupação de cargos por inerência, escolha arbitária do poder, de favor ou, como é facil perceber, por "encosto" partidário.

NÃO PERCEBO QUAL A SUSPEITA SBRE UM EVENTUAL CONFLITO DE INTERESSES.

Mas, isso não me inibe de responder e para não ser surpreendido a qualquer momento sobre a questão em causa - que julgo ser - "a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE’s", tenho a declarar que:
1) Nunca pertenci como membro indicado pelo MS a nenhum CA dos HH's do SNS;
2) As funções que exerci no seio das instituições públicas foram sempre de natureza técnico- profissional e por escolha dos pares.
3. Atingi o topo da carreira píblica, percorrendo todos os escalões, sem saltos qualitativos ou quantitativos, apresentando-me sempre em concursos públicos, (nunca fui promovido opor antiguidade, não condicionados (esta última permissa não é despiscienda).
Chega?

Mas, caro Xavier, este assunto é fogo e dentro em breve voltarei a este pensar nesta situação - relevante num aspecto que há muito deveria ter sido discutida - a liderança.

2:56 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Para o "aidenos":
Num titânico esforço para dar consistência às minhas reservas...

A gestão é um dos vectores que se incorpora-se na Reforma Administrativa.
Atinge o sector público. Isto é, a crise do Estado do Bem-Estar, um estado gastador, em alguns aspectos perdulário, levou à reforma da gestão pública.
Inexplicavelmente poupa o sector liberal. O objectivo era conter as despesas tarefa só possível com a retracção das amplas fronteiras do Estado Previdência.
A ideia era fazer menos, fazer o mínimo que o Governo deveria fazer, de preferência através do sector privado ou social,
Um regime autoritário, escorregava-se para uma governação económica mais liberal, do que o modelo político.

Em Portugal é também uma crise de instituições, mas ao contrário do que se afirma, não recente.
Começa com os grandes constrangimentos económicos, nomeadamente o choque petrolífero, a dificuldade em lidar com os crescentes gastos da guerra colonial, uma organização social ineficiente, o descrédito em relação às organizações públicas e as fracas ou nulas expectativas dos cidadãos em relação à qualidade dos serviços públicos.

Estes problemas afectaram toda a Administração Pública e, necessariamente, influenciaram a mudança na gestão dos serviços de saúde em Portugal.


Daqui nasce o modelo neo-liberal. Isto é, a busca sistemática de soluções que enfatizam a eficiência, a eficácia e economia.
Portanto, isto não é tão antigo. Estamos no fim do marcelismo e na alvorada do 25 de Abril.

Com a Revolução, e a posterior – quase imediata - criação do SNS começaram a aparecer os pecadilhos das ineficiências dos sistemas gestionários.
Não vamos percorrer este longo caminho.

Vamos debruçar-nos sobre uma nova e violenta pressão que caí sobre os HH’s. Têm a ver com o conceito de gestão, a modernidade na governação das unidades de Saúde.
Mas persiste a convicção que, por si só, os novos modelos de gestão não conseguirão resolver os recentes e prementes problemas do sector da Saúde. Estamos a falar do Sector Público, quer sejal do SPA quer sejam sociedades empresariais de capitais públicos.
O novo modelo de gestão rapidamente desenvolve uma grande pressão sobre os trabalhadores da Saúde e, embora sem avaliação directa, sobre os próprios gestores.
O modelo gestionário carrega no seu bojo uma nova fiosofia e novos valores. Rapidamente entram em conflito com os profissionais da Saúde. A eficiência, a contenção de custos, princípios económicos basilares, parecem a todo o momento colidir com a qualidade da prestação de cuidados médicos e com princípios deontológicos.

Novos modelos de gestão não trazem grandes inovações. Tem outros desafios e novas formas de abordar os problemas mas grosso modo o que se verifica é um grosseiro transportar dos métodos privados para os públicos.
Com imperdoáveis deficits. Uma intransponível barreira entre os ditos “gestores” e os profissionais da Saúde. Racionalidades diferentes, desequilíbrios entre grupos profissionais, destroem qualquer espírito de cooperação e colaboração.

Criam-se barreiras. Enquanto so gestores se concentram em preocupações de índole organizacional e os trabalhadores da Saúde mobilizam-se em problemas de índole profissional.

Estes choques precisam de ser ultrapassados. Reside aqui um importante problema de liderança. Mudar de estilo.
Desenvolver novas competências de gestão que alarguem o conceito de gestor.
Um gestor deve ser um orientador, um facilitador, um moderador de conflitos. Nomeadamente, multidisciplinares e inter profissionais.
Um dos grandes problemas, não posso deixar de aproveitar este ensejo para alertá-lo, é o terrível impacto que a contratação de seleccionados (não vamos entrar nos critérios de selecção) grupos de gestores criou um pernicioso impacto na contratação traduziu-se num grande mau estar nos profissionais de saúde e no pessoal administrativo.
Os “pequenos gestores” – os gestores de pacotilha - devem ser inovadores, modernizadores e possuir uma grande acuidade tática. O poder central não valoriza estes critérios. Quer que os gestores reforcem o controlo sobre o pessoal, diminuíam os gastos e melhores os resultados. Aumentem a eficiência.

A gestão hospitalar em Portugal vai passar por graves problemas.
Por exemplo a contratualização no sector da saúde pressupõe a reforma do modelo de gestaão financeira
No caso português estas
medidas estão a ser implementadas simultaneamente,, com carácter normativista, sem
conhecimento adequado de quem é a entidade fiscalizadora e a reguladora do sistema.
A nova gestão orienta-se pelos resultados. Assenta em três pilares incontestáveis mas dificilmente mensuráveis: economia, eficiência e rigor.
Todavia a Saúde tem outros parâmetros, também susceptíveis de ser geridos e avaliados:
-a diversidade;
- a maleabilidade
- a resposta atempada
- a contenção de custos
- a moderação das despesas
- e, as imperiosas necessidades dos utentes.

Gestores e profissionais de saúde têm de colaborar. Fundamentalmente com os utentes.
Não há neste momento vias de diálogo e de cooperação abertas.
A supervisão do governo é essencial.
Mais do que avaliar a gestão é necessário criar mecanismos de integração, colaboração e intercambio.
Fugir do medieval controlo hierárquico para a moderna ditadura gestionária.
É isso, que devemos avaliar nos CA!

8:52 da tarde  
Blogger Cândida Bordoada said...

O caro é-pá ultimamente perdeu toda a piada.
Desculpe-me que lhe diga.
O amigo tornou-se impertinente e pouco delicado. De forma a merecer umas bordoazitas cá da Cândida.

O rico escolheu o nome de gelado que não interessa a ninguém, mas que sugere uma das suas características : mete muita água e tem pouco substrato;

Do que me foi dado apreciar, o amigo age sempre como um mix de franco atirador e guerrilheiro inconsequente. Não artilheiro disciplinado até pq não há ninguém capaz de o enquadrar em qualquer "guerra". Tal como os outros que não se governam nem se deixam governar.

Campeão do «desinrascanço» e do expediente com que delira furar as regras e procedimentos, inimigo figadal de tudo o que cheire a disciplina e actuação normalizada -políticas e protocolos, pfff (cospe) - objectivos e orçamentos (escarra) são para si «mangas de alpaca».

Preocupa-me sobremaneira o azedume que amiúde não consegue evitar.
Parece ter saído muito prejudicado pelo encerramento recente de maternidades e SU,determinado por esse malando de ministro. Itinerário doirado para a prática de paletes de horas extraordinárias, fonte inesgotável de chorudos proveitos.
Que se lhe há-de fazer.
CC foi um chato. Um empata. Um espinho cravado para sempre.
Tanto orçamento familiar destroçado.
É por isso que, desde então, tão facilmente se lhe solta a bílis. O fel amargo, viscoso contra todos os AH e gestores do planeta.

Isto está a ficar péssimo. Até o Eduardo Barroso teve que se demitir. As coisas a continuarem assim não sei mesmo onde isto tudo irá parar.

11:01 da tarde  
Blogger e-pá! said...

Cara Candida:

O gozo, aquele supremo, são as variantes heteronímicas.

O resto é uma refrega entre o erotismo e a vulgaridade.
O erotismo do poder que escapou;
E a vulgaridade de um luto prolongado, sebastianista.
Que não volta, nem se faz substituir.
Nem à bordoada!

12:19 da manhã  
Blogger ochoa said...

Congestionamento das urgência aumenta mortalidade”
«Quatro em cada 10 mortes nos serviços de urgência em Portugal seriam evitáveis se os serviços funcionassem correctamente». Num debate sobre o “Direito à Saúde”, o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos alertou para os perigos do congestionamento das urgências

Foi sob o mote “Direito à saúde: Reforma dos Cuidados de Saúde Primários e das Urgências”, numa iniciativa da República do Direito, que se debateu, quinta-feira à noite, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e se apresentaram prós e contras das reformas em curso. António Arnaut, jurista e responsável pela criação do SNS, José Manuel Silva, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, e José Manuel Almeida, membro da Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação das Urgências, expuseram os seus pontos de vista, perante uma plateia reduzida mas, ainda assim, participativa.
Não ponto em causa o «equilíbrio e o rigor» do relatório da Comissão Técnica - «sem dúvida, o trabalho de maior seriedade feito na vigência do anterior ministro da Saúde» -, José Manuel Silva lamentou que o documento apenas esteja a ser usado para «cumprir objectivos economicistas, que não foram os que presidiram à elaboração do relatório».
No entender do responsável regional da Ordem dos Médicos (OM), «a reforma foi planeada para funcionar num enquadramento ideal», desde os cuidados primários, aos continuados, à emergência pré hospitalar, quando, na realidade «está tudo a funcionar cada vez pior».
José Manuel Silva, médico dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), entende que «os doentes não estão a ser bem assistidos» e correm riscos ao entrar num serviço de urgência congestionado. Lembrando estudos de outros países, o especialista referiu que «o congestionamento aumenta a mortalidade em 43 por cento». Ora, estando os serviços de urgência portugueses «sobrecarregados», «quatro em cada 10 mortes num serviço de urgência seriam, teoricamente, mortes evitáveis, se tivéssemos serviços de urgência a funcionar correctamente», reflectiu.
O presidente da Secção Regional da OM considera que «é, actualmente, impossível trabalhar com qualidade, porque os serviços de urgência não estão dimensionadas para a procura e o espaço físico, os recursos técnicos e humanos são claramente insuficientes».
O problema, de acordo com José Manuel Silva, não é solucionado «por motivos economicistas». «Ninguém está contra a boa gestão, mas se pagamos cada vez mais impostos e se há cada vez menos dinheiro para a saúde, temos o direito de perguntar para onde vai o nosso dinheiro», reclamou.

SNS já não responde

«O que está a ser feito, com o epíteto de reforma, é a destruição do SNS», frisou o responsável da OM, justificando que «os interesses económicos envolvidos são imensos» e que a saúde constitui «o grande negócio do século XXI».
José Manuel Almeida considerou, por seu turno, que o problema de «desestruturação» do SNS» é levantado sempre que há reformas, quando, o que é facto é que «o SNS não tem demonstrado plasticidade suficiente para conviver com a alteração de algumas circunstâncias», como sejam o aumento da esperança média de vida - «doentes idosos são utentes mais assíduos de cuidados de saúde» -; a evolução científica e técnica da medicina, que tornou crónicas muitas doenças antes fatais; «a hospitalização da morte». No fundo, referiu o médico do Centro Hospitalar de Coimbra, o SNS não tem conseguido fazer face a «uma procura cada vez maior, não só nas urgências mas também nas consultas externas», quando os recursos humanos (em especial médicos) são escassos e as expectativas das pessoas elevadas.
O responsável da Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação das Urgências lembrou, no caso das Urgências, que «na maior parte das situações ou a resposta é rápida ou mais vale não fazer nada», dando o exemplo de enfartes agudos do miocárdio ou de acidentes rodoviários.
«A morte evitável ocorre por desorganização do serviços, porque o doente foi colocado num serviço onde não devia ter sido colocado, por falta condições, de espaço, de tecnologias, etc.», declarou. Citando um estudo segundo o qual «doentes com a mesma severidade traumática morrem duas vezes e mais em Portugal do que em países com menos hospitais e menos serviços de urgência», José Manuel Almeida considerou que o problema é claramente de organização.

“Falsas” urgências

Organizar os serviços para adequar a resposta ao tipo de procura foi o que se propôs a fazer a Comissão Técnica. «Propusemos 83 pontos de rede de urgências, mais 10 pontos em relação aos que existiam e mais 45 que passaram a ser formalmente reconhecidos», referiu José Manuel Almeida, contestando a acusação de «encerramento» de serviços de urgência no interior do país, à excepção de Macedo de Cavaleiros e do Fundão, e notando que os 15 encerramentos propostos dizem respeito a grandes centros urbanos ou a unidades que não reúnem condições para serem consideradas urgências. «É preciso que se fale verdade, ter um serviço de urgência não é ter uma porta aberta e um médico com estetoscópio ao pescoço», declarou.
Segundo José Manuel Almeida, com a futura rede de urgências 90 por cento dos portugueses ficará a menos de 30 minutos de um verdadeiro serviço de urgência. Ao que José Manuel Silva respondeu que tal só seria possível «se as pessoas andassem sempre perto de uma ambulância». O responsável da Comissão Técnica referiu que o plano aponta para um investimento forte na emergência pré-hospitalar, bem como nos cuidados primários e nos cuidados continuados, entrecruzando-se a reestruturação das urgências também com estas reformas
José Manuel Almeida rejeitou que a reforma tivesse objectivos economicistas, tendo em conta as avultadas verbas que a criação da rede de urgências implica.

30 anos depois SNS continua a “afrontar interesses instalados”

O socialista António Arnaut, considerado o “pai” do Serviço Nacional de Saúde lembrou que este é «um direito fundamental, inerente à condição humana, reconhecido pela Constituição da República como um direito trave mestra da organização social». Por ser um direito social, exige uma prestação do Estado, «que deve organizar-se, dentro dos recursos disponíveis, de forma a garantir cuidados de saúde a todos os cidadãos, independentemente da situação geográfica, económica ou social».
António Arnaut reparou que 30 anos depois de criado, o SNS continua a ser debatido, porque «afrontou e continua a afrontar interesses instalados». Os interesses de antes não têm, de acordo com o jurista, comparação possível aos de hoje: «a saúde é um filão apetecível e há grandes grupos económicos mundiais que vivem do negócio da saúde». Actualmente, «um sexto do Orçamento de Estado é gasto com a saúde – excluindo o dinheiro que gastam os cidadãos – e um quinto dos funcionários públicos estão no SNS».
Apesar de «todas as suas deficiências – algumas naturais e outras artificiais – e dos obstáculos que lhe foram levantados no caminho», António Arnaut não tem dúvidas em afirmar que o SNS «é ainda o melhor serviço prestado pelo Estado português - melhor do que o da Justiça, das Finanças ou da Educação» - e uma «conquista da democracia que deve ser defendida, por obrigação constitucional e moral».
diáio de coimbra

1:00 da manhã  
Blogger PhysiaTriste said...

Segundo o Diário de Coimbra, aqui transcrito por ochoa, durante o debate sobre o SNS, realizado na quinta á noite «António Arnaut reparou que 30 anos depois de criado, o SNS continua a ser debatido, porque «afrontou e continua a afrontar interesses instalados».
Os interesses de antes não têm, de acordo com o jurista, comparação possível aos de hoje: «a saúde é um filão apetecível e há grandes grupos económicos mundiais que vivem do negócio da saúde».

Comecemos então pelos interesses de antes. E, nem de propósito, tenho aqui à mão, uma publicação da INCM que recolhe os depoimentos dos intervenientes num debate, curiosamente também realizado em Coimbra, e promovido pelo então Presidente da República Jorge Sampaio em 1999.

A promiscuidade entre os sectores privado e público é, em meu entender, a principal causa de falta de produtividade nos serviços hospitalares. No actual sistema, cerda de 90% dos médicos estão integrados no sector público e destes a grande maioria faz também parte do sector privado, que funciona como um sistema paralelo, supletivo do Estado. Isto é, o Estado paga os serviços que presta e muitos dos que são prestados pela concorrência, com a agravante de que os concorrentes são os mesmos que prestam os serviços públicos. (Prof. Dr. Manuel J. Antunes)

Quem já alguma vez trabalhou no SNS e resolveu pensar nas causas principais do seu mau funcionamento, ou do seu fracasso parcial, chega facilmente a uma conclusão que me parece das mais urgentes de resolver.
Existe uma total promiscuidade entre os dois sectores prestadores de cuidados. O Público e o Privado.
Esta situação é geradora de várias perversidades.
No Sector Público o Médico «passa» por lá. É mal pago e poucas vezes ou nenhuma é confrontado com qualquer tipo de responsabilidade (para além daquela que a sua consciência lhe impõe). Justifica a sua baixa produtividade com a baixa remuneração e as Administrações dos Hospitais pouca capacidade de intervenção têm porque o seu poder é pouco e a sua capacidade de Administrar, «de facto» também é muito limitada. (Prof. Dr. Octávio Cunha).

Com gosto pelas imagens fortes Octávio Cunha acrescentava ainda no seu depoimento:
“Meus Senhores. Vou ser claro (correndo o risco de, em alguns casos ser injusto). Hoje um Hospital é uma instituição que funciona (mais ou menos bem) como tal até às 13 horas. A partir daí passa a regime de pensão (onde ainda para mais a hotelaria é rasca).
Para não dar muito nas vistas mantém aberto um Serviço de fast food a que se chama Urgência, extremamente dispendioso e de eficácia duvidosa.”

Manuel Antunes defende, há muito, que o desperdício do SNS está relacionado com o descontrolo da gestão dos recursos: “Ao contrário do que muitas vezes se afirma, os recursos humanos são, em meu entender, e sob o ponto de vista geral, suficientes. De facto, atrevo-me a dizê-lo, em excesso nalguns grupos profissionais. O problema reside na distribuição desequilibrada e utilização ineficiente.” (A Doença da Saúde).

O Dr. José Manuel Silva, que não pensa muito no que diz, tem opinião contrária. “Ninguém está contra a boa gestão, mas se pagamos cada vez mais impostos e se há cada vez menos dinheiro para a saúde, temos o direito de perguntar para onde vai o nosso dinheiro”.

Estou de acordo com o Dr. Arnault quando diz que os interesses de hoje não têm comparação com os de antes. São de facto de outra dimensão. Mas, a pergunta que faço, é se, em Portugal, os interesses de antes (que ainda de mantêm) não foram (são) uma causa importante para o aparecimento dos interesses de hoje.

11:03 da manhã  
Blogger Clara said...

Resposta de MD a Inês Guerreiro link

Li, com alguma surpresa, o artigo de opinião da dr.ª Inês Guerreiro publicado na edição do «TM» de 11 de Fevereiro passado. Não pelo seu conteúdo, com o qual, no essencial, concordo, mas pela forma utilizada na introdução [da responsabilidade da Redacção], já que surge, aparentemente, como resposta a algumas questões que eu publicamente expressei sobre o modo como a rede de cuidados continuados está a funcionar.

Se assim é, não posso deixar de prestar alguns esclarecimentos adicionais:
1 -- A rede de «cuidados continuados» é, para mim, um dispositivo essencial num sistema de Saúde de um país desenvolvido como o nosso. Já, claramente, o tinha defendido explicitamente há 10 anos, aquando da publicação do relatório do CRES (Conselho de Reflexão sobre a Saúde), de que fiz parte.
2 -- Assim, as questões que levantei e que me têm sido confirmadas por vários hospitais, prendem-se, sucintamente, com o seguinte:
2.1 -- Dificuldades objectivas em encontrar uma cama para reabilitação/convalescença, protelando os dias de internamento do doente no hospital ou «forçando» uma alta para o domicilio;
2.2 -- Exigência, prévia à transferência, de documentação sobre a situação perante a Segurança Social e o IRS para determinação do escalão de pagamento a atribuir ao doente na unidade de cuidados continuados, procedimento não utilizado na actividade hospitalar;
2.3 -- Criação de expectativas públicas sobre a rede de cuidados continuados e o direito dos doentes a um serviço de internamento ou de apoio complementar, pós-alta hospitalar, superiores à capacidade de resposta.

Estas questões não põem em causa o programa, antes alertam para a necessidade de procedermos, por um lado, a ajustamentos técnicos e, por outro, à ampliação rápida da rede disponível.
Não quis, por isso, criar qualquer embaraço ao programa e à respectiva coordenadora da Unidade de Missão, quando chamei a atenção para estes problemas que, creio, serão ultrapassáveis a curto e médio prazo.

Verifico, a propósito, que a situação do País em muitos aspectos de organização, existência de recursos e, sobretudo, atitudes e comportamentos dos diferentes agentes envolvidos, está ainda longe dos patamares de excelência que a dr.ª Inês Guerreiro refere ter encontrado noutros países, e talvez aqui encontremos também algum factores críticos de sucesso para este programa (a colaboração entre níveis de cuidados, os serviços comunitários, a importância e o número de assistentes sociais, o apoio domiciliário, etc.).

Resposta a duas questões

Responderia, agora, a duas questões concretas que a dr.ª Inês Guerreiro coloca no seu artigo:
a) Exigir informação é burocracia?
-- Dependerá do tipo de informação que se exige e o fim para que ela serve. Neste caso, a informação sobre rendimentos tem atrasado desnecessariamente algumas altas hospitalares, situação que poderia ser resolvida posteriormente ou, então, antecipadamente acautelada.
b) Quem fica surpreendido com a pressão das famílias para ver satisfeito o direito à reabilitação?
-- O direito à reabilitação e à rede de cuidados continuados tem sensivelmente dois anos. Neste tempo, muito se tem dito e escrito sobre a matéria, e o esforço do Governo em desenvolver e tornar conhecido este programa tem sido notável. É óbvio que este novo cenário criou aos familiares uma elevada expectativa e, naturalmente, passam a exigir um cuidado complementar aos doentes mais dependentes e/ou mais idosos, após a decisão da alta hospitalar. Só quem não trabalha em hospitais é que pode ficar surpreendido com esta nova realidade, para a qual, muitas vezes não temos respostas e que agravam, contra a nossa vontade, o protelamento da alta hospitalar.
Reconheço na dr.ª Inês Guerreiro a competência, o empenhamento e o entusiasmo com que tem liderado este programa de cuidados continuados e os sucessos que, apesar das dificuldades, tem conseguido obter. Penso que as administrações hospitalares estão disponíveis e empenhadas em colaborar, cientes do contributo inestimável que uma boa rede de cuidados continuados pode dar à gestão das camas de agudos de que dispomos, agilizando o seu turnover e o seu rendimento em benefício de outros doentes. Não me parece, francamente, que haja aqui qualquer oposição ou tão-pouco um conflito entre a modernidade e os «velhos do Restelo», em matéria de gestão hospitalar, assunto sobre o qual, naturalmente, não me parece apropriado esgrimir argumentos com a dr.ª Inês Guerreiro.
Manifesto, finalmente, toda a minha disponibilidade para colaborar com a Unidade de Missão para os Cuidados Continuados, como aliás sempre o fiz e a dr.ª Inês Guerreiro, com certeza, bem saberá.

TEMPO MEDICINA ONLINE de 2008.02.26

2:37 da tarde  
Blogger aidenós said...

Magnífico, mesmo de qualidade supra, o comentário do Brites. Pela justeza, pela serenidade, pela oportunidade, pela argúcia de detectar a raiz de muitos dos problemas do SNS e por ter sabido escudar-se com testemunhos insuspeitos.

“No Sector Público o Médico «passa» por lá. É mal pago e poucas vezes ou nenhuma é confrontado com qualquer tipo de responsabilidade (para além daquela que a sua consciência lhe impõe)...”. Isto disse o Prof. Dr. Octávio Cunha em 1999. Hoje poderia acrescentar que há até aqueles que não têm pejo de afirmar: “AVALIAÇÃO E OBJECTIVOS DOS HH’s NO SNS”. NÂO!
É mesmo como o Brites diz: “existe uma total promiscuidade entre os dois sectores prestadores de cuidados. O Público e o Privado. Esta situação é geradora de várias perversidades”.
Será que ajuda também a entender por que razão se combate com o mesmo empenho que existam HH-PPP e que haja avaliação e objectivos nos HH do SNS?

10:45 da tarde  
Blogger e-pá! said...

A “AVALIAÇÃO E OBJECTIVOS DOS HH’s NO SNS”.
NÂO OU SIM!

NÃO, enquanto os sistemas vigentes de nomeação dos CA's, forem dependentes do poder político de só aí, nesses estreitos e confinados redutos, prestarem contas.

NÃO! quando a notícia da 1ª. página do Público de hoje (26.02.08), é:
"GOVERNO QUER TRANSFERÊNCIAS PARA HOSPITAIS FORA DAS CONTAS PÚBLICAS"...
Os HH's, meras peças de engenharia financeira e orçamental...

E DEPOIS DEVEMOS PERCEBER O PORQUÊ DO GIGANTESCO "SALTO" DA:
"Comissão de Estudo para a Avaliação dos Conselhos de Administração dos Hospitais, EPE’s"
para
"A avaliação e objectivos dos HH's do SNS".
Vêm aí nova legislação sobre a gestão dos HH's do SNS?

O que mudou nos mecanismos ou na doutrina processual de nomeação dos CA's dos HH's?

Vale a pena estudar, testar o sistema como existe?
Vale a pena falar de gestão hospitalar quando existem hospitais (penso que continuam públicos) sem contas desde 2002?

Finalmente, a "promiscuidade". Entre 1999 e 2008 há, pelo menos, uma novidade. O controlo da assiduidade.
A situação entre os HH PP´s e os HH's EPE é completamente diferente. Aí é que existe um Mundo povoado de preversidades.
A Imprensa tem denunciado algumas. O Dep. João Semedo recentemente outras...
Mas em termos de gestão o melhor é não chafurdar.

Claro que toda a gente quer a avaliação dos HH's do SNS!
Este seria o desejado SIM!
Mas...
Com outro enquadramento legal, com outras regras, com outro tipo de contabilidade, com outros métodos de trabalho...

A gestão a avaliar, tenho muita pena, mas não existe.
E o ar de virgem escandalizada que muitos exibem quando se afirma isto, mostra que de facto um largo conjunto de perversidades, lado a lado, com soberanas oportunidades partidárias, persiste - porque serve alguém ou alguns, ou pior, alguém se serve disso.

12:06 da manhã  

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