sexta-feira, abril 22

Páscoa 1972





Operação Arakanga III, ao serviço do exército das colónias.
Rodei frente ao pelotão. Depois da continência da praxe mandei os homens destroçar. As berliers e os 404 aguardavam-nos num dos extremos da parada. Os motores ligados. Chamei os meus furriéis. Olhámo-nos nos olhos. Sem palavras. Depois dum breve aceno cada um seguiu para junto dos seus homens. Começara a chover. Chuva grossa, desalmada: «O rei manda ir, não manda chover». Saltei para a berlier que arrancou aos roncos rumo ao Tagir, nas faldas dos montes Chivave. Apertei a minúscula medalha que o meu pai me dera à partida no “friendship” de Lourenço Marques. Respirei fundo. O ar cacimbado da manhã. Great, maningue nice. Just like Heaven.
maningue chunguila

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terça-feira, janeiro 12

Estação dos CFM


A estação central dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na cidade de Maputo , foi escolhida pela "Newsweek" como a sétima mais bela do mundo. link

Filomena

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domingo, janeiro 10

Boas Festas

Josias, camarada de guerra no norte de Moçambique, enviou-me esta última semana o habitual cartão de Boas Festas. link
Está melhor. Os espíritos têm-no apoquentado menos ultimamente.
Prossegue os tratamentos. E, confessa, tem fumado umas passas. Das boas.
Anda mesmo a pensar em criar um Blog. Imagine-se, de culinária.
Boa, irmão. Culinária, parece-me bem.

Eis uma das suas receitas favoritas que me enviou :
Trituram-se muito bem alhos, sal e piri-piri (sacana) num almofariz. Junta-se margarina para formar uma pasta homogénea. Barram-se os camarões previamente abertos ao meio.
Levam-se ao forno durante quinze minutos.
Servem-se com batatas fritas, salada de alface, tomate e cebola.
A acompanhar: Bazuca Laurentina.

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sexta-feira, novembro 28

Cartão de Natal


Por esta altura, Josias, amigo e camarada de grupo de combate em Moçambique, escreve-me uma longa carta a contar a vida.
Continua atormentado. Todas as noites, antes de adormecer, lembra-se do fim de tarde em que abateu um guerrilheiro com um tiro de dilagrama. Um desconhecido . Sem razão nem ódio.
Josias acredita que o espírito do defundo virá um dia vingar-se. Na calada da noite. Com frieza, a executar o servicinho.
Pergunta-me se tenho pesadelos. E se gostaria de matar por ódio. É que matar por ódio afugenta os espíritos .
Josias deixou de ir ao médico. Por vergonha. Que os amigos e vizinhos pensem que perdeu o juízo.
Por cá, tudo bem. Feliz natal, amigo.

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sexta-feira, setembro 28

Contra a Sida


O arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, acusou dois países europeus de envio de preservativos e medicamentos anti-retrovirais infectados."Querem acabar com a população de África, é esse o objectivo." link

Esta tirada do arcebispo Moçambicano fez-me lembrar a posição do padre Feitor Pinto, há alguns anos atrás, em relação à utilização do preservativo na prevenção das doenças infecciosas.

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sábado, abril 7

Jesus Cristo SuperStar

"Heaven On Their Minds", com Carl Anderson numa das suas fantásticas interpretações no papel de Judas iscariotes. CA, faleceu em Los Angeles em 23 de fevereiro de 2004 .

Acabei há pouco de ver “A Paixão de Cristo” (2004) do Mel Gibson na RTP 1. Filme demasiado violento, sem objectivo à vista, sobre as últimas horas da vida de Jesus Cristo. Também “A última tentação de Cristo” (1988) de Martin Scorsese, não me deixou lembrança recomendável. O grande filme sobre JC foi, sem sombra de dúvida, o “Jesus Cristo Superstar” (1973) de Norman Jewison, baseado na ópera rock homônima de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Vi o JCS, repetidas vezes, no cinema “Manuel Rodrigues” na ex- Lourenço Marques (Moçambiqe). Já lá vão uns bons anos, é verdade.

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sexta-feira, março 10

Declínio da Coca-Cola

Em 2005, a venda de refrigerantes caiu pela primeira vez nos USA ao fim de vinte anos.
O consumo de refrigerantes entrou em declínio devido à convição de que são responsáveis pelo elevado número de casos de obesidade entre a população dos USA (link)
Os consumidores de refrigerantes, bebidas de alto valor calórico (250 calorias e 67 gramas de açucar por garrafa), estão a migrar para as bebidas desportivas (gatorade e powerade, com metade do açucar e calorias), as bebidas energéticas (redbull) e água engarrafada.
fonte: NYTimesEsta mudança de hábitos traduziu-se no decréscimo significativo do volume de vendas das grandes multinacionais como a Coca-Cola (-2%) e Pepsi (- 3,2%) (ano 2005).
Nos últimos anos estas empresas têm procurado diversificar a oferta. A Coca-Cola, por exemplo, passou a comercializar, além da coca-cola tradicional (diet coca-cola e coca-cola com vários sabores) também água engarrafada, bebidas desportivas e energéticas, chá e sumos refrigerados.
Há quem atribua esta mudança simplesmente ao desejo de experimentar novos sabores e não à preocupação dos consumidores em relação aos problemas de saúde.
Também penso que a água é a melhor bebida a consumir durante qualquer tipo de actividade física. Tenho que confessar, no entanto, que nos meus treinos semanais bebo powerade da coca-cola. Sequelas de velhos hábitos da adolescência em Moçambique, onde consumia coca-cola às litradas .

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domingo, novembro 27

Tardes de Domingo


Das lembranças da minha infância, os passeios das tardes de domingo no jardim Vasco da Gama são as que recordo com maior prazer.
Mão enfiada na manápula de meu pai descíamos a avenida Anchieta até à Praça do Município, contornando o edifício do Rádio Clube até à porta norte do jardim, ao encontro dos miúdos companheiros das cowboiadas e polícias e ladrões. Num ápice o meu pai desaparecia .
Horas depois, esfalfado de tanta correria e brincadeira lembrava-me que eram horas de ir ao seu encontro. Onde pararia ?
Era a altura de fazer de detective. Seguia a direcção da luz coada pela copa das árvores e em breve dava com ele, nikon em punho, agachado junto aos canteiros, a aproveitar os últimos fiapos de luz do fim de tarde .
Regressávamos a casa silenciosos, cansados de tanta felicidade.
De vez enquando fazia uma visita aos albuns de fotos, meticulosamente organizados, que guardavam os momentos mágicos das tardes de domingos fixados por meu pai. As fotos que mais me impressionavam deixava-as soltas sobre a mesa.
Sabia que na próxima visita encontraria as fotos que desarrumara arquivadas num enorme album de capa azul.
Foi este album que o meu pai me ofereceu quando completei catorze anos.
Nunca falámos de enquadramentos, iluminação, profundidade de campo, ou especificações de equipamentos. A nossa cumplicidade encarregou-se de construir a enorme herança, que eu nunca lhe poderei pagar, o gosto pela fotografia.

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segunda-feira, julho 18

Fundação Clinton

Bill Clinton chegou a Moçambique (17.07.05), para uma visita no âmbito do Programa de ajuda aos doentes com HIV, o qual vai abranger o tratamento de 12 mil Moçambicanos com antiretrovirais. A Fundação Clinton vai gastar com este Programa 83 milhões de euros, prevendo apoiar o tratamento de 130 mil moçambicanos até 2008.

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sábado, julho 9

Praia do Paraíso

Praia do Bilene- Moçambique














.
Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olharam

surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros.

Era a primeira vez. Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa.

E sabias a sal. E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras.

Havia mais céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas.

Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo.

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

david mourão ferreira, "os poemas da minha vida" MC, edição JPúblico.

Há muito que desejo passar férias em Moçambique.
Voltar a ver a Ponta do Ouro. Relembrar os meus vinte anos quando "se teve tudo". Por cobardia, faço conta aos tostões, e vou estafar-me a andar de bicicleta no Alentejo. Enquanto as canetas aguentam.
Hoje, quando acabei de ler este poema do dmf, foi muita a emoção. Estou a envelhecer.


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segunda-feira, junho 20

Pureza


Nós
jamais ficamos lívidos.
E nascemos tão simples,
que o rubor em nossos rostos
não tem sentido
não é possível
nem existe.

É uma fonte de aves o nosso canto
e o grito de capataz
não é sonho inventado
mas existe na manhã cósmica dos cargueiros atracados
e guindastes de duzentas e cinquenta toneladas.

Lívidos
nascem os outros
e o rubor em nossos rostos
não tem sentido nem existe.
Mas o permanente sentido de angústia
nossos corações de negros
faz cada vez mais puros.

José Craveirinha, publicado em 31 03 1962 na Voz de Moçambique.

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sexta-feira, junho 17

3 Refinamentos


Black is Beautiful
I
Nas
folgas dos marinheiros
Elisa
faz muito serviço à noite
II
Se tudo
em nós pretos é ciência
elementar:
caniço
farinha
ritmo
e água-
refinado Mozart para quê
no stéreo de uma cassete ?
III
Na cidade
o modo viril dos cães
deita-nos
abaixo as calças
em 2,ª mão.
José Craveirinha
Edição Minerva Central , Lourenço Marques.

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quinta-feira, fevereiro 3

Antigos Combatentes

1. - Esta semana recebi esta estranha carta:

Departamento de Apoio aos Antigos Combatentes, Apartado 24 048, 1250- 997 LISBOA
Está concluído o processo respeitante ao requerimento apresentado por V. Exc.ª ao abrigo da Lei 9/2002 de 11 de Fevereiro. Este é o primeiro grande esforço do Estado para reconhecer os mais de 400 000 Antigos Combatentes que serviram a Pátria em condições especiais de dificuldade ou perigo.
É com satisfação que informo que lhe foi reconhecido, para efeitos de aposentação, o tempo de serviço militar, incluindo o tempo de bonificação, que totaliza 5 anos e 2 meses. Este dado foi já transmitido à Caixa Geral de Aposentações.
Assinado: O ministro de Estado e da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, Paulo Portas ; O Ministro das Finanças e da Administração Pública , António Bagão Félix.
2. - Sobre a v/ circular, cumpre-me informar o seguinte:
Este combatente "apenas" foi obrigado a prestar serviço militar nas forças armadas. Onde passei largos dias da minha vida em serviço na Companhia de Caçadores de Marrupa a comer ração n.º 30.
Sobre o "reconhecimento" do tempo de serviço militar nada tenho a agradecer.
Se, ao enviarem-me esta circular, na altura em que decorre a pré-campanha para as legislativas antecipadas, pensaram que eu corria a votar no CDS/PP, desiludam-se. Tentar trocar contagem de tempo de serviço militar por votos poderá parecer-vos um bom negócio. Corresponde à ideia que eu tenho do vosso partido. Neste ponto não me desiludiram.
Lx, 03 Fevereiro 2005
Xavier

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domingo, janeiro 16

Boa Música, faz bem à Saúde

Transition
John Coltrane - tenor sax
McCoy Tyner – piano
Jimmy Garrison – bass
Elvin Jones – drums
Recorded at the Van Gelder Studio . Englewood Cliffs New Jersey Jun/Jul 1965.
1993 MCA Records
Blue Train
John Coltrane - tenor sax
Lee Morgan – trumpet
Curtis Fuller – trombone
Kenny Drew – piano
Paul Chambers – bass
Philly Joe Jones – drums
Recorded at the Van Gelder Studio . Englewood Cliffs New Jersey
Blue Note records
Era um puto meio parvo, cabelo comprido, inseparáveis jeans, sempre numa boa. Durante a semana assistia às aulas para não chatear os velhos. Na cidade onde vivia, pouco acontecia. A vida chegava de fora: Vietname, John Kennedy, São Francisco, Contracultura, Kerouac, Allen Ginsberg, Sontag. A música Rock funcionava como catalizador de sonhos. Tinha uma ideia vaga mas persistente de algo que almejava.
Como de costume, aos Sábados, curtia com os amigos na discoteca.
Nessa noite havia novidade. A Alexandra voltara de férias depois de se mudar para NYC com os pais.
A noite já esmorecia, depois do pessoal dar o seu melhor, quando A. me pediu para dançar. Quando a abraçei senti que o desconhecido se aproximara. Em casa falou-me da vida nos States. Do jazz: Parker, Monk, Chambers, Miles Davis, das baladas do Coltrane. Do amor sem fronteiras.
Quando horas depois acordei, desliguei o braço do gira discos que rodava a seco no "long play" do Coltrane. Nessa madrugada, a porta do mundo do jazz entreabrira-se.

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sábado, janeiro 8

Estrada Nacional N.º 1


Madjone-Jone Justino Manuel Sitói
emprenhou de quinquilharia seu camião Toyota
e saudoso regressou.

Na berma da estrada nacional n.º 1
saqueada carcaça de Toyota
enferruja a dois cajueiros,
perto da Manhiça.
Na cabina do Toyota escavacado
espírito de Madjone-Jone Justino
fincado ao volante
acelera derradeiros
randes
na estrada
nacional
n.º 1.
José Craveirinha

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