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Foi há dias mostrada ao mundo, com direito a discurso do Primeiro Ministro a cerimónia de colocação da primeira pedra da construção do Hospital de Cascais, o primeiro a ser construído em parceria público privada, isto é, sob a responsabilidade de uma associação entre o Ministério da Saúde e do seu orçamento e uma empresa privada: uma parceria publico privada.
Nunca percebi bem a vantagem e sobretudo a “pureza” desta associação de dinheiros públicos com interesses privados que o Reino Unido também experimentou, com resultados discutíveis, diga-se de passagem.
O sistema de saúde português assenta fundamentalmente num serviço público estatal, o Serviço Nacional de Saúde (SNS), financiado, até agora, pelo Orçamento do Estado e proprietário único dos seus Hospitais e Centros de Saúde.
Este grande serviço não impediu, felizmente, que no nosso país se desenvolvesse também um sector privado, possuindo, também ele, os seus próprios equipamentos, hospitais, clínicas, laboratórios, casas de saúde, bem como, liberdade de planeamento e investimento..
São os dois pilartes em que assenta a prestação de cuidados médicos do País que devem manter-se autónomos, como tem sido amplamente defendido pelos partidos ao longo dos anos, embora desejavelmente articulados, por convenções, programas, programações comparadas, de forma a que todos exerçam serviço público e o cidadão tenha liberdade de escolha.
Aliás, a independência destes dois sectores é tão importante, que todos os programas políticos preconizam e muitos veementemente defendem, que os próprios profissionais devem trabalhar apenas num dos sectores, para se evitar o natural conflito de interesses.
Dois sectores independentes e com distintas obrigações, em que o Estado através do SNS garante a qualidade, a formação, a actualização dos dois sectores e estabelece com o sector privado convenções de prestação de serviços, realizando assim os dois grandes princípios da política de saúde: o princípio do “ dinheiro segue o doente”, garantindo os seus direitos independentemente do sector onde se trate, e o principio de que o Estado não é, nem deve ser, o prestador único, mas sim o garante de que ninguém deixa de ser tratado por razões de falta de capacidade no sector publico.
Nada disto é perceptível na “filosofia” das parcerias e nesta agora iniciada.
E as ambiguidades foram logo bem patentes na cerimónia de inauguração com o Primeiro Ministro a insistir que o Hospital era do SNS, propriedade bem frágil porque a empresa privada vai administrá-lo e dirigi-lo clinicamente durante 30 anos, pagando o Estado, para além da sua parte nos custos da construção, os serviços que prestar à populações em períodos renováveis de dez anos!
Sabendo nós que a Medicina hospitalar e as suas necessidades evoluem com a rapidez de semestres, se não de semanas, que sentido têm contratos assinados quando é lançada e primeira pedra?
Que serviços serão necessários neste hospital dentro de três ou quatro anos ?
Que sentido tem dizer agora que deve ter ou não uma unidade oncológica?
Que sentido tem afirmar que vai ter os serviços anunciados quando nada garante deverem existir dentro de meia dúzia anos.
E sendo assim, que sentido assinar agora contratos de prestação de serviços, se preços e custos serão completamente diferentes quando inaugurado, mesmo se, o que francamente duvido, tal venha a suceder dentro de dois anos?
Nesta jogada às escuras do Estado apenas se sabe uma coisa: o parceiro privado não tem nenhum risco no processo e tem toda a liberdade de reivindicação e de modificação de contratos porque é inevitável a perpétua mudança das necessidades.
E o Estado, alivia-se de encargos iniciais, mas fica impossibilitado de se distanciar e defender os interesses da comunidade porque é parceiro e associado.
Se é necessário um hospital e se o sector privado está interessado em construi-lo, deve ser incentivado a fazê-lo por sua conta e risco, com a garantia de que o SNS será seu cliente, exigente e atento.
Mas sócio da empresa e pagador de serviços à empresa de que é sócio, desculpem, mas não é nada transparente.
Nem bom negócio para o País!
Paulo Mendo, PJ 28.02.08
Etiquetas: PPP Cascais