sábado, junho 25

Pôr termo às PPP

Modelo de gestão hospitalar «está fatigado» 
«Nos últimos anos foram muitas, talvez excessivas» as experiências de modelos de gestão hospitalar experimentados em Portugal, frisou Adalberto Campos Fernandes, lembrando as experiências de concessão da gestão pública no Hospital Fernando da Fonseca, os modelos de unidades locais de saúde, de parcerias público-privadas e de gestão hospitalar em modelo S.A. e EPE sem que, até hoje, tenha sido feita qualquer avaliação dos resultados de qualquer uma destas experiências. 
«Há de facto em Portugal muitas experiências, temos muitos modelos de hospitais, mas temos um baixíssimo nível de avaliação e temos de parar para pensar e parar esta tendência infernal de produzir leis, criar instituições, criar modelos e é isso que estamos a fazer: procurar aproveitar o que de melhor existe, mas não estar constantemente a criar situações novas”, explicou aos jornalistas à saída do encontro «Os Hospitais – Reforma do Serviço Nacional de Saúde», que decorreu no passado dia 21 em Lisboa, onde acabou por reconhecer igualmente que o actual modelo de gestão hospitalar «está fatigado» e precisa ser reinventado. 
«O problema não é tanto de financiamento é um problema de organização», explicou à margem do encontro, acrescentando que o cidadão não pode ter «um percurso de martírio quando anda no sistema de saúde e ser obrigado a circular atrás do sistema e não ser o sistema a estar ao serviço dele». Todavia, estando neste momento a tutela em período de avaliação do que há no terreno, a perspectiva do ministro da Saúde é que no segundo semestre deste ano se possam tomar as primeiras iniciativas no âmbito hospitalar
TM 22.06.16 link 
Estamos de acordo com ACF. 
Chega de inventar. É necessário apostar no que melhor existe. Por termo às más experiências. Pôr termo às PPPs. Que apenas servem aos grandes grupos para acrescentarem escala e transferirem benefícios para as suas unidades privadas. 
Como refere Constantino Sakellarides: “não há nada que seja defensável para a manutenção das PPP. Não se percebe como empresas do outro lado do mundo (China, Brasil ou EUA), cujo interesse é retirar dinheiro, têm maior sensibilidade do que o Estado para defender o SNS”.
Clara Gomes

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terça-feira, fevereiro 7

Avaliação dos HH PPP

No nosso país, o modelo de hospitais PPP assenta num complexo contrato de gestão, cujo objecto prevê não só a concepção, construção, financiamento e conservação do edifício, mas também a prestação de cuidados por entidades privadas.

Parceria desenvolvida, por conseguinte, por duas entidades, responsáveis pela gestão do edificio e a prestação de cuidados, remuneradas por mecanismos de pagamento distintos:

Entidade gestora do estabelecimento hospitalar (contrato de 10 anos) – paga por grandes linhas de produção: urgência, internamento, ambulatório, de acordo com uma tabela de preços específica, definida no contrato de gestão.

Entidade gestora do edifício hospitalar (contrato de 30 anos) - paga com base na disponibilidade de um conjunto de serviços contratualizados (concepção, construção e manutenção do edifício e infra-estruturas hospitalares).

Do programa inicial estão actualmente em funcionamento quatro hospitais em regime de PPP: Cascais (fev 2010), Braga (maio 2011), Loures (em fase de arranque) e Hospital de V. Franca de Xira (Reynaldo dos Santos) a funcionar em regime de parceria a partir de 01 Junho 2011 com inauguração do novo edificio prevista para Abril 2013.

A avaliação dos hospitais PPP deve ter em linha de conta o núcleo de objectivos que este modelo visa perseguir: a) melhoria do acesso; b) melhoria da qualidade dos serviços prestados, em termos de padrões de atendimento; c) qualidade dos projectos de arquitectura, construção e conservação do edifício hospitalar (funcionalidade e conservação das estruturas); d) adopção de modelos de gestão empresarial, eficientes e eficazes, baseados na transferência de riscos para os operadores privados.

No início de um novo ano, apenas a experiência do Hospital de Cascais PPP tem tempo de funcionamento suficiente, susceptível de ser avaliada.
Excelente projecto de arquitectura, construção e de gestão do edifício. Melhoria do atendimento em relação ao velho CHC, mas abaixo do padrão de qualidade desejável. Quanto à implementação de modelo de exploração empresarial (a equipa de gestão foi recentemente substituída), longe de preencher os requisitos de eficiência e eficácia expectáveis, como parecem comprovar os escassos dados de informação tornados públicos, referentes aos dois primeiros anos de actividade.

Os estrategas responsáveis pela concepção e desenvolvimento do modelo de PPP dos hospitais do SNS, de potencial incontestável, estavam longe de prever que a primeira experiência fracassaria, essencialmente, devido à dificuldade de pôr em prática o modelo de gestão de natureza empresarial preconizado.

Haverá, certamente, segunda oportunidade para evidenciar as potencialidades do modelo PPP dos hospitais do SNS. O acompanhamento da evolução mensal dos principais indicadores dos HH PPP poderá ser efectuado neste link

drfeelgood

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quarta-feira, outubro 6

Sea, Sun and Chemotherapy

Uma nova solução terapêutica para a "doença do século"... link Mas sem Doentes não há investigação clínica, e como tal, o próximo imunosuprimido e raquítico OGE, no que se refere ao capítulo SNS, vai fornecer os meios humanos e financiar a concretização do sonho do Prémio Nobel J. Watson durante os próximos 10 anos.

Tristes novas para quem diariamente se debate com os cortes do PEC2 e vai debater-se com os do PEC3, procurando manter um mínimo de qualidade técnica e assistencial com certificação e acreditação internacional....

john hunter

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segunda-feira, junho 29

Falhanço das PPPs


Coloquei na coluna da direita o link sobre o FALHANÇO das PPPs.

Este projecto do MS foi objecto na última semana de uma recomendação ao Governo por parte do plenário da Assembleia da República.

.../ « Nos termos regimentais e constitucionais, a Assembleia da República, reunida em plenário, resolve recomendar ao Governo:
- a exclusão do regime de gestão privada do modelo de Parcerias-Público-Privadas (PPP) adoptado em Portugal, recusando novos contratos que contemplem esta forma de gestão e denunciando os contratos entretanto subscritos. »

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sexta-feira, junho 26

Parcerias-Público-Privadas (PPP)

Projecto de Resolução n.º ...
Recomenda ao Governo que exclua do modelo de Parcerias-Público-Privadas (PPP) adoptado em Portugal, na área da saúde, o regime de gestão privada.

O que se tem passado, ao longo dos últimos anos, é suficientemente grave para excluir a gestão privada dos contratos de PPP. Será maior o prejuízo da sua manutenção que as consequências da sua rescisão.

Assim, nos termos regimentais e constitucionais, a Assembleia da República, reunida em plenário, resolve recomendar ao Governo:

- a exclusão do regime de gestão privada do modelo de Parcerias-Público-Privadas (PPP) adoptado em Portugal, recusando novos contratos que contemplem esta forma de gestão e denunciando os contratos entretanto subscritos.

Palácio de São Bento, 25 de Junho de 2009.

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Recomendação ao Governo


Da exclusão do regime de gestão privada das Parcerias-Público-Privadas (PPP) da saúde link

A salvaguarda do interesse público deve ser assegurada, em detrimento dos interesses vocacionados exclusivamente para o lucro. A constituição de PPP’s que incluem a gestão privada das unidades de saúde tem-se demonstrado totalmente ineficaz nos objectivos propostos.
Acresce que as PPP são um factor de instabilidade e precariedade profissionais e mesmo de despedimentos, como acontece actualmente quer em Braga quer em Cascais.
A gestão privada nas unidades de saúde é extremamente lesiva para o interesse público. Assim nos prova a experiência.
O que se tem passado, ao longo dos últimos anos, é suficientemente grave para excluir a gestão privada dos contratos de PPP. Será maior o prejuízo da sua manutenção que as consequências da sua rescisão.
Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, 25.06.09

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domingo, maio 31

PPP´s

(ou a versão Portuguesa de La grande bouffe)

Na próxima semana estará em cima da mesa a discussão da “best and final offer” relativa ao projecto do Hospital de Loures. Estaremos assim à beira de concretizar um dos mais irresponsáveis e mais mal fundamentados processos de decisão do ponto de vista clínico, económico e financeiro a que alguma vez o Estado se tinha submetido. Venceu a pressão persistente e poderosa do “sindicato” dos interesses organizado em torno das consultoras multinacionais, dos escritórios de advogados, dos interesses políticos e económicos salpicados pelo aventureirismo de uns neófitos aprendizes de filosofia neo-liberal aplicada ao sistema de saúde.
Não nos espanta o empenho posto neste projecto por LFP. No essencial LFP aplicou a receita conhecida do PSD para a saúde (e para todos os problemas do país) – privatizar, alienar património, retalhar e vender o Estado hipotecando o interesse público. O que surpreende é a complacência do governo actual com este processo. Depois das entradas de leão no que respeita ao HFF vamos assistindo às saídas de sendeiro com a lastimável capitulação perante a LCS S24 e o silêncio com a barbárie de atropelos que vão sendo cometidas pelos HPP Cascais. Fica claro que o interesse público sai vencido quando confrontado com os tentáculos do imenso polvo que procura, por todos os meios, capturar e destruir o serviço público para, rapidamente, tomar conta do respectivo financiamento. Pouco importa se no terreno já se montam “moscambilhas” negociais entre a parte de gestão pública dos HPP (Cascais) e a sua (anémica e quase insolvente) parte privada. Pouco importa se em Vila Franca até o banco dos irmãos-metralha (BPN) pode ainda ganhar a concessão. Pouco importa se as contas do HFF ainda estão por fechar desde 2003. Para cada problema, nesta portuguesa versão da grande farra, existe sempre um verdadeiro artista “bem posicionado e influente. Poderá ser um ex-político (ainda que troca-tintas), um “gestor hospitalar” do tipo caixeiro-viajante. Poderá mesmo ser um qualquer outro que tenha deixado um ou outro hospital público semi-falido e desconjuntado ou até mesmo um qualquer que tenha vindo directamente da missão parcerias saúde para uma parceria no terreno sem passar por qualquer período de”nojo” e exigindo mesmo ser indemnizado por não poder acumular ambas as condições. O bloco central é assim mesmo. Nunca sabemos como começa mas temos sempre a certeza que acaba numa qualquer empresa do grupo CGD. Na saúde então é matemático, Interessa lá agora discutir se as ditas consultoras andam a vender, por milhões de euros, soluções não comprovadas em nenhuma parte do mundo ou mesmo até em regressão. Interessa lá agora discutir a vulnerabilidade Estado fiscalizador e regulador perante a “gula” dos grandes escritórios de advogados envolvidos no processo e cujo principal objectivo é participar na elaboração das leis, na montagem dos contratos e na futura gestão dos litígios que vierem a emergir. Interessa lá discutir se a construção destes hospitais sairia mais barata aos contribuintes através do recurso ao serviço da dívida pública ao invés dos encargos projectados para as próximas gerações. Importa lá discutir o valor actual líquido, o custo de oportunidade ou até o custo-efectividade. Importa lá discutir a coesão do sistema de saúde, a integração de cuidados ou o racional político das decisões.
O que importa mesmo é abrir rapidamente o canal de drenagem do dinheiro público para os interesses privados suportando a decisão na ausência de estratégia mas satisfazendo o apetite de “gestores” de pacotilha e de desempregados da política (passados, actuais e futuros)

Se nada disto for verdade disponham-se por favor a uma discussão pública, séria, científica e técnica sobre os fundamentos destas decisões políticas. Ficamos contudo pouco optimistas com o exemplo do que se acabou de passar com a LCS S24. link Ficou claro que a capitulação do Estado vale pouco mais de 40 M de Euros (ou então dois ou três telefonemas dos “gestores” de influências).

PPP

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terça-feira, dezembro 16

A grande aventura

da privatização do SNS

A sociedade gestora do HFF, conhecedora da fraqueza do Estado preocupou-se apenas em segurar os riscos financeiros . Quanto à desnatação, up-coding, problemas de qualidade e classificação de actos, etc, passava tudo.
Foi, ainda, a confirmada fraqueza do Estado nos treze anos de exploração do HFF, que permitiu aos Mellos a aventura da baixa abrupta de preço do Concurso do Hospital Universitário de Braga, PPP.

A propósito, não é demais lembrar, que os Mellos apresentaram a este concurso uma proposta inicial de 1.019 milhões de euros, 14.1% abaixo do Custo Público Comparável (1.186 milhões de euros). Na 2.ª fase do concurso baixaram para 794 milhões de euros, menos 225 milhões, ou seja, 22% abaixo do CPC.
Até onde pode ir a irresponsabilidade!...
E o MS, o primeiro ministro, José Sócrates, aceitaram com sorrisos esta situação.
A começar assim, podemos antever facilmente o que vai acontecer ao contrato de exploração deste novo hospital universitário.
drfeelgood

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quinta-feira, novembro 20

PPP em avaliação


A ministra da saúde, Ana Jorge, nomeou um grupo de trabalho encarregado de estudar as PPP para a construção de hospitais e a avaliação de desempenho da PPP do Centro de Reabilitação de São Brás de Alportel (gestão clínica).
Fazem parte deste grupo de trabalho, Jorge Simões (coordenador), Pedro Pita Barros, Sofia Nogueira da Silva e Sara Valente.
Concluído o relatório, Ana Jorge promete que não é para ficar na gaveta.

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quarta-feira, setembro 24

CC em debate


Tivemos aqui, a propósito do lançamento do livro de CC link e do texto do Hermes, uma análise notável dos pontos mais importantes da governação do anterior ministro da saúde, um debate animado onde, como não podia deixar de ser, não faltou muita emoção. link
Sobre CC goste-se, ou não, uma coisa é certa, não se sentou na mesa da inacção. Agiu. Cometeu erros. Acertou, no âmbito da sua visão para o SNS, em muitas das suas medidas (epicurista).
Em relação a CC aprecio especialmente a coragem, o atrevimento, a paixão pelo desafio, a dedicação em relação à causa pública.
Quanto à sua governação lamento que tenha deixado correr o projecto das PPP, tal como o herdou do seu antecessor, Luís Filipe Pereira.
Talvez por isso não resisto a postar o que o Hermes escreveu sobre este tema, que CC, aliás, aborda de raspão no seu livro .

«Lembro aos mais distraídos que a continuação das PPP eram para CC uma inevitabilidade porque:

Não havia dinheiro no OGE para investir pesadamente em novos hospitais (nem há nem haverá tão cedo).
Urgia efectuar uma renovação profunda no antiquado parque hospitalar, sobretudo nas áreas de Lisboa e Porto, até para aumentar a sua eficiência e qualidade.
Esta renovação permitirá um novo ordenamento hospitalar, mais favorável (ex. de nove “ex-HCL” passar a ter apenas um HTS bem localizado e com estrutura adequada).
Por outro lado as PPP vinham do governo anterior e já havia compromissos para a sua continuidade.

As PPP não só não são uma “rendição” ou um “frete” aos privados como eram vistas, teoricamente, como uma boa solução:

O modelo era considerado mais exigente e melhor que o que havia (A-S).
Os “privados” na saúde não são um grupo homogéneo e coeso. Aí se integram situações tão díspares como: ordens e casas de saúde, verdadeiros hospitais privados (lucrativos ou de não), profissionais liberais, empresas produtoras de MCDT, etc.
Que a evolução e a concorrência favorecerá, sem apelo nem agravo, os verdadeiros hospitais privados (integrados em grupos financeiros) e isso, para quem defende a qualidade e a eficiência de resposta, é melhor que a continuidade dos falsos hospitais sem quadro de pessoal, organização adequada, mecanismos de garantia de segurança e qualidade, …»
Falta juntar a lista dos riscos que este projecto acarreta e que CC terá ponderado certamente.

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quinta-feira, setembro 11

Estado não está preparado

para negociar as
Sobre o modelo de gestão privada de um hospital público, diz nada ter a opor – “o problema é mesmo este contrato” – e concorda, por isso, com a saída dos Mello da gestão deste hospital.

O mesmo acontece com as parcerias público-privadas: “O Estado não está preparado para a engenharia financeira e jurídica” dos contratos, diz o antigo dirigente da Saúde, que critica a comissão de avaliação das propostas dos concorrentes às parcerias, liderada por Ribeiro Mendes. “Houve distracções várias, para não dizer pior, porque já era expectável que o Tribunal de Contas chumbasse o contrato de gestão por ter coisas diferentes do que estava no caderno de encargos”, conclui.
António Branco, DE 11.09.08

Este Governo, apesar de saber disso, teima no erro de apostar nas Parcerias Público Privadas para a gestão clínica dos quatro hospitais cobaias do SNS: Cascais, Braga, Vila Franca e Loures.

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sábado, setembro 6

Pipas de massa


«Os gastos em consultoria no âmbito das Parcerias Público-Privadas (PPP) para a Saúde poderão chegar aos 19,7 milhões de euros até 2012, mais 45% do que o Governo tinha previsto há um ano.» link
Em tempo de vacas magras e controlo rigoroso da despesa pública (em saúde), somos confrontados amiúde com estas notícias de milhões e milhões gastos nas PPP da Saúde.
Em consultorias.
Sem pinta de esperança de ver, algum dia, este "investimento" traduzido em resultados positivos na saúde e qualidade de vida dos cidadãos portugueses.

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terça-feira, setembro 2

Faz algum sentido ?


À ministra Ana Jorge, o primeiro-ministro entregou como principal missão apagar o fogo em que ardia a política da Saúde, então comandada por Correia de Campos. Mas com uma condição: não mudar de política mesmo que, para tal, fosse necessário mudar alguma coisa. Assim se explicam duas decisões em sinal contrário num curtíssimo espaço de tempo: acabar com a gestão privada no Amadora-Sintra e entregar a gestão do futuro hospital de Cascais a um consórcio privado através de uma PPP. Faz algum sentido? Na substância, é óbvio que não, mas na aparência sempre parece que alguma coisa está a mudar. As aparências iludem -- pelo menos por algum tempo, mas não mudam a natureza das coisas e muito menos da política. Na realidade, o que todos ficámos a perceber é que, também na Saúde, os favores aos grandes grupos financeiros são para continuar. Sócrates só sabe governar assim.link
A ministra Ana Jorge está refém deste difícil jogo de ilusões e ambiguidades.

João Semedo, TM 01.09.08

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quinta-feira, agosto 21

Textos pró PPP


Caro PPP,

Interessante o seu comentário ao post “Poupança PPP”. link Não tanto pelo que possa acrescentar à discussão em aberto sobre as Parcerias da Saúde (para a construção e gestão de novos HHs), mas pelos apontamentos críticos que nos quis deixar.
Depois de aconselhar “um papel mais neutral e permitir que sejam publicados posts pró PPP”, conclui que na saudesa se fazem “ataques ferozes às PPP, aproveitando, muitas vezes de forma desviante, as noticias publicadas a este respeito, com argumentos frágeis e esvaziados de base documental".
Se ser neutral é publicar textos pró PPP, venham eles. Mas não estou a ver que haja muitos voluntários, depois de tudo o que tem vindo a acontecer ao projecto das PPP no nosso país.
Quanto aos "ataques ferozes, argumentos frágeis esvaziados de base documental", talvez fosse útil o PPP ler os textos agrupados segundo a etiqueta: Parcerias da Saúde.

Nota: fico a aguardar os textos que referiu para publicação.

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quarta-feira, agosto 20

Poupança PPP


«O Governo pôs a concurso a construção de seis novos lanços de estrada. O custo estimado rondava €1800 milhões. Abertas as propostas, verifica-se que os concorrentes são poucos e que os preços mais baixos propostos excedem em cerca de 40% a estimativa tornada pública. (...)
Quem fez as contas iniciais? Com que grau de independência? Com que grau de detalhe, para se saber de onde vem o desvio? De que modo é responsabilizado, em caso de erro grosseiro? »(...) Daniel Bessa, semanário expresso 15.08.08

Depois de ler o artigo do DB, dei comigo a pensar nas contas dos dos HH PPP. Segundo o MS, o Estado irá poupar 777 milhões de euros com o negócio das PPP : construção (contrato 30 anos) e gestão clínica (dez anos) dos hospitais de Cascais, Braga, Vila Franca de Xira e Loures (CPC: 2.926 milhões – valor das propostas dos quatro concorrentes privados: 2.149 milhões = 777 milhões).
Isto depois de o concorrente que ganhou o concurso do Hospital de Braga ter feito um desconto de 225 milhões. (Como é possível baixar 20% de repente? CC, entrevista ao DE, 06.06.08)
link

Perante tanta habilidade do Governo em apresentar contas junto da opinião pública, de projectos que pretende implementar, quem nos garante, caso os contratos PPP venham a ser executados, que daqui a dez anos o Estado não terá gasto duas ou três vezes mais com estes quatro HHs?
Para mim esta é uma eventualidade quase certa que me traz deveras angustiado e me tira o sono com frequência.

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sexta-feira, agosto 15

PPP, bad deal (2)


Segundo o DE, «o Estado depois do chumbo do TC a algumas das alíneas de contrato de gestão, resolveu chamar novamente o HPP para renegociar as cláusulas chumbadas pelos juízes ao mesmo tempo que recorria da decisão.»

A coisa, posta assim, até parece que o chumbo do contrato de gestão do novo Hospital de Cascais, teve por fundamento reparos de pouca monta (umas alineazitas). Mero caprichar de juízes que nova negociação, devidamente assessoriada pelo que há de melhor na nossa praça, não resolva.

Acontece que os fundamentos do chumbo são deveras graves, pois os juízes conselheiros do TC concluíram da análise do processo que da negociação (feita com um só concorrente em momento posterior à fase negocial) resultaram condições menos vantajosas para a entidade pública contratante, do que as que inicialmente foram apresentadas pelo concorrente, tendo sido distorcido o mecanismo de aperfeiçoamento e melhoramento das propostas, com prejuízo da concorrência e do resultado financeiro do contrato. E que foram violadas disposições imperativas do caderno de encargos.
link

Estas conclusões radicam na verificação de inúmeros atropelos ao Caderno de Encargos, entre os quais se contam: a) alteração do perfil assistencial, em relação à prestação de cuidados continuados, à assistência a doentes infectados com HIV Sida, e à eliminação da produção do hospital de dia de Oncologia; b) alteração da arquitectura do sistema de monitorização do desempenho; c) dispensa da realização de inquéritos de satisfação dos utentes, para avaliação do desempenho da entidade privada; d) Alteração da matriz de risco e de repartição de responsabilidades do modelo de Parceria Público-Privada. (relativos à incerteza das variações de mercado); e) dispensa de pagamento de multas da qual resulta um enfraquecimento da efectiva fiscalização do (in)cumprimento do contrato, por parte da EPC.

Na qualidade de cidadão contribuinte, a minha expectativa relativamente a este processo, tendo em conta os graves erros detectados, pese embora o esforço de cosmética em desenvolvimento , é a emissão de novo piedoso chumbo por parte do TC.
Poderemos, então, todos os cidadãos portugueses, dormir mais descansados, certos que o TC é um dos melhores defensores do Serviço Público de Saúde.

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sábado, julho 26

Greve dos privados da Saúde

pior do que a dos camionistasVisão: O Observatório dos Sistemas de Saúde diz que os privados são dependentes do SNS. Em 2005, o SNS adquiriu aos privados produção na ordem dos mil milhões de euros…
Isabel Vaz: Se os prestadores todos da rede ambulatória dissessem, ‘já não fazemos análises, raio X, ecografias e por aí fora’, seria pior do que a greve dos camionistas. Quem está dependente de quem?
link

Não tinha tido oportunidade para ler a entrevista aos representantes dos grupos privados. A sobranceria com que pretendem impor os seus ditames e a agressividade com que contestam as opções de Ana Jorge em Saúde, traduzem bem até onde estão dispostos a ir nesta sua luta pela rentabilização dos milhões investidos.
A citação da greve dos camionistas não surge por acaso, é uma ameaça velada procurando, através da intimidação, condicionar as opções políticas do Governo. É, porém, um pau de dois bicos, pois deixa a claro o que pode suceder ao Estado Democrático se alienar as suas responsabilidades sociais e ficar refém dos grupos económicos.

Tá visto

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quarta-feira, julho 2

PPP do relatório


Iniciei a leitura do Relatório da Primavera 2008 link pelas PPP (pag. 23 a 28).
Confesso que fiquei chocado. Mas não surpreendido.
Por mim, dispensava as longas transcrições dos relatórios do TC, a servirem de âncora ao autor do humilde texto.
Para desanuviar o enfado, nova transcrição, desta vez, da PricewaterhouseCoopers, a classificar Portugal “campeão europeu” das PPP.
A narrativa sobre as vicissitudes da implementação das PPP no nosso país, desenvolve-se de ponta a ponta sem pinga de análise. E termina com os desabafos do dr Roquete (não havia mais nada de importante para escarrapachar neste texto) sobre a exclusão da gestão clínica privada da rede hospitalar pública.
Meu rico tempo perdido.

Sugiro o seguinte aditamento ao Relatório sobre esta matéria.
No concurso de adjudicação do Hospital Universitário de Braga PPP, o consórcio Escala Braga, (JMS, Somague e Edifer), apresentou proposta inicial no valor de 1.019 milhões de euros, 14.1% abaixo do CPC, no valor de 1.186 milhões de euros.
Na 2.ª fase do concurso o referido consórcio baixou o valor da proposta inicial para 794 milhões de euros (menos 225 milhões, ou seja, 22% abaixo do CPC, conseguindo, assim, bater o preço apresentado pelo consórcio liderado pela ESS (843 milhões de euros).
«Esta enorme redução levantou muitas dúvidas entre os concorrentes que questionaram os possíveis efeitos desta descida de preço na qualidade das propostas. O avaliador do Estado não pensou assim e, por isso, os Mello vão agora negociar com o Estado a redacção final da proposta de contrato.» (MB, DE 10.03.08).
Mais uma missão impossível para a entidade fiscalizadora. O consórcio adjudicatário conhece as debilidades do Estado. Sabe que é possível recuperar, mais ou menos facilmente, o desconto de 225 milhões, que lhe permitiu bater a concorrência.

As PPP conduzem invariavelmente a situações de oligopólio em que a concorrência pelos preços, a prazo, nada mais é que uma miragem, dando azo a concertação e divisão do bolo
Alguns estudos, nomeadamente do Institute for Public Policy Research, concluem que as PPP não proporcionam “value for money”, não rentabilizam o investimento e são demasiado caras.

Algumas das conhecidas possibilidades de aproveitamento das PPP:
- Up-coding, quando for conveniente e menos arriscado.
- Multiplicação de actos desnecessários ou inapropriados, onde houver lucro marginal significativo (pode ser o caso do SU).
- Subprescrição de medicamentos no ambulatório, beneficiando do diferencial previsto.
- Classificação dos seus doentes segurados como do SNS ou como não identificados (dizem-me que são pagos como se fossem do SNS).
- Desvio (desnatação) determinados doentes que interessem para os seus estabelecimentos privados.

Já sei, não é este o desiderato do relatório, discutir politics. É mais policies.
Pois a mim, pareceu-me mais um draft das aulas do professor Nogueira da Rocha.

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domingo, junho 22

Concorrência na saúde, a que preço? (2)





Com o post link pretendi abrir a discussão sobre as alternativas, verdadeiras, que se colocam ao SNS e desmistificar alguns argumentos que de técnicos pouco têm mas que, de tanto publicados, podem parecer verdades insofismáveis. Foi também minha intenção insistir na melhor organização do SNS. Não pretendi combater a ideologia transmitida mas apenas lembrar que, como as restantes «fés», todas são igualmente válidas e dignas. As opiniões veiculadas servem a concretização da estratégia e da comunicação (marketing) dos GP, mas é de questionar se não terão ido longe de mais na pressão (publicada) sobre o Estado e a opinião pública para alargarem a sua presença como prestadores, em detrimento do SNS. E é disso que se trata, como todos sabemos. Tudo o mais é poeira para os olhos ou espuma sem consistência bastante.

Estamos de acordo:
• Privado como complementar do SNS;
• Importância de ter bom mix público/privado em saúde;
• Ter um Estado só a regular e pagar não é «defensável»;
• O sistema dos EUA é dos mais ineficientes, iníquos e com sustentabilidade duvidosa;
• Alternativas ao SNS seriam: sistema tipo EUA ou outro que arrasta «grandes aumentos da despesas pública», ambos com efeitos negativos na competitividade e no deficit orçamental (sustentabilidade);
• Já há hospitais independentes (H. Descobertas e H. Luz), ou quase, o que é muito bom.

Onde não ficámos a saber:
• Qual o «… pensamento mais recente … que nega algumas destas premissas» (impossibilidade da concorrência perfeita funcionar em saúde);
• Afirma que «…os privados conseguem, quando se prestam a tal, praticar preços muito abaixo dos hospitais públicos nacionais» - não diz onde os preços são, por regra e para o conjunto dos actos produzidos, inferiores. Resta-nos por isso a apreciação, objectiva, da OCDE de que os nossos preços privados são superiores à média da EU, o que num país de nível de rendimento e de preços muito inferiores não atesta eficiência (nenhuma).

Discordamos:
Entre as questões onde discordamos seleccionei sete.
1 - Regulação tudo resolve: reconhecendo que o Estado é fraco a regular, organizar e controlar – é essa a experiência que todos temos – como esperar que, de repente, essa realidade mude 360 graus? Só pode ser argumento para fugir à questão (mercado não atinge aqueles objectivos);

2 - Todos os hospitais privados da EU funcionam, só pode ser assim, para o Estado.
Olhe que não, doutor:
• Há muitos hospitais por essa Europa fora que são completamente independentes e formam os seus próprios profissionais;
• As Cias de Seguro que suportam os GP (com os maiores bancos nacionais) foram convidadas por um governo para serem alternativa ao SNS e não aceitaram. Porque não fazem seguros integrais e em alternativa ao SNS? Porque a situação actual lhes convém mais! Enquanto for possível gerir a promiscuidade actual, fazer «facturação criativa» e extrair sobrelucros permanentes, sem verdadeiro e efectivo controlo pelo Estado, porquê mudar?

3 - Ataca os Prof.s PPB e JS, mas «não havia necessidade», estavam ausentes e não podiam responder. Percebo que não lhe agrade a ideia por eles defendida de acabar com a ausência de controlo que grassa nos subsistemas públicos: se funcionassem como seguradores e prestadores integrados concorreriam com os GP; se fossem integrados no SNS não continuava aquele descontrolo e os GP teriam muito menor receita. Só que são os contribuintes que pagam, na maior parte, a duplicação de cobertura e os proventos generosos obtidos pelos GP. Por isso lhe interessa manter o status quo?

4 - «… SNS, baseado em hospitais públicos, … é dos mais caros da Europa»:
a) Não sei onde foi buscar essa informação e gostava que a apresentasse aqui. O que se sabe é que o nosso SISTEMA de saúde gasta, em % do PIB em PPC, muito mais do que seria normal e esperado. O quê e quem é responsável? Em primeiro colocaria os altos preços praticados pela saúde privada (maiores que a média da EU), depois adicionaria a multiplicação de actos que promove (factor quantidade) e os efeitos perversos que o seu comportamento induz no SNS (ver minha citação do Porf. PPB), incluindo a sub-produtividade de algumas especialidades;

b) O SNS também tem «culpas no cartório». A verdade é que o SNS clama por organização e por solução de alguns problemas e «buracos negros» (como lhe chamou aqui um colega de blogue):
• As deficiência graves de resposta em cuidados primários e continuados - agora em vias de solução, parece;
• O «buraco negro» dos SU que provoca custos elevados, desorganiza a produção e permite o uso inapropriado, mas generalizado, de serviços de custo elevado em situações clínicas simples – provoca um custo de oportunidade altíssimo ao SNS e suporta as urgências que o privado não resolve, ainda que as produza;
• A inexistência de sistema de contratação interna que incentive os Serviços e de incentivos para os profissionais em função da produção - facilitaram a generalização de contratos à privada para produção de actos;
A incapacidade de gerir a contratação externa e de a controlar devidamente.

5 - Pessoal: ser do quadro do hospital ou do SNS é igual. Quando se trata de defender a concorrência e de afirmar que os privados são mais eficientes não parece bem:
• Omitir que se utilizam profissionais cuja formação/desenvolvimento o SNS paga;
• Esquecer que com os profissionais transita muitas vezes a informação e o próprio doente, quiçá já com os exames suportados pelo SNS;
• Calar que não é fácil concorrer (bem) consigo próprio, sobretudo quando estão em causa preços mais elevados que os da EU.

6 - Citação de J. White. Desculpar-me-á mas o seu arrazoado não passa disso mesmo, por ex.:
• Diz que a publicação «não é uma particularmente relevante. Podia ter escolhido outras.» Isto é, reconhece que há mais autores que chegam à mesma conclusão;
• Tenta contrariar a conclusão – o mercado em saúde não garante nem controlo de custos, nem acesso equitativo – referindo o que chama outros «modelos de organização» que o não são («mercado interno, semi-market»). A verdade é que os estudos efectuados nos EUA provaram que nenhum dos modelos experimentados (HMO, PPO, convencional) foi capaz de racionalizar os cuidados de saúde e atingir aqueles objectivos.

7- Diz que «…os hospitais EPE também recorrem a estes meios para equilibrar as suas contas» (multiplicar actos, por ex., consultas e exames desnecessários).
Tenho apenas duas perguntas:
1ª Conhece algum que o faça?
2ª Está a admitir que essa é a prática dos privados?

Contra corrente

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sábado, junho 21

Concorrência na saúde, a que preço?






O DE, volta e meia, brinda-nos com um jornalismo algo alinhado com o interesse dos Grupos Privados de saúde, exceptuam-se as peças escritas do genial Pita Barros (PPB) e pouco mais. Compreendemos porque o jornal dá mais audiência e voz aos que não se cansam de repetir os benefícios que a «concorrência» e a actividade daqueles, sempre «eficiente», trazem ao SNS. O que não é aceitável é a dualidade repetida: glorificação para aquelas posições (ideológicas), silêncio quando não manipulação, para os que defendem o desenvolvimento e o reforço da sustentabilidade do SNS.

Todos conhecemos as virtudes da concorrência quando actua plenamente: eficiência generalizada com redução de preços até ao limite da percepção do lucro normal, inovação na «indústria», melhor qualidade e serviço para o consumidor. Mas também sabemos que na saúde não existem as condições para a dita (perfeita) funcionar: consumidor não está informado, nem paga o que consome; não há publicitação dos melhores e piores prestadores; produto não é homogéneo; existe forte poder de monopólio (por exemplo nos hospitais); não existe tendência para o preço ser ajustado (para baixo), com mais prestadores. Este quadro agrava-se quando, como acontece em Portugal, o Estado se revela fraco na regulação, na organização e no controlo.

A saúde privada, com poucas e honrosas excepções, «concorre» com o Estado utilizando os trabalhadores daquele, quando não também a informação e o conhecimento dos doentes que naquele estão à espera – por vezes com os meios do Estado, como quando se faz circular o doente pelo SNS para fazer exames (dispendiosos) e depois ser operado no privado.
Os prestadores independentes e com quadro de pessoal próprio, não existem em Portugal. Seja aristocrata da medicina (barão), capitalista (banqueiro) ou provenha de “La Rue” todos procuram e assentam os seus hospitais e casas de saúde em convenções e contratos com o SNS. Como diz o Resingão «agora o diabo seria ver o H. Luz sem ADSE, CV sem contrato com a ARS, … ».
Em que sector de actividade isto seria admitido? Pois no DE vemos os grupos privados de saúde a defender este status quo com desenvoltura e à vontade, reivindicando para eles, e para a tal concorrência, a melhoria de eficiência dos hospitais públicos.
Afirmam também que a melhor opção para a população seria o Estado só regular e pagar. Esquecem-se de referir que a eficiência na saúde não pode ser medida pelo custo do acto (eficiência técnica), porque então o prestador que multiplique actos (por ex., faça consultas e exames desnecessários) pode apresentar custo baixo mas o custo para a sociedade será elevado. A nível macroeconómico temos o exemplo dos EUA – em que a prestação é privada, ainda que na esmagadora maioria, não lucrativa –, com um sistema reconhecido como ineficiente, iníquo (48 milhões sem acesso) e com sustentabilidade duvidosa, apesar de ser o país mais rico do mundo.
Há estudiosos que concluíram que o mercado na saúde não racionaliza, não garante equidade nem eficiência (controlo de custos). Por exemplo J. White (The Milbank Quarterly, vol. 85, nº 3, 2007):
• «any kind of equitable guarantee of access requires the strong hand of government to mandate the necessary redistribution».
• «any form of cost control requires effective limits on prices, and that will work better through some sort of coordinate payment system than relying on selecting contracting by multiple purchasers».
• «the failure to rationalize the medical care system through the market is not accidental».

A saúde privada em Portugal actua na margem/saprofitamente face ao SNS, sabendo-se que a quase totalidade dos casos complexos e graves são desenvolvidos no SNS, que é onde se encontra a verdadeira qualidade dos actos e segurança clínica. Ainda assim o que vemos na saúde privada? Preços elevadíssimos, acima da média da EU.

Por isso um doente que paga milhares de contos por uma operação privada ou vinte contos por uma consulta dificilmente anteciparia, com satisfação, a saúde que resultaria da generalização daquela prática, em que ninguém se iria vangloriar da eficiência da «privada» (salvo os prestadores e as «sereias» do DE).
Assim não sobra alternativa que não seja defenderem que o Estado tudo deve pagar, o que nos remeteria ou para um sistema do tipo dos EUA (com custos elevados e problemas de equidade) ou para grandes aumentos da despesa pública. Estes aumentos resultariam em maior carga fiscal, que ninguém deseja nem defende – daí ser pura e simplesmente escamoteada pelos defensores de um Estado só regulador e pagador.

Não é defensável substituir o SNS por sistema assente na generalização da convenção com privados, por exemplo do tipo da praticada pela ADSE. Nesse sistema não há gestão da procura nem coordenação de cuidados, e o doente, dada a ignorância do que precisa, pode ser conduzido ao consumo de actos (exames, consultas, medicamentos) de necessidade e justificação nem sempre fácil. Deste sistema resultaria utilização excessiva de serviços de saúde pelo doente, tanto mais que a grande maioria da factura é paga por outrem (contribuinte).

A experiência Portuguesa nesta área tem sido negativa, verificando-se:
• Ausência de gatekeeping, de coordenação de cuidados, de revisão de utilização e auditorias clínicas;
• Resultados fracos na gestão da contratação – seleccionar, fixar o preço, limitar o volume, avaliar prestadores;
• Ineficácia no controlo de facturas e no combate à fraude.

A sua generalização seria, no mínimo, precipitada podendo raiar a irresponsabilidade económica e orçamental. Seria um desperdício global que a população e a economia (competitividade) iriam depois pagar caro. É que, como se dizia num editorial do DE:
• «o principal problema da saúde são os grupos parasitários … sejam grupos privados que fornecem todo o tipo de serviços e produtos quase sem controlo, sejam grupos de funcionários …. ».

Em Portugal, como diz PPB, «… os mesmos actores têm capacidade de criar lista de espera, seja por alteração da indicação clínica para operação seja por redução da capacidade no próprio sector público» e resolvê-la onde der mais jeito (privado), daí a conclusão do ilustre professor «o pagamento ao sector privado para resolver listas de espera … no privado é a forma mais rápida de introduzir efeitos perversos nos sistema». Daí a recomendação para «…uma melhor organização da capacidade disponível» e para procurar «… soluções de como fazer mais e melhor com os recursos existentes…».

Todos sabemos que a reforma do SNS, aí incluindo a melhoria da sua gestão, é vital para a sua sobrevivência e eficácia (futuras). Por isso termino dando-lhe voz: organizem-me, porra!
Contra corrente

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